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A fome já não está lá: Magnus Carlsen recusa defender o título mundial de xadrez

É o fim de um longo reinado. Grande mestre desde os 13 anos e campeão do mundo desde os 22, o prodígio norueguês não vai defrontar Ian Nepomniachtchi, em 2023, naquela que poderia ser a conquista do seu sexto título mundial. “Não estou motivado para jogar outro jogo… Eu simplesmente sinto que não tenho muito a ganhar”

Hugo Tavares da Silva

JOEL SAGET

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Já não tinha tanta fome. O alerta de Magnus Carlsen, que se vai esfarelando em vários alertas, ecoou em todos os tabuleiros de xadrez, em novembro, quando o genial número 1 do mundo estava a algumas semanas de conquistar o seu quinto título. A fome traduz-se em ambição e motivação. Não é complicado imaginar o sentimento. Se um dia viajarmos todos à Lua, a quinta viagem nunca será tão especial como a primeira.

O norueguês falou também, em abril, sobre prazer e como desfrutar é importante, é um conceito a que regressa de tempos em tempos. “Sem o elemento do gozo, não vale a pena tentar ser excecional em nada.” Agora fica mais fácil juntar as peças do puzzle, mas aqueles desabafos estavam, no fundo, a edificar a decisão final.

Apesar de tudo, dos alertas e temores, nem Garry Kasparov antecipou o que o norueguês anunciou esta quarta-feira: Magnus Carlsen não vai defrontar Ian Nepomniachtchi em 2023 e, por isso, abdica do trono. O anúncio surge ironicamente no Dia internacional do Xadrez.

“Ainda penso que o Magnus é o claro favorito para o jogo [de 2023], mas penso que de certa maneira o Nepo pode ter um arranque psicológico melhor porque já jogou contra o Magnus, e sabemos que o Magnus… não é estar cansado, mas penso que está aborrecido com tantos jogos. E ver outra vez o Nepo pode diminuir o entusiasmo dele para a preparação e jogo”, refletiu Kasparov, em fevereiro, ao St. Louis Chess Club.

Agora nunca saberemos o que daria esse duelo esgotante.

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As explicações do campeão do mundo de xadrez chegaram através do seu podcast, “The Magnus Effect”. “Não estou motivado para jogar outro jogo… Simplesmente sinto que não tenho muito a ganhar”, admitiu. “Ainda que esteja certo que o jogo seria interessante por razões históricas e tudo isso, não tenho qualquer inclinação para jogar e simplesmente não vou jogar”.

Aquelas palavras, claro, já viajaram por todo o mundo, abrindo uma fenda enorme na dinastia daquele desporto. Por um lado, diz-se que Carlsen estava a tentar engordar o cachê, por outro sugere-se que era ao formato das mais importantes partidas de xadrez que o norueguês torce o nariz. O presidente da Federação Internacional de Xadrez, defendeu recentemente que o atual campeão era um homem livre para fazer o que bem entendesse.

“Bom, significa que teríamos um novo campeão”, declarou, há sensivelmente um mês, Arkady Dvorkovich. “Mas temos grandes mercados. Temos Estados Unidos, Índia e China. A Rússia está um pouco de fora agora por causa da política, mas temos também a Europa. Estes mercados vão rebentar se um jogador dessa região ganhar. O interesse vai crescer acentuadamente. Estarei feliz com qualquer resultado. Qualquer um desses mercados é ótimo para nós. O dos Estados Unidos é potencialmente o maior.”

Magnus Carlsen, de 31 anos, vai assim abdicar do eventual sexto título mundial. Campeão do mundo desde 2013, quando derrotou Viswanathan Anand, Carlsen começou a jogar xadrez aos cinco anos. Aos 13 já era grande mestre. Aos 22 anos era o campeão dos campeões, transformando-se numa superstar daquele desporto, enriquecendo com patrocínios e desatando a loucura pelo tabuleiro das 64 casas e 32 peças no país natal.

Dean Mouhtaropoulos

A decisão do xadrezista transporta-nos para outras desta natureza, sobretudo a reboque do boxe, que mantém uns pontos de contacto quanto a ambições e desafios. Rocky Marciano, o tal pugilista que terá inspirado o senhor Rocky Balboa, pendurou as luvas em 1956 enquanto campeão mundial de pesos pesados. O recorde era notável: 49 combates, 49 vitórias, 43 por KO.

Floyd Mayweather Jr. é outro exemplo desta maneira gloriosa de se dizer adeus ao seu desporto: com um recorde de 50 vitórias e zero derrotas, o norte-americano que furou a reforma pelo menos duas vezes para superar, em combates milionários, Manny Pacquiao e Conor McGregor, em 2015 e 2017. Há poucos dias, o imaculado campeão e lenda do boxe admitiu voltar a deixar a reforma em paz, mas seria preciso um combate que aumentasse a conta bancária em 200 milhões de doláres.

Enquanto campeão mundial, Magnus Carlsen derrotou Anand, que tentou recuperar o cinturão, Sergey Karjakin, Fabiano Caruana e Nepomniachtchi. Em dezembro, com o título renovado, deixou outro aviso, mais um: “Só defenderei o meu título em 2023 se o vencedor do torneio de candidatos for Alireza Firouzja”. O iraniano naturalizado francês, de 19 anos, desiludiu em Madrid e terminou essa prova em sexto lugar num lote de oito xadrezistas.

Apesar do encanto pelo póquer e por Las Vegas, Carlsen desmente que este seja o adeus ao xadrez. “Não coloco de parte um regresso no futuro, mas não contaria com isso”, avisou. “Para que não haja ambiguidades aqui: não me estou a retirar do xadrez, vou continuar a ser um jogador ativo.” E, informando que ponderou este fado durante “mais de um ano”, garantiu que estava “muito confortável” com a decisão conhecida esta quarta-feira.

O que se segue na elite do xadrez? Com Carlsen fora da equação, Ian Nepomniachtchi terá pela frente, em longas e eternas batalhas mentais, o chinês Ding Liren.