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“É absurdo que eles compitam enquanto nós sofremos”: Vladyslav Heraskevych quer todos os atletas russos banidos enquanto a guerra durar

O atleta olímpico de skeleton foi dos primeiros a elevar a voz contra a Rússia, nos Jogos de Inverno de Pequim, mostrando para as câmaras a mensagem: “Não à guerra na Ucrânia” ainda em vésperas do início do conflito. Quatro meses mais tarde, o ucraniano protesta em frente ao bombardeado Centro de Treino Olímpico de Chernihiv, enquanto ajuda as crianças locais

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Adam Pretty/Getty

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Vladyslav Heraskevych, atleta olímpico ucraniano da modalidade de skeleton, tornou-se conhecido no mundo por ter protestado contra o conflito no seu país em nos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022, exibindo uma mensagem clara para as câmaras de televisão: “Não à guerra na Ucrânia”. Na altura, Vladyslav temeu ser expulso de Pequim, o que não aconteceu.

Quatro meses depois, o atleta de skeleton tem uma nova mensagem, consequência da evolução do conflito ucraniano. Em frente ao que era o Centro de Treino Olímpico de Chernihiv, a poucos quilómetros da fronteira com a Bielorrússia, Heraskevych é claro. “É tempo de todas as modalidades banirem os atletas russos até que a guerra acabe. É absolutamente absurdo que eles compitam enquanto nós sofremos”, frisou ao "Guardian".

Antes da invasão, o Desna Chernihiv, clube da terra, era sétimo na I Liga ucraniana, e praticava ali. Milhares de amadores treinavam no complexo desportivo, antes de este ser bombardeado. Atualmente, Herskevych ajuda crianças assustadas a treinar como se estivesse tudo bem. “A ideia (…) é ajudar o desporto para trazer felicidade a crianças cuja infância foi roubada pelos ocupantes. Durante mais de um mês, estes miúdos ouviram rockets e explosões à volta deles. Tinham pesadelos”, contou o atleta.

No princípio da guerra, conta o jornal britânico, Heraskevych ajudou a distribuir medicamentos e comida ao som dos rockets que caíam à sua volta. “Era assustador. Não sabias se estarias morto ou vivo, especialmente quando os estilhaços caíam a poucos metros de ti”, conta.

Vladyslav criou uma fundação solidária, que angaria fundos para os serviços públicos ucranianos e ajuda vítimas da guerra. O atleta olímpico quer também usar a sua voz para espalhar outra mensagem, de que o desporto internacional tem de ser suficientemente forte para seguir as pisadas de Wimbledon e proibir completamente a participação de russos.

“A Rússia sempre usou o desporto para a sua propaganda. Agora, o mesmo é usado para propaganda de Guerra”, disse Vladyslav. A proibição total dos atletas russos em competições internacionais poderia afetar a sua participação nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Heraskevych não concorda que o desporto possa ser separado da política. O ucraniano lembra que, pouco depois do início da guerra, o presidente russo Vladimir Putin participou num evento de apologia à invasão, no estádio de Luzhniki. Estiveram em palco, ao lado de Putin, atletas olímpicos de esqui, ginástica, patinagem artística ou natação. A maioria usava blusões com a letra “Z”, que se tornou o símbolo da iniciativa russa na Ucrânia.

“Aonde é que os atletas russos vão buscar o dinheiro? Ao governo. E representam o país, mesmo sem uma bandeira. (…) E em muitos desportos olímpicos, os atletas são também soldados. Por isso fazem parte do exército russo, aquele que está a atacar a Ucrânia”, defende Heraskevych, que desabafa: “A verdade é que nos próximos 10 anos, a Ucrânia vai ser prejudicada no desporto. Em muitos sítios, as nossas infraestruturas desportivas foram destruídas. (…) E no entanto, os atletas russos podem treinar e competir normalmente. Como é que isto pode estar certo?”.