Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

A despedida de Allyson Felix, lenda que andou às turras com a Nike, criou a própria marca e oferece ténis a atletas depois de serem mães

Venceu mais medalhas do que qualquer outro atleta nos Estados Unidos, mas mesmo se lhe tirassem os títulos continuava a marcar a história do atletismo. Lutou pelos direitos das mulheres no desporto, principalmente aquelas que são mães, e, assim como na pista, somou vitórias atrás de vitórias. Talvez seja esse o maior legado de Allyson Felix

Rita Meireles

Steph Chambers/Getty

Partilhar

“Esta temporada corro pelas mulheres. Corro por um futuro melhor para a minha filha. Corro por ti.”

Foi assim que Allyson Felix anunciou a sua última corrida em grandes competições. Este ano marca o final da carreira da mulher mais condecorada na história do atletismo norte-americano, mas nem nos momentos finais deixou de correr por algo muito maior do que as medalhas.

Camryn nasceu em 2018, um parto complicado que ameaçou a vida tanto da mãe, como da bebé. Felix passou por uma cesariana de emergência às 32 semanas devido a uma grave pré-eclâmpsia e ficou semanas na unidade de terapia intensiva neonatal ao lado da filha. Foi a primeira vez que a ensinou a lutar e foi aí que se tornou um exemplo.

A gravidez coincidiu com o momento em que estava a renovar o seu contrato com a Nike e, apesar de todas as suas vitórias, a marca queria reduzir o valor do contrato em 70%. “Se é isso que eles pensam que eu valho agora, aceito”, escreveu Felix numa carta aberta publicada no “The New York Times”, em 2019. “O que eu não estou disposta a aceitar é o status quo em torno da maternidade. Pedi à Nike que garantisse contratualmente que eu não seria punida se não tivesse o meu melhor desempenho nos meses a seguir ao parto. Queria estabelecer um novo padrão. Se eu, uma das atletas da Nike mais comercializadas, não conseguisse assegurar estas proteções, quem conseguiria?”.

A Nike recusou.

No seguimento desta carta e de outras divulgadas por mais atletas, além da abertura de um inquérito no Congresso dos Estados Unidos, a Nike anunciou uma nova política de maternidade. As atletas passaram a ter garantido o seu salário e os bónus nos 18 meses em torno da gravidez. Impactadas com a polémica, outras empresas seguiram os mesmos passos e esta tornou-se uma das maiores vitórias de Allyson Felix.

Hannah Peters

O que não foi possível apagar foi a desilusão que sentiu em relação ao seu patrocinador. “Ironicamente, um dos fatores decisivos para mim ao assinar com a Nike há quase uma década foi o que eu pensava serem os princípios fundamentais da Nike. Podia ter assinado por outro sítio por mais dinheiro”, escreveu a atleta, na mesma carta. Quando percebeu que as coisas não eram bem como imaginava, deixou a Nike e é hoje patrocinada pela Athleta. Corre com ténis da Saysh, uma marca que fundou e que envia gratuitamente um par de ténis a clientes que engravidaram - devido à mudança de tamanho dos seus pés.

Durante cerca de 15 anos de carreira, Felix sentiu-se desconfortável para falar e defender publicamente aquilo em que acredita. Nos últimos três anos, porém, tudo mudou. Em 2019, falou no Congresso dos Estados Unidos.

“Depois de ter vivido os dois dias mais aterradores da minha vida, aprendi que a minha história não era assim tão invulgar. Havia outras como eu, tal como eu. Negras como eu, saudáveis como eu e a fazer o seu melhor, tal como eu. E enfrentaram a morte como eu. Precisamos de dar mais apoio às mulheres de cor durante a sua gravidez. Há um nível de preconceito racial no nosso sistema de saúde que é preocupante e será difícil de combater, mas isso não significa que não o devemos fazer”, afirmou no Congresso.

JIM WATSON

E quando disse que este ano iria correr pelas mulheres, não foi da boca para fora. Em junho, lançou uma iniciativa com o patrocinador Athleta e o grupo sem fins lucrativos “&Mother” para proporcionar às atletas, treinadoras e staff os cuidados necessários para os seus filhos de forma gratuita nos Mundiais de atletismo que decorrem, até domingo, nos Estados Unidos.

Felix, Athleta e a Women's Sports Foundation abriram também uma terceira ronda de subsídios para cuidados infantis, fornecendo às atletas do sexo feminino 10 mil dólares para as despesas necessárias e para que possam continuar a treinar e competir. Até agora, foram distribuídos mais de 200 mil dólares através dessas bolsas.

É exatamente por isto que Allyson Felix se despede das grandes competições de atletismo como uma vencedora, ainda que a sua última medalha tenha sido de bronze. Foi na passada sexta-feira, em Eugene, que disputou a prova de estafeta mista 4x400 no primeiro Campeonato do Mundo nos Estados Unidos. O quarteto americano terminou em terceiro lugar, algo que teria desiludido a atleta numa outra fase da sua carreira, quando apenas a vitória interessava.

O que ninguém lhe tira é um lugar de destaque nas páginas mais bonitas da história da modalidade. Ganhou mais medalhas olímpicas do que qualquer outro atleta de atletismo norte-americano e sete das 11 que levou para casa são de ouro. Nos Mundiais também é recordista de medalhas: 19 em cinco competições, 13 das quais foram de ouro.

Tim Clayton - Corbis

Depois de passar pela experiência do parto, Felix confessou à revista "Time" que chegou a pensar na retirada: "Não sei se vou voltar. Não sei se consigo". Menos de um ano depois, tornou-se a atleta de maior sucesso na história do Campeonato Mundial, quando ganhou duas medalhas de ouro em Doha.

A vida de Allyson Felix foi tudo menos facilitada nas pistas. Os seus feitos são ainda mais impressionantes quando se olha para alguns dos nomes contra quem correu. Como Merlene Ottey, vencedora de oito medalhas olímpicas e 14 em mundiais; Christine Arron, detentora do recorde europeu das velocistas mais rápidas, Carmelita Jeter, a segunda mulher mais rápida de sempre; ou Shelly-Ann Fraser-Pryce, que na passada segunda-feira chegou à mão-cheia de títulos mundiais.

Allyson Felix já disse adeus aos grandes palcos do atletismo, mas a verdadeira despedida está marcada para o próximo mês. A 7 de agosto, Los Angeles e o mundo vão assistir à última corrida de uma atleta que marcou a história da modalidade, mas, acima de tudo, mudou e melhorou o que significa ser mulher no desporto.

"Coloquei cartazes teus na minha parede e na parede da minha irmã", disse Anna Hall a Felix, na quinta-feira, durante uma conferência de imprensa. "A minha família falava de ti o tempo todo. A forma como agiste durante toda a tua carreira deu um grande exemplo para o resto das raparigas na América. Por isso, obrigada".