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Rory McIlroy faz história no PGA Tour, instituição da qual se tornou o mais aguerrido defensor face à ameaça saudita

O norte-irlandês tem sido uma das vozes mais frontalmente contra a LIV Golf, novo circuito que tem seduzido muitos jogadores graças aos prémios milionários. Fiel à tradição, McIlroy manteve-se no PGA Tour e agora, numa recuperação histórica, venceu o Tour Championship e pela terceira vez a FedEx Cup, algo que nem Tiger Woods conseguiu. O cheque de 18 milhões de dólares já está nas suas mãos

Lídia Paralta Gomes

Rankin White/Getty

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Não seria de esperar que um desporto tão dado a história e tradições se dividisse de forma tão espetacular mas aqui estamos em 2022, com o dinheiro saudita a fazer uma razia no golfe e a levar muitos dos melhores atletas para um novo circuito, o LIV Golf, atraídos pelos cifrões e pelos muitos zeros à direita nos prémios oferecidos.

Nada que tenha impressionado Rory McIlroy.

O norte-irlandês de 33 anos tem andado afastado dos grandes momentos nos relvados mais verdejantes. Quando apareceu de tacos em riste foi como um furacão. Venceu quatro majors entre 2011 e 2014 e foi o melhor do ranking durante 106 semanas. Mas há oito anos que não prevalece num dos quatro melhores torneios do mundo. Ainda assim, este ano foi vice-campeão no Masters - curiosamente o major que lhe falta no currículo - e 3.º no British Open, que esteve muito perto de ganhar, um novo piscar de olho a uma forma antiga. Mas nem têm sido os seus logros em campo que o têm colocado como uma das figuras essenciais deste ano golfístico.

Nos últimos meses, Rory McIlroy tornou-se num dos maiores críticos da LIV Golf e dos colegas que abraçaram com carinho os petrodólares do Médio Oriente, deixando o tradicional PGA Tour, que tudo tem feito para sancionar os “fugitivos”. McIlroy é um dos resistentes e é quase um fechar de ciclo virtuoso este final de temporada: com uma recuperação digna de filme, bateu o número 1 mundial e favorito Scottie Scheffler no Tour Championship, levantando pela terceira vez a FedEx Cup, a super-final do PGA Tour, uma espécie de Super Bowl da modalidade, algo que nem sequer Tiger Woods conseguiu.

Haveria melhor forma de homenagear o circuito? Dificilmente.

Ben Jared/Getty

Para mais, tudo de forma épica, depois de iniciar a última ronda do Tour Championship, em Atlanta, seis pancadas atrás de Scheffler. Isto num torneio em que arrancou com um triplo-bogey e um bogey logo a seguir. Na quinta-feira, a vitória era uma miragem, no domingo parecia impossível, mas aconteceu. E com isso McIlroy leva para casa um cheque de 18 milhões de dólares (sensivelmente o mesmo em euros), que lhe permitirá oferecer um sorriso trocista quando se cruzar com os colegas desertores.

Depois de 2016 e 2019, o norte-irlandês voltou a levantar o importante troféu e a vitória de 2022, assume, tem outro sabor, num ano em que deu a cara pelo PGA Tour. Questionado pelos jornalistas sobre o peso do triunfo neste novo panorama, a resposta foi simples e direta: “Significa muito”.

McIlroy prosseguiu, sublinhando a sua fé no tradicional circuito. “Acredito no jogo de golfe, acredito neste circuito e nos jogadores deste circuito. A cada oportunidade que tenho, tento defender aquele que sinto que é o melhor lugar para se jogar golfe profissional”, disse, falando de um momento “de grande orgulho” não só para ele enquanto golfista mas também para o PGA Tour: “Houve alguns momentos difíceis este ano, mas estamos a ultrapassar isso. Hoje [domingo] vimos um grande espectáculo, com dois dos melhores jogadores do mundo frente a frente”.

O próximo desafio do jogador chama-se BMW PGA Championship, entre 8 e 11 de setembro, um torneio não do PGA Tour mas sim do DP World Tour, o antigo European Tour. Neste circuito, os golfistas que assinaram pela LIV Golf podem participar. McIlroy, admite, não podia estar mais desconfortável com isso.

“Odeio o que a LIV está a fazer ao golfe. Odeio, odeio mesmo. Vai ser difícil de digerir ver 18 desses golfistas lá, não me parece bem, de todo”, frisou em conferência de imprensa, na qual voltou a defender as suas convicções: “Eu acredito que o que digo está certo e quando achas que aquilo em que acreditas é o correto é uma honra colocar a cabeça no tronco”.

Entretanto, o “Telegraph” garante que a LIV se prepara para anunciar ainda esta segunda-feira mais nomes de peso para o seu plantel já de si dourado. Cameron Smith, vencedor do British Open, já terá assinado pelos sauditas. O chileno Joaquin Niemann, atualmente o jogador com menos de 25 anos com melhor ranking, é outro dos nomes falados.