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Liga dos Campeões

Edwards, no tempo e no espaço

Entrada fulgurante do Sporting na Champions com a primeira vitória dos leões na Alemanha, um 3-0 frente ao Eintracht Frankfurt que teve dois protagonistas: Marcus Edwards, com um golo e uma assistência, e Rúben Amorim, na forma como preparou o encontro, estancando o ritmo e intensidade da equipa vencedora da Liga Europa na última temporada

Lídia Paralta Gomes

Alex Grimm/Getty

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Por vezes parecia estar a complicar, a dar aquele passe a mais que afasta o perigo, a desafiar o timing. Mas não, o que Marcus Edwards andou a fazer em Frankfurt foi a procurar a sintonia com o tempo e o espaço, a moldar-se a eles, a ser água em função deles, a encontrar o milésimo de segundo certo, os centímetros quadrados perfeitos para dar ao Sporting aquilo que nunca tinha conseguido na sua história: uma vitória na Alemanha, a primeira alegria após sete derrotas consecutivas naquele país.

A estreia dos leões na Liga dos Campeões esta temporada não poderia ter sido mais estrondosa, um 3-0 frente a uma das equipas mais frenéticas da Alemanha, que adora estes palcos europeus, campeã da Liga Europa há uns meses. Uma vitória inequívoca porque foi um encontro trabalhado na perfeição por Rúben Amorim e executado melhor pelo inglês no ataque. Ou por Ugarte e Coates na defesa.

Porque Rúben Amorim fez o que prometeu na antevisão ao jogo: impediu a entrada forte do Eintracht, num dos ambientes mais impressionantes da Europa nas bancadas, guardando a bola para si. Na 1.ª parte, salvo alguns erros individuais que mais bem aproveitados poderiam ter atrapalhado o plano - Ugarte, Adán e Gonçalo Inácio com perdas em locais complicados -, o Sporting fez o Eintracht andar atrás da bola e quando não a teve contou com a segurança de Coates e os desarmes de Ugarte. Não pode haver intensidade e ritmo no adversário ou jogo partido quando a bola está no nosso pé.

Mesmo com algumas aproximações à área, ao Eintracht faltou sempre inventar verdadeiras oportunidades, oportunidades como a que Marcus Edwards teve aos 35’, a vaguear da direita para o centro, como tanto gosta, driblando um par de adversários e a tentar o remate ao poste mais próximo. Trapp estava atento, mas era o aviso que havia um inglês endiabrado em campo.

Só na 2.ª parte se percebeu o estrago que o Sporting havia causado ao Eintracht naqueles primeiros 45 minutos de contenção. Se tinha sido um jogo bonito até então? Não tinha. Se tinha entusiasmado? Também não. Mas a missão de Amorim estava a ser cumprida: os alemães tinham sido travados no seu ímpeto, frustrados, amarrados, e fisicamente isso notou-se.

DeFodi Images/Getty

Após o intervalo, o Sporting voltou a entrar com o foco na bola e na reação rápida à perda e o perigo do Eintracht só aconteceu num lance em que Porro estava a ser assistido, deixando o lado direito da defesa desguarnecido de gente. A saída de St. Juste por lesão e entrada de Neto criou apenas apreensão momentânea, com o central português a mostrar desde logo segurança. E a meio da 2.ª parte, o Sporting começou a servir veneno, na malha fina tricotada pelos pés de Marcus Edwards.

É dele o primeiro golo dos leões, aos 65’, após um lance de entendimento na esquerda entre Pote e Morita, com o japonês a fazer o passe atrasado para Edwards, que trabalhou naquele espaço curtíssimo, sempre como quem está quase a perder a bola, para encontrar a pequena abertura necessária para o remate. E poucos momentos depois, é ele que volta a fazer ponto de cruz na área, encontrando Trincão livre de marcação numa jogada rápida e viperina do Sporting, que começou com Adán, na reposição a encontrar Trincão, este a fazer de pivô para Morita, que rasgou o espaço para dar para Pote e este de seguida para o ex-Vitória.

Edwards sairia pouco depois porque Rúben Amorim leu na perfeição o que viria ali. O Sporting não tinha dado tempo nem espaço ao Eintracht para reagir ao primeiro golo, mas a revolta alemã podia acontecer. E com ela apareceriam os espaços, as oportunidades de contra-ataque. Rochinha e Nuno Santos, gente rápida e perita a jogar em transição, foram lá para dentro e aos 83’ foi mesmo o último a fechar as contas, um golo quase todo ele de Pedro Porro, que ganhou o lance na antecipação, passou por dois adversários no corredor direito e ainda teve o discernimento para cruzar tenso, perfeito para o colega da ala oposta encostar.

O plano do Sporting foi no ponto e o Eintracht também se perdeu nele, nunca conseguindo verdadeiramente organizar-se para ir em busca do resultado. Nota máxima para Amorim, a mostrar que este Sporting e o seu treinador aproveitaram da melhor maneira a participação na Liga dos Campeões do ano passado para ganhar experiência nos ambientes mais complicados. Uma vitória adulta e importante num grupo muito equilibrado, em que bons resultados fora de casa poderão ser decisivos para as contas finais.