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Liga dos Campeões

Tratado europeu de como não aparecer para um jogo

Pesadelo para o FC Porto, numa das piores noites europeias de que há memória no Dragão, que viu a equipa ser humilhada pelo Club Brugge por 4-0. Um misto de erros, falta de atitude, jogadores em sub-rendimento, outros que simplesmente não estiveram em campo. Um corretivo inesperado perante um campeão belga que está longe de ser uma super-equipa

Lídia Paralta Gomes

MIGUEL RIOPA/Getty

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O que dizer sobre um jogo em que uma das equipas, para mais a da casa e a favorita, resolveu não aparecer? A tempos foi essa a pobre sensação que transpirava do FC Porto - Club Brugge, que os jogadores de Sérgio Conceição eram simplesmente amálgamas humanas de carne, sem movimento, só ali presentes, esperando a inevitável derrota, a humilhação, numa falência coletiva total e estrondosa, como um prédio aparentemente coeso, orgulhosamente coeso, que um dia se desmorona por uma falha estrutural maquilhada com uma fina camada de cimento.

No Dragão, o Club Brugge, equipa simpática, longe de ser um colosso, uma coqueluche, um diamante que andamos todos ignorar, uma dessas estrelas cadentes que às vezes surgem na Champions, teve todo o espaço para passear pelo relvado do Dragão, brincando nas transições, aproveitando a defesa adormecida do FC Porto, a catadupa de más decisões. Quando deu por si, a equipa da casa já perdia por 4-0 e podia até estar a perder por mais.

Esqueçam o Artmedia, esqueçam a goleada com o Liverpool: este foi um verdadeiro tratado europeu de como não aparecer a um jogo, de como estar absolutamente perdido num campo que se conhece tão bem. Na última temporada, mesmo quando não conseguia ser intenso, o FC Porto tinha a criatividade de Vitinha e Fábio Vieira, a liderança de Otávio, a capacidade de vir buscar jogo de Taremi. Com os miúdos vendidos, o iraniano castigado e o médio internacional por Portugal a jogar sabe-se lá em que condição física, o FC Porto não existiu no dia em que lhe faltou pulmão, atitude.

O Brugge começou a ganhar cedo, logo aos 15’, numa grande penalidade sofrida e marcada pelo catalão Jutglà e percebeu-se logo que o FC Porto não estava fino. O que estava em campo era uma equipa passiva, incapaz de reagir à entrada a vencer daquele que parecia, no papel, o adversário mais acessível no grupo. Os erros foram-se sucedendo, os jogadores do FC Porto ultrapassados como se em campo estivesse uma equipa já entrosada e outra acabada de entrar na pré-época.

Após o intervalo, Conceição tentou mexer tirando João Mário, muito desastrado e quase sempre batido, e Evanilson, que em nada contribuiu no ataque, lançando Namaso e Toni Martinez. E tendo mais bola, o FC Porto conseguiu dar ainda mais metros de terreno aos belgas, que primeiro devagar e depois subitamente construíram uma goleada fácil para a qual nem tiveram de se esforçar particularmente.

MIGUEL RIOPA

Aos 47’, ninguém numa roda de jogadores do FC Porto foi capaz de tirar a bola à entrada da área a Jutglà e Sowah ficou com todo o tempo do mundo para entrar de rompante, com tudo a assistir como se de alguma bizarria se tratasse, marcando calmamente o 2-0. O terceiro golo chegou aos 52’, numa bola cruzada que ninguém conseguiu cortar, aproveitada então por Skov Olsen. E a faltar um minuto para os 90’, em três, quatro toques o Club Brugge galgou terreno e foi o jovem Antonio Nusa a marcar, isolado, tão sozinho que David Carmo parece nem ter dado por ele, a não ser quando já ia desgovernado com a bola até à baliza de Diogo Costa.

Do outro lado, o FC Porto era uma nulidade análoga: maus passes, péssimas decisões, sem ritmo, sem vontade, um ataque sem ideias feito de gente que nem sequer parecia querer estar ali. Salva-se uma jogada ainda na 1.ª parte, esforço coletivo em poucos toques que acabou com Pepê em frente a Mignolet mas a permitir a defesa do guarda-redes belga. Na 2.ª parte, só um cabeceamento de Namaso assustou o guardião, mas de resto foram 90 minutos de uma equipa ausente, atrapalhada, perdida, que ainda viu o Brugge enviar uma bola ao poste.

Esta é uma daquelas derrotas que pode deixar marca. Não pelos números, embora os números sejam vexatórios quando o adversário é o Club Brugge, que se reforçou bem, é certo, mas em momento algum no Dragão mostrou ser mais do que aquilo que é: uma equipa do pote 4 da Champions, a sonhar com uma participação europeia digna, talvez uma surpresa. A marca que pode deixar é o aparente desligar deste FC Porto do jogo. Não foi, não se viu, quando procurou outro plano ele não existia, a não ser colocar miúdos lá para dentro e no final ainda os obrigar a dar a cara para as televisões. Pode ter sido apenas um dia muito mau. Eles também acontecem. Mas mais do que treinos, vídeos, nos próximos dias este FC Porto precisa é de terapia de grupo.