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As bolas paradas e aquele bocadinho assim

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Em Inglaterra, a seleção feminina mostrou talento e capacidade técnica. Mas falta o passo em frente. Queremos dá-lo?

Em Inglaterra, a seleção feminina mostrou talento e capacidade técnica. Mas falta o passo em frente. Queremos dá-lo?

Harriet Lander/Getty

Ainda não há pouco tempo lembrávamos aquele domingo de 10 de julho de 2016, em que demos um pontapé ao cliché do fado português com a mesma força que Éder colocou naquele remate, tão cheio de alma como sorrateiro a entrar do lado direito de Lloris, guarda-redes francês.

Mas os clichés, admitamos, nascem de qualquer coisa, de uma realidade que nos habituámos a viver, a sentir e de quando em vez lá apanhamos com o costumeiro banho de realidade, o mesmo que nos leva, lá está, a inventar frases feitas como “o triste fado lusitano” e quejandos de igual qualidade. É claro que o “fado”, o “destino”, a “sina”, muitas vezes não são mais que algo muito mais concreto: os outros são melhores que nós, talvez trabalhem melhor que nós e além disso ainda têm aquela força mental que lhes permite matar no momento certo.

Toda esta conversa vem a propósito de dois acontecimentos do último domingo, que se desenlaçaram com minutos de diferença: a eliminação de Portugal no Euro feminino e a forma como a seleção nacional sub-20 de andebol deixou escapar um inédito título europeu, apesar de ter estado a vencer Espanha por quatro golos.

Há algo de injusto nas minhas palavras, admito, porque em ambos os casos estamos a falar de caminhadas com enorme mérito para os atletas. No Europeu feminino, Portugal começou os dois primeiros jogos a responder a desvantagens de 2-0: frente à Suíça chegou para o empate, contra os Países Baixos acabou em derrota, mas a seleção nacional, apenas 30.ª do ranking FIFA, esteve muitas vezes por cima da equipa que é campeã em título e vice-campeã do Mundo.

Contra a Suécia, era preciso ganhar, uma tarefa que parecia desde logo uma montanha: as nórdicas são uma das mais fortes seleções da atualidade. E Portugal voltou a falhar no seu maior handicap, as bolas paradas. Quatro dos cinco golos da Suécia foram marcados em lances deste tipo. Aliás, diz o Playmakerstats que 70% dos golos sofridos pela seleção nacional no Euro foram de bola parada, que serviu de desculpa para muito boa gente falar de “dimensão física”, “centímetros”, quando o problema vai muito para lá das outras serem grandalhonas e nós não.

Já os miúdos do andebol terão de alguma forma sucumbido ao peso histórico do adversário, à pressão de fazerem história. As seleções jovens de andebol andam há muito a lutar por títulos europeus, realidade que parecia impensável há alguns anos, mas Espanha é uma potência em todos os escalões, favorita em tudo o que entra.

O que nos faltará então? Não é sina, não é destino, não é termos crescido menos que os outros em altura. No caso do futebol feminino, a boa participação portuguesa no Europeu não nos poderá afastar de uma pergunta fulcral para os próximos meses: onde queremos estar? Porque um campeonato em que boa parte das equipas não são profissionais, em que se joga em sintéticos de péssima qualidade, em que os apoios são escassos e em que o investimento daqueles que o podem fazer não tem retorno corre o risco de fazer perpetuar a nossa condição de equipa de segunda ou terceira linha, estranho quando a seleção nacional masculina há seis anos nos deu aquela alegria. Pormenores como falharmos num capítulo tão importante no futebol feminino como as bolas paradas defensivas também não são só azar ou biologia. E a culpa não será das atletas, que mostraram enorme talento e capacidade técnica por estes dias em Inglaterra, porque isso está-nos no sangue. Estagnar e perder o comboio não pode ser opção - e se o talento existe, o que falta é investimento sério e a sério.

Quanto ao andebol, os últimos três anos foram de enorme sucesso tanto nas seleções como nos próprios clubes. No final de maio, o Benfica venceu a segunda maior competição europeia de clubes, batendo na final o campeão da Alemanha, que tem a liga mais importante do mundo. Nas seleções, talvez falte apenas a vitória que nos desbloqueie. Para metermos de uma vez por todas na cabeça que, apesar da piscina de praticantes incomparavelmente menor, nada devemos às Espanhas e às Franças. Vencer no domingo seria rebentar essa parede, mas talentos como os irmãos Francisco e Martim Costa ou Gabriel Cavalcanti dizem-nos que em breve (e com a indispensável aposta dos clubes), podemos estar a festejar algo que há alguns anos parecia do campo do esotérico - curiosamente, os nórdicos do andebol também são muito mais altos que nós e não chegaram à final.

Falando de andebol, lembrei-me de uma conversa que tive com Carlos Resende, glória da modalidade, há algumas semanas. Dizia-me ele que não há milagres no desporto e que o sucesso recente do andebol português não é obra do acaso, mas que, de facto, face ao investimento e à importância que o nosso país dá ao desporto, é um milagre que andem por aí os Joões Almeidas, os Fernandos Pimentas, as Patrícias Mamonas.

Imaginem o que poderia acontecer se não andássemos por aí só a confiar em fezadas, na sina lusitana, ou lá o que é.

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(E querem saber um pormenor curioso? O editor de texto em que escrevi estas linhas não reconhece a palavra "endometriose", o que diz muito)

O que aí vem

Segunda-feira, 18
⚽ A pré-época já vai a todo o gás e a semana começa com vários duelos com destaque para o Borussia Dortmund - Valencia (18h, Sport TV1)
⚽ Portugal já está fora, mas o Euro feminino segue: Islândia - França (20h, 11) e Itália - Bélgica (20h, RTP Play)
🎾 Ao longo da semana há ATP 500 de Hamburgo (10h, Sport TV2) e ATP 250 de Gstaad (11h, Sport TV3), este último com João Sousa

Terça-feira, 19
⚽ O Sporting joga com a Roma de José Mourinho em mais um jogo de preparação (20h, Sport TV1)
🚴 Após o último dia de descanso, o Tour entra nos Pireneus, com a etapa 16 entre Carcassonne e Foix (12h15, Eurosport 1)

Quarta-feira, 20
⚽ O Paris Saint-Germain, de Vitinha, Nuno Mendes e Danilo, enfrenta o Kawasaki Frontale na sua tour pelo Japão (11h30, Sport TV1)
⚽ Na 2.ª eliminatória de acesso à Champions, o Maccabi Haifa recebe o Olympiacos (18h, Sport TV1)
🚴 Curta etapa da Volta a França, mas com muita montanha e chegada ao alto em Peyragudes (13h, Eurosport 1)

Quinta-feira, 21
⚽ O V. Guimarães joga com o Puskás Akadémia em jogo de acesso à Liga Conferência (20h30, Sport TV1)
🚴 Última oportunidade para se fazerem diferenças na montanha do Tour, com chegada ao Hautacam, no final da 18.ª etapa (13h15, Eurosport 1)

Sexta-feira, 22
⚽ O Benfica enfrenta o Girona em encontro de preparação (18h, Sport TV1)

Sábado, 23
⚽ O FC Porto joga com o Monaco, em mais um duelo particular (20h, Porto Canal)
🏁 Fórmula 1: GP França, qualificação (15h, Sport TV4)

Domingo, 24
⚽ O Sporting apresenta-se aos sócios no Troféu Cinco Violinos. O adversário é o Sevilha (19h45, Sport TV1)
🚴 Dia da derradeira etapa do Tour de 2022, com a consagração dos vencedores em Paris (13h, Eurosport 1)
🏁 Fórmula 1: GP França, corrida (14h, Sport TV4)
🎾 Final do ATP 500 de Hamburgo (14h, Sport TV2)

Hoje deu-nos para isto

É uma das maravilhas do desporto: as contas e as probabilidades dirão que, de facto, os favoritos tendem a vencer mais vezes, mas depois acontece um qualquer fenómeno num dia ou numa prova específica que nos tira o chão das certezas. E é isto que torna o desporto verdadeiramente aditivo, a possibilidade de acontecer história, estórias, surpresas, momentos improváveis. Há duas semanas andávamos aqui todos a falar de Tadej Pogacar como favorito máximo e talvez único à vitória final da Volta a França, pelo talento que transborda empoleirado naquelas finas rodas de bicicleta, mas a semana do meio da mais importante prova do ciclismo trouxe-nos outro herói, o dinamarquês Jonas Vingegaard. E a sua equipa, a Jumbo-Visma, porque só uma equipa junta, abnegada, conseguiria deitar abaixo o fenómeno esloveno. O ciclismo, ao contrário do que possamos pensar, está longe de ser um desporto meramente individual.

Esta segunda-feira é dia de descanso, mas já daqui a umas horas o Tour entra na sua semana decisiva, no sobe e desce dos Pireneus, e há muito que um duelo no ciclismo, este entre Pogacar e Vingegaard, não nos deixava colados horas a fio à televisão. Para já, a vantagem é do rapaz nórdico, que ainda há uns anos andava a embalar peixe numa fábrica enquanto a sua carreira não despontava. Mas está tudo em aberto até Paris, no domingo.

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT/Getty

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