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O ano que esteve de sacanagem

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Novak Djokovic, há um ano, no Open da Austrália. A edição de 2022 começa daqui a três semanas e continuamos sem saber se o sérvio está vacinado, ou se vai estar em Melbourne

Novak Djokovic, há um ano, no Open da Austrália. A edição de 2022 começa daqui a três semanas e continuamos sem saber se o sérvio está vacinado, ou se vai estar em Melbourne

Matt King/Getty

Adorava embrulhar esta balela de ano e escrever-vos que foi interessante, ficando ao resguardo da muleta preguiçosa banalizada, há muito, por nós humanos e sei lá eu porquê, sobre isto de nos pronunciarmos sobre algo dizendo uma coisa sem dizer exatamente o que seja, mas ainda não encontrei forma mais mordaz de destroçar este adjetivo do que o pai que, vendo a filha a ler um livro pelo retrovisor do autocarro virado casa com rodas, pergunta-lhe qual é o alvo da leitura e a devolução que recebe foi um "é interessante".

De imediato, os outros cinco irmãos acionam sirenes nas vozes e assinalam a infração familiar que o pai, de pronto e serenamente, também corrige — "interessante é uma não-palavra, sabes que é suposto evitá-la, sê específica" —, pedindo à sua adolescente uma análise com pés e cabeça de um livro ("Lolita", de Vladimir Nabokov) em que o protagonista é padrasto de uma criança de 12 anos por quem é obcecado sexualmente. E pego num dos meus filmes preferidos que do caos vai desconstruindo a sua razão para, já agora, ser específico sobre este ano que está a findar.

Foi uma volta ao sol em que um dos homens mais hábeis de todo o sempre com uma raquete na mão chegou à vintena de Grand Slams, igualando dois dos seus pares lendários, continuando sem dizer se está, ou não, vacinado contra o bicho malvado que está no meio de nós; Novak Djokovic ainda está cheio de pudores em dizê-lo ao contrário de Joshua Kimmich, um dos melhores futebolistas do mundo, que foi renunciando à vacina até o Bayern de Munique o colocar de parte, o vírus o infetar e ele sentir nos pulmões a sua mudança de ideias.

Foi também um ano em que Marcus Rashford mostrou ser uma pessoa gigantesca e bem maior do que o futebolista que é, fazendo por milhares de crianças no Reino Unido terem ajuda do governo para não passarem fome, sobre quem Ole Gunner Solskjaer, então treinador do Manchester United, teve a infeliz sugestão que "talvez" o jogador devesse "dar" mais "prioridade ao futebol", queixando-se depois de ser mal interpretado; em que, em meros dois dias, uma incontável catrefada de gente de pronto se uniu contra a ideia de 12 clubes em fundarem uma exclusiva Superliga Europeia, que cedeu à oposição e, por enquanto, se mantém em estado morto-vivo.

Em que, seja por carisma, apetência natural ou fruto de um trabalho nos bastidores para ser, enfim, um bom tipo com sensatez todo-o-terreno, Rúben Amorim foi campeão nacional ao terceiro ano como treinador de futebol com um clube há duas décadas moribundo destes títulos; em que uma campeoníssima Simone Biles fez dos Olímpicos os Jogos do temos-de-falar-sobre-a-saúde-mental, expondo as suas fragilidades num meio onde se quer exaltar grandezas; em que, também em Tóquio, vimos um campeão português a torcer por quem saltava por se meter no caminho da eventual medalha de ouro de Pedro Pablo Pichardo; em que Lewis Hamilton, não vitorioso na Fórmula 1 ao fim de muitos anos, continuou a ganhar por abrir a boca e, simplesmente, dizer o que pensa quando esteve em países não muito amigos dos direitos humanos.

Este resumo amanhado à martelada, condenado a esquecer-se de muitos e muitas, focou-se em pessoas, não em feitos ou em equipas, porque de pessoas se trata quando passámos um ano inteiro na convivência com uma companhia virulenta cuja maior malvadez não surge nos microscópios de laboratório, mas é vivida: o afastamento das gentes, seja aparentemente momentâneo ou para sempre, quase sem darmos conta.

Nestas últimas semanas, aquilo que talvez mais nos entretém a seguir ao cinema e à televisão, quando isolados nos aconselham a estarmos para evitarmos que este detestável bicho não nos tire uns aos outros, também está a ter muitos atletas afastados da ação.

No desporto, a NBA, o ténis e o futebol têm sofrido com aquilo a que a pandemia obriga quando somos invadidos pela companhia da qual todos fogem. No basquetebol norte-americano já são dezenas de infetados, incluindo Neemias Queta; quando estamos a exatas três semanas do arranque do Open da Austrália, tenistas como Rafael Nadal, Emma Raducanu, Dennis Shapovalov ou Andrey Rublev estão positivos; e quatro jogos do Boxing Day inglês foram adiados devido a surtos de covid-19, enquanto, por cá, Ugarte do Sporting e Grimaldo do Benfica são os casos mais populares de jogadores a cumprirem isolamento de entre os vários clubes da I Liga com futebolistas infetados. Sermos ilhas remotas de uns e outros continua o seu processo de banalização.

Se ainda fosse preciso sermos esbofeteados com provas que, de facto, somos animais de hábitos, até quando temos de retirar vida deste caos tão cruel durante tanto tempo com demasiada gente, nos habituamos às coisas que ele nos impõe. A arte humana também está aí, na aparente graça com que retiramos sentido das mais estrambólicas situações. E assim retorno ao filme de partida, que termina com a família de um Capitão Fantástico a despejar as cinzas de uma mãe pela pia abaixo de um aeroporto, comungando numa gargalhada.

Este ano foi interessante, pois esteve de sacanagem para com todos nós, como se diz em bom português do Brasil, e se há lição pertinente a retirar para os propósitos desta newsletter, que teve mais 52 semanas de vida, é que devíamos ser todos um pouco mais como o que (aposto) esteve na génese de qualquer modalidade desportiva já criada — unir as pessoas, seja em torno da superação, do companheirismo ou da empatia de uns terem umas valias e outros, outras, e está tudo bem. Que o 2022 seja melhor para todos nós.

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Zona mista

Acho que se vai retirar, que não vai correr no próximo ano. A sua deceção no Abu Dhabi foi demasiado grande, e percebo-o.

Antigo CEO da Fórmula 1, proprietário de equipas e, resumindo, um dos pesos-pesados que sempre gravitam em torno da modalidade, Bernie Ecclestone disse isto acerca de Lewis Hamilton, após conversar por telefone com Anthony, pai do piloto, e nem sequer lhe descortinar vontade de falar sobre o futuro automobilístico do filho.

O que vem aí

Segunda-feira, 27

⚽ É a espécie de entrada de campo tardia de três portugueses no tradicional Boxing Day do futebol inglês: o Manchester United de Cristiano Ronaldo, Bruno Fernandes e Diogo Dalot defronta os novos-ricos do Newcastle (20h, Sport TV1). Por cá, o Estrela da Amadora-Desportivo de Chaves (20h15, Sport TV+ é o primeiro jogo pós-Natal nos campeonatos profissionais.

Terça-feira, 28

🏀 Por entre a catrefada de jogadores infetados com covid-19 que vão surgindo, a NBA prossegue com o Miami Heat-Orlanda Magic (00h, Sport TV3), seguido do Phoenix Suns-Memphis Grizzlies (2h, Sport TV3).
⚽ A bola continua a rolar com força e sem descanso em Inglaterra: de entre os jogos do dia, há um Leicester-Liverpool (20h, Sport TV3). Na I Liga portuguesa, as calorias natalícias começam a ser queimadas pelos jogadores do Marítimo e Vizela (19h, Sport TV2).

Quarta-feira, 29

🏀 Joga-se o Houston Rockets-LA Lakers (1h, Sport TV3) na NBA.
⚽ Mais jogos a acontecerem na I Liga: Famalicão-Belenenses SAD (17h, Sport TV2), o V. Guimarães-Boavista (19h, Sport TV2) e o Sporting-Portimonense (21h, Sport TV1). Entremeados com estes jogos, haverá também na Premier League o Chelsea-Brighton (19h30, Sport TV4) e o Brentford-Manchester United (20h15, Sport TV3).

Quinta-feira, 30

🏀 O madruga outra vez com a liga norte-americana de basquetebol, desta feita com um Boston Celtics-LA Clippers (00h30, Sport TV2).
⚽ Após um Paços de Ferreira-Santa Clara (17h, Sport TV1) e um Arouca-Sp. Braga (19h, Sport TV2), realiza-se o jogo grande desta jornada da I Liga, com muito em discussão após o 3-0 registado oito dias antes, no mesmo Estádio do Dragão: FC Porto e Benfica reencontram-se (21h, Sport TV1).

Sexta-feira, 31

🏀 Dois jogos em simultâneo na NBA: o Brooklyn Nets-Philadelphia Sixers (00h, Sport TV2) e o Orlando Magic-Milwaukee Bucks (Sport TV3).
⚽ A La Liga regressa após a breve paragem de Natal com um Valência-Espanyol (15h15, ElevenSports 1).

Sábado, 1

⚽ Partidas das grandes na Premier League para arrancar o 2022: Arsenal-Manchester City (12h30, Sport TV1).
🚙🏍️🚛🏜️ É dia de prólogo do Rali Dakar que, pela terceira vez, se concretiza na Arábia Saudita. No total, há 19 portugueses inscritos na prova rainha do todo-o-terreno, a maioria (sete) na categoria das motos (20h, Eurosport). Serão 12 etapas e um dia de descanso entre Há'il e Jeddah, onde os participantes vão chegar a 14 de janeiro.

Domingo, 2

⚽🏃‍♀️ As duas últimas equipas a serem campeãs nacionais de futebol feminino colidem para o primeiro jogo grande do novo ano civil: Benfica e Sp. Braga (15h, Canal 11).
⚽ Na Premier League, haverá um Chelsea-Liverpool (16h30, Sport TV1) para arregalar olhos e, na I Liga portuguesa, joga-se o Vizela-Belenenses SAD (18h30, Sport TV2). Na La Liga, é também dia de dérbi da capital com o Atlético Madrid-Rayo Vallecano (15h15, ElevenSports 1).

Hoje deu-nos para isto

Jorge Nuno Pinto da Costa, em 1987, a levantar o troféu da Taça dos Clubes Campeões Europeus, com João Pinto

Jorge Nuno Pinto da Costa, em 1987, a levantar o troféu da Taça dos Clubes Campeões Europeus, com João Pinto

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Não é hoje, mas amanhã, 28 de dezembro, que Jorge Nuno Pinto da Costa precisará de um bolo de diâmetro generoso para ter vagar suficiente onde se possam espetar 84 velas. É mais um aniversário do homem que em 2022 cumprirá 40 anos como presidente do FC Porto (em abril), sendo o líder de clube com mais títulos conquistados em Portugal.

O último dos mais de 60 que o clube ganhou durante a sua presidência foi há pouco mais de um ano — dezembro de 2020, vitória da Supertaça frente ao Benfica — e, nos últimos tempos, Pinto da Costa virou suspeito de desviar milhões de euros do clube em comissões de transferências, numa investigação que está a ser feita pelo Ministério Público.

Tenha uma boa última semana do ano e entre na próxima volta ao sol, acredite ou não na simbologia destes momentos, rodeado pelas pessoas que mais preza (porque a vida é vivê-la com esses e essas que mais quer). Obrigado por seguir a Tribuna, que pode acompanhar diariamente no site, no semanário Expresso e no Twitter e Facebook: @TribunaExpresso. E até 2022 👋