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Ó Diego, não venhas cá abaixo ver isto

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Bom dia e não me levem a mal, por favor, mas nós na Tribuna há muito que nos rendemos à internet. Sim, à internet enquanto entidade omnisciente, como risonha senhoria do buraco negro agregador de uma mordacidade humorística bem específica que a faz ser uma providenciadora de gargalhadas, ora vejam: ainda os argentinos se digladiavam frente aos sauditas, fazendo por evitar uma derrota escandalosamente histórica, quando alguém publicou um vídeo de um caixão fúnebre a deslizar escadaria abaixo, com grande barulheira e a seguinte legenda: “Maradona a descer para ajudar a seleção da Argentina”.

A piada feita com uma frase, seis segundos e uma dezenas de degraus construiu-se com a restante pintura do quadro que a motivou. No Mundial em que a FIFA escancara a versão mais maleável da sua espinha, agindo à contorcionista de circo para desbaratar valores em prol dos seus bolsos, o primeiro escândalo futebolístico do tipo que dá fibra à história do torneio veio do mais improvável dos jogos. Em oito minutos, a desvalorizada Arábia Saudita marcou dois golos à favorita Argentina, sendo nesses e nos outros 82 minutos uma demonstração de coragem, arrojo e arriscar ao máximo com as possibilidades que se tem.

Defendendo-se com uma última linha longe da área, habilmente brincando com os foras de jogo e erguendo uma batalha em cada ação de um adversário com a bola, os sauditas, até então donos de apenas três vitórias em Mundiais, bloquearam uma agremiação de argentinos, porventura, demasiado confiantes de que o tempo lhes iria dar a benesse de uma vitória, só porque sim. Pouco correndo em desmarcações nas costas dos defesas e todos querendo a bola no pé, a seleção capitaneada por Lionel Messi foi um deserto de ideias, desertificada de alguém que chamasse a si o jogo ao centro do campo e entre as linhas da Arábia Saudita. Quem fez o tal vídeo terá visto nesses espaços os lugares onde Diego Armando Maradona proliferava com a sua genialidade.

Há quatro anos, estava descontrolado e ébrio nele próprio, a ser um espetáculo de luz e cor nas bancadas do primeiro jogo da Argentina na Rússia. Na sexta-feira, contaremos dois anos desde a sua morte, uma triste efeméride da lendária personagem que muita gente terá posto a dar mais uma voltinha no carrossel de comparações com Messi, que joga uma última vez atrás da orfandade do que um povo clama que Maradona conquistou sozinho, em 1986. O nosso Hugo Tavares da Silva, enquanto nos enviava vídeos da histeria saudita nas ruas de Doha, falou com adeptos, ouviu o marcador de um dos golos sauditas (que fala português) e contou o que viu no estádio.

No Catar, a sincronia defensiva trabalhada por Hervé Renard, treinador-nómada em África e agora selecionador nos meandros da tradução - pensando em francês, falando em inglês e sendo filtrado por um tradutor árabe - bem poderá merecer um merci, um thank you ou um شكرًا da FIFA. O idioma será indiferente, já que a entidade, vendendo-se como tão inclusiva, diversa e acolhedora de diferenças via chavões atirados para o ar, beneficia de uma surpresa em campo que desvie o falatório das decisões que vai tomando com a sua coluna vertebral de plasticina.

Já agora, quererá dar um obrigado também a Cristiano Ronaldo. Ontem soubemos da sua rescisão com o Manchester United por mútuo acordo, algo que ele provavelmente já saberia na segunda-feira, quando apareceu na conferência de imprensa a três dias da estreia no Mundial, não na véspera, como têm feito muitos capitães de seleção. Vamos vê-lo a jogar um Mundial como futebolista desempregado, sem clube e cheio de rumores a caírem à sua volta, motivador das questões que pediu aos jornalistas para evitarem colocar a outros jogadores da seleção.

Ele será, ainda mais, uma raridade. Em 2000, João Pinto foi ao Europeu sem clube e, seis anos antes, Diego Maradona apareceu no seu último Mundial, na prática, também sem um, porque era verão e ele não jogava pelo Newell’s desde janeiro. Seja aos argentinos ou ao português, o saudoso astro já não pode vir cá abaixo dar uma ajuda.

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Jogos do dia

Marrocos - Croácia (10h, Sport TV1)
Alemanha - Japão (13h, RTP1)
Espanha - Costa Rica (16h, SIC)
Bélgica - Canadá (19h, Sport TV1)

Veja o resto do calendário do Mundial.

A foto

De joelhos pela desilusão ou ajoelhados pelo agradecimento religioso, a dicotomia que cabe num frame captado por Liu Lu, da VCG/Getty Images, no final do Arábia Saudita-Argentina que cravou neste Mundial a primeira inscrição esculpida com surpresa. E mostrou como as cabeças em baixo podem ter vários significados.

De joelhos pela desilusão ou ajoelhados pelo agradecimento religioso, a dicotomia que cabe num frame captado por Liu Lu, da VCG/Getty Images, no final do Arábia Saudita-Argentina que cravou neste Mundial a primeira inscrição esculpida com surpresa. E mostrou como as cabeças em baixo podem ter vários significados.

VCG

Tenha mais um proveitoso dia à boleia de quatro jogos do Mundial e obrigado por nos ler.