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Com 76% de incapacidade, Alex Roca fez os 42 quilómetros da Maratona de Barcelona e quer “converter os preconceitos em esperança”

Esta é a história de mais um exemplo de superação de Alex Roca, um catalão de 32 anos que com apenas seis meses de vida teve uma doença que lhe causou paralisia cerebral. Os médicos e os seus relatórios foram contrariados pela força deste homem que tem um lema especial: “O limite és tu que o impões”

Hugo Tavares da Silva

Twitter de Alex Roca

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O lema no pensamento é o mesmo que foi costurado como título do seu livro – “O limite és tu que o impões”. Quando tinha apenas seis meses, a Alex Roca Campillo foi-lhe diagnosticada uma doença que lhe causou paralisia cerebral. O corpo, obediente ao oráculo que mora na sua cabeça, foi castigado de tal maneira que ficou com 76% de incapacidade física.

Os médicos não adivinharam qualquer final feliz, temiam até um estado vegetativo se sobrevivesse. “Alucinaram” com a andadura desta história. “O desporto é muito importante na minha vida, ajudou-me a colocar objetivos e a superar-me a mim mesmo”, explicava no resumo do tal livro. Este domingo, este homem de 32 anos que já concluiu provas de triatlo e outras vertentes, terminou a Maratona de Barcelona, a mesma que fizera pela metade em 2019 e 2022, tal como as de Nova Iorque e Miami.

“Fiz história!”, gritava o texto na sua conta de Twitter. “A primeira pessoa do mundo com 76% de incapacidade a conseguir terminar uma maratona: 42.195 quilómetros”. Os emojis usados mostram punhos erguidos, como quem reivindica algo, como quem celebra a vida. Talvez este feito seja como o que partilha no livro: “uma bomba de autoestima”. Afinal, para além de ter “encontrado e saltado muitas barreiras”, trata-se de alguém que é um exemplo de amor à vida. O “esforço” é uma palavra a que recorre para explicar uma vitória de cada vez.

A poucos dias da prova, Alex Roca publicou um tweet com um vídeo onde aparecia também Carles Puyol, o antigo capitão do Barcelona. “Faltam 4 dias para fazer história!”, avisou então. “O meu corpo é uma mistura de medo, ilusión, motivação, orgulho pelo trabalho feito e nervos e mais nervos. Necessito de todos na meta. Necessito da vossa força, o vosso apoio e quero que façamos história juntos”.

A prova foi terminada em 5 horas 54 minutos e 36 segundos. A banda sonora era mítica “Now we are free”, de Enya, a tal canção que se ouve no “Gladiador”, e ainda palavras de ordem para incentivar o espanhol, mais as inevitáveis e gloriosas palmas, certamente de admiração e saídas das mãos de quem gostaria que o vento que provocam empurrasse Alex Roca mais e mais para a frente. Cruzada a meta, a fronteira que transformam homens vulgares em imortais, o atleta deixou o corpo cair no chão, gritou mudamente e cerrou os punhos.

“Isto foi possível graças a toda a minha equipa”, continuava o tweet. “Obrigado a todos os que me apoiaram, não tenho palavras”. E seguiu-se mais um emoji: um coração feito com as mãos.

Alex Roca, que também é embaixador da Fundação FC Barcelona, viu a tal doença afetar-lhe severamente a mobilidade nos braços e pernas, sobretudo o lado esquerdo (já foi operado duas vezes ao pé esquerdo). Comunica através da língua gestual. Ao ter contrariado as probabilidades e os relatórios médicos, tornou-se numa referência no que toca a superação, por isso dá inúmeras palestras sobre o tema e também, naturalmente, sobre as suas experiências. E faz essas partilhas também por outro motivo: “Para converter os preconceitos em esperança”.

Na ressaca do feito na Maratona de Barcelona, o catalão admitiu estar de rastos: “Estou muito contente e agradecido, estou muito impactado com o eco que isto teve. E também muito cansado, custa-me muito caminhar”.