Tribuna Expresso

Perfil

Modalidades

De correr descalça para a escola até se tornar uma mãe supersónica: Shelly-Ann Fraser-Pryce faz história com o 5.º título mundial nos 100m

A velocista jamaicana conseguiu aos 35 anos aumentar a lenda: em Eugene, chegou à mão-cheia de títulos mundiais no hectómetro, feito inédito, calando aqueles que vaticinaram que nunca mais competiria depois de dar à luz Zyon, em 2017. E a "Pocket Rocket" não só voltou como está mais rápida do que nunca

Lídia Paralta Gomes

Christian Petersen

Partilhar

Nos Mundiais de 2017, Shelly-Ann Fraser-Pryce não estava em Londres para tentar revalidar o título dos 100 metros conquistado dois anos antes em Pequim e que já tinha sido seu em 2009 e 2013. No momento em que as rivais se colocavam nos blocos e faziam os últimos rituais de concentração antes daquela corrida que dura pouco mais que dez segundos de tensão, a diminuta jamaicana, metro e meio de gente, sofria as primeiras contrações.

Confessou a própria à estação NBC que tudo se precipitou enquanto via a “sua” final. Zyon nasceu durante a entrega das medalhas, num pódio onde se tinha habituado a estar. Os Mundiais de 2017 deveriam marcar o regresso de Fraser-Pryce às medalhas de ouro depois da imensa desilusão que tinham sido os Jogos Olímpicos do Rio. Tal como o compatriota Usain Bolt, Shelly-Ann preparava-se para pela terceira vez consecutiva limpar os 100 e os 200 metros, mas uma lesão num pé deixou a jamaicana praticamente sem poder andar. O simples ato de calçar os sapatos de competição era um suplício e a atleta assumiu que passou as piores das dores para conseguir competir no Brasil. Ainda assim, chegou ao bronze.

E chegada a 2017, novo impasse. A gravidez e o nascimento de Zyon, apesar da alegria indescritível, traziam dúvidas a Fraser-Pryce, já que a cesariana a que foi submetida poderia significar que a atleta nunca mais conseguiria recuperar os níveis de força muscular nuclear tão necessários numa velocista, que precisa da potência para viver. Mas nove meses depois, com uma recuperação difícil pelo meio, Shelly-Ann estava de volta aos treinos. Em 2019, foi buscar mais um título mundial, em Doha.

E agora, em 2022, com 35 anos, repetiu a gracinha.

A "Pocket Rocket" há um ano, em Tóquio

A "Pocket Rocket" há um ano, em Tóquio

BEN STANSALL/Getty

Em Eugene, nos Estados Unidos, na madrugada de domingo para segunda-feira em Portugal, a “Pocket Rocket”, como é conhecida, pela sua estrutura compacta e grande velocidade, arrebatou a 5.ª medalha de ouro nos 100 metros em Mundiais. Partiu forte, explosiva como lhe é natural, e a frente nunca deixou de ser sua, ganhando com um bom palmo de diferença para Shericka Jackson (prata) e Elaine Thompson-Herah (bronze), todas elas jamaicanas, todas elas donas do pódio nos Jogos de Tóquio há um ano, com a diferença que aí foi Thompson-Herah ouro, Fraser-Pryce prata e Jackson bronze.

O quarto título mundial, conquistado em Doha há três anos, e que festejou com Zyon nos braços, já era inédito, o quinto só aumenta a lenda de uma das melhores velocistas da história. Nem Bolt conseguiu tais resultados. O ouro em Eugene no hectómetro faz da jamaicana também a atleta da história com mais títulos mundiais em eventos individuais (6).

Forjada na pobre Kingston

Parece que já passou uma vida desde que começámos a ver Fraser-Pryce nestas andanças e de facto é preciso recuar até 2008 para olharmos para o primeiro grande sucesso internacional da então miúda de 21 anos. Nos Jogos Olímpicos de Pequim, ainda de aparelho nos dentes e sem o cabelo pintado de cores berrantes, uma das suas imagens de marca, foi medalha de ouro nos 100 metros, dissipando as dúvidas de quem a achava demasiado jovem para tamanho palco.

Na Jamaica, a desconfiança era tal que chegou a entrar na federação do país uma petição para que a vaga conquistada por si nas provas de qualificação olímpica fosse antes alocada a Veronica Campbell-Brown, campeã mundial em 2017, que inexplicavelmente havia falhado um dos três lugares na seleção jamaicana para Pequim 2008.

Fraser-Pryce a festejar o primeiro de dois títulos olímpicos nos 100m

Fraser-Pryce a festejar o primeiro de dois títulos olímpicos nos 100m

Stu Forster

Nascida numa zona pobre de Kingston, capital da Jamaica, Fraser-Pryce corria descalça para a escola e foi apenas já no final da adolescência que começou a levar o atletismo mais a sério, quando entrou na faculdade e conheceu Stephen Francis, que tinha treinador Asafa Powell. Fez parte da estafeta jamaicana que foi prata nos Mundiais de Osaka, em 2007 e ao título olímpico de 2008 seguiu-se nova medalha de ouro olímpica em Londres 2012, também nos 100 metros.

Às dúvidas criadas após a gravidez de Zyon, Shelly-Ann respondeu com resultados: desde aí são dois títulos mundiais individuais, uma prata olímpica em Tóquio nos 100m e ouro na estafeta dos 4x100m também na capital do Japão. E para quem achava que a jamaicana nunca mais correria, que a biologia seria implacável, ela provou o contrário. Porque depois da gravidez tornou-se ainda mais rápida. O seu recorde pessoal é de 10.60s, marca feita em final de agosto do ano passado. Em Eugene, o relógio parou aos 10.67s, o melhor tempo alguma vez feito por uma mulher em Mundiais.

"Espero que este resultado mostre que a idade não muda nada", frisou Fraser-Pryce após mais uma conquista, ela que se tornou na atleta mais velha a vencer um evento de velocidade em Mundiais. "Podes estar nos 20 ou nos 30 e mesmo assim fazer coisas grandes. Só tens de competir e confiar em ti própria, nos teus instintos, no que tens dentro", continuou.

A jamaicana disse ainda sentir-se "abençoada" pelo talento que lhe foi dado. "Continuar a fazer isto aos 35, ter um filho, voltar a competir e continuar... espero inspirar as mulheres e fazer-lhes ver que podem fazer o seu próprio caminho", rematou ainda, naqueles que podem ser os seus últimos Mundiais.