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O golo era o prazer supremo de Fernando Gomes

É-lhe atribuída uma frase paradigmática. Aquela que coloca a obtenção do golo num patamar superior ao prazer produzido por um orgasmo. Por aí se vê o quão prazerosa terá sido a vida deste goleador nato. Fernando Gomes morreu no sábado, 26 de novembro, aos 66 anos, deixando um legado infinito

Valdemar Cruz

Peter Robinson - EMPICS

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A noite de 27 de maio de 1987 terá para sempre ficado gravada na memória de Fernando Gomes como o espaço de explosão de poderosos sentimentos contraditórios. No estádio Pratter, em Viena, o FC Porto fazia história e vencia pela primeira vez a Taça dos Campeões Europeus. Ainda por cima frente ao Bayern de Munique, um adversário dado como imbatível pelas casas de apostas. Das alegrias incontidas, das lágrimas, dos abraços, dos festejos pela madrugada fora, do sentimento de incredulidade naqueles instantes de apoteose, dão contam os infindáveis relatos onde se registam as memórias coletivas. Só que, perdido na imensidão de festejos, havia alguém para quem aquela vitória, não podia roubar o espaço de todos os sentimentos possíveis na humana natureza.

Havia alguém feliz, exultante como todos, tomado por arrepiantes sentimentos de incredulidade, porém marcado pela mágoa. Tentava assimilar a frustrante sensação de ter vivido algo de único e irrepetível na qualidade de espetador, quando, em condições normais, poderia ter sido parte e até porventura protagonista daquele passo final na caminhada para a glória. Lesionado uma semana antes com gravidade, Fernando Gomes, que marcara o golo da vitória na segunda-mão das meias finais contra o Dínamo de Kiev, ficara afastado daquela que à época, era tida como a final de todas as finais.

Um ídolo não desiste. Um ídolo não soçobra face às contrariedades. Ali mesmo, no calor da vitória, Fernando Gomes lançava a si próprio um desafio depois partilhado com todos os colegas na qualidade de capitão da equipa: após a Taça dos Campeões seguir-se-ia a Taça Intercontinental, e, no seu imaginário, o avançado só concebia a vitória como resultado possível.

Determinação, força, querer. São adjetivos tornados banais quando aplicados na terminologia do futebol. E, no entanto, era assim que o víamos aos 14 ou 15 anos, quando os acasos da distribuição dos alunos colocaram um futuro jornalista e um futuro ídolo do futebol na mesma turma do Liceu Alexandre Herculano, no Porto.

Invejosos, todos os outros rapazes – as raparigas estavam no liceu ao lado, o Raínha Santa Isabel – olhavam para aquele miúdo que, sem ares de vedeta, sabiam ser uma vedeta em potência. Naquele tempo os clubes não tinham a atual estrutura organizativa e não demorou a perceber-se que a presença de Fernando Gomes nos recreios daquele liceu que tinha a particularidade de ter nas traseiras as instalações da PIDE/DGS, seria cada vez mais escassa.

O futebol chamava-o e já o país começava a respirar em liberdade, com a Revolução de Abril a dar os primeiros passos, quando Fernando Mendes Soares Gomes, nascido em novembro de 1956 e, portanto ainda com 17 anos, se estreia na equipa principal do FC Porto no primeiro jogo da época 1974/75.

Fernando Gomes nasceu para o golo com a Revolução. Naquele dia 8 de setembro de 1974, exatos vinte dias antes do episódio da “Maioria Silenciosa”, um momento marcante no contexto do processo revolucionário e que ditou o afastamento do então presidente da República, António de Spínola, um jovem de cabelos lisos e bem negros sobe ao relvado do estádio das Antas para defrontar a CUF, então uma equipa com algum estatuto no futebol português. Os portistas, com Cubillas e António Oliveira no onze, e treinados pelo brasileiro Aymeré Moreira, campeão do mundo em 1962, vencem por 2-1 com dois golos do estreante.

Era o início de um longo percurso de goleador. Naquela época marca 18 golos em 28 jogos num campeonato com 16 equipas, das quais nove neste momento ou já não existem, ou andam perdidas em escalões secundários. Para lá dos crónicos três grandes, entraram na liça o Belenenses, o Setúbal, o Vitória de Guimarães e o Boavista. Depois, num campeonato ainda muito inclinado a sul, contavam-se equipas como o Atlético, Olhanense, Oriental, Farense, União de Tomar, Académica ou Sporting de Espinho. A prova foi ganha pelo Benfica e Yazalde, do Sporting, foi o melhor marcador.

O argentino estaria longe de imaginar que acabara de conhecer um rival, não só à altura, como capaz de o ultrapassar. Em 13 épocas no FC Porto, Fernando Gomes conquistou duas Botas de Ouro, daí o cognome de “Bibota”, seis Bolas de Prata, e treze títulos oficiais, que incluem, para lá da Taça dos Campeões Europeus, uma Supertaça Europeia, cinco campeonatos nacionais, três Taças de Portugal e duas Supertaças.

O golo era o seu prazer supremo. É-lhe atribuída uma frase paradigmática. Aquela que coloca a obtenção do golo num patamar superior ao prazer produzido por um orgasmo. Por aí se vê o quão prazerosa terá sido a vida deste goleador nato. Em 342 jogos conseguiu marcar 288 golos. Um deles numa partida épica. A tal que ficara prometida após a vitória na final contra o Bayern, durante a qual, no onze titular, o FC Porto apresentara onze portugueses. Um dos estrangeiros era o marroquino Madjer, que marca o célebre e malandro golo de calcanhar. Era o início da derrocada para o Bayern e o seu capitão Lothar Matthäus, que nunca antes haviam perdido uma final depois de estarem a vencer e com golos sofridos na parte final do encontro.

A história coloca Fernando Gomes em Tóquio, no Japão para, num domingo, dia 13 de dezembro de 1987, disputar a Taça Intercontinental diante 45 mil espetadores e frente ao Club Atlético Peñarol, do Uruguai, vencedor da Taça Libertadores. O jogo esteve para não se disputar e só se concretizou graças à insistência e empenho de Jorge Nuno Pinto da Costa, que conseguiu convencer adversários e organização de que aquele era o dia e não havia espaço para adiamentos.

Foi, pode dizer-se, um jogo épico.

Peter Robinson - EMPICS

Os jogadores não pisavam um relvado. Tentavam correr num lamaçal de neve. A bola não rolava. A visibilidade não era muita, mas aos 42 minutos aparece o inimitável Fernando Gomes para colocar o FC Porto a vencer. Ricardo Vieira empata aos 80 minutos e o pesadelo aumenta quando todos percebem que vai ter de haver prolongamento num recinto impróprio para a prática de qualquer desporto. A ironia maior é que o golo da vitória acaba por ser obtido aos 109 minutos por um delicado artista da bola, Rabat Madjer.

A vida, todas as vidas, fazem-se de ascensão e queda. Triunfam os que sabem reerguer-se e seguir em frente. Como aconteceu com Fernando Gomes quando, em novembro de 1987, o croata Tomislav Ivic, então a treinar os azuis e brancos, decreta: “Gomes é finito”. Enganou-se. Não era verdade. Mas era a sua verdade e isso levou-o a quase humilhar o jogador. Na segunda mão da Supertaça Europeia, frente a um Ajax onde então pontificava Cruyff, Ivic substituiu Gomes por Jorge Plácido antes do final do jogo, de modo a impedir o capitão de erguer o troféu em pleno Estádio das Antas. Os adeptos perceberam e não lhe perdoaram. Levou com uma monumental vaia.

Despedido Ivic, segue-se Quinito, que decreta outra verdade: “para mim, é Gomes e mais 10”. Também se enganou. Uma equipa de futebol é um coletivo com algum espaço para as individualidades. Fracassou. Foi-se embora.

Entra em cena Artur Jorge, com Octávio Machado como adjunto. Existissem ou não questiúnculas antigas, a verdade é que a relação não foi a melhor e o caldo é entornado numa deslocação à Madeira. A comitiva portista chega muito tarde ao hotel e os jogadores não terão gostado de ver que os primeiros a serem servidos com o jantar eram os dirigentes e equipa técnica. Gomes, como capitão da equipa, expressa esse descontentamento, há uma azeda troca de palavras e tudo termina com um processo disciplinar ao jogador.

Para surpresa, desgosto e apreensão de muitos portistas, Fernando Gomes abandona o FC Porto em junho de 1989. Vai para o Sporting, onde fica duas temporadas, até terminar a carreira. Era a segunda vez que o eterno ‘bibota’ trocava a camisola azul-e-branca. A primeira aconteceu no dealbar da época de 1980, no ardor do Verão Quente das Antas. O destino foi o Sporting Gijón, a estreia contra o Real Oviedo. O dragão marcou cinco golos, o seu nome acalmado como um herói. A idolatria durou pouco, após Gomes ter sofrido uma lesão grave, que o atirou durante quase duas épocas para fora dos relvados. Pinto da Costa foi ele próprio resgatar o goleador-mor das Antas, como prometera na sua primeira candidatura à presidência do FC Porto, nos idos de 1982.

Em todas as paixões há arrufos. Durante muitos anos, não foram as melhores as relações entre Fernando Gomes e os dirigentes do FC Porto, incluindo Pinto da Costa, devido à deserção para o Sporting. Nestas coisas, o tempo é sempre o melhor remédio e, no final, prevaleceu o bom senso de ambas as partes. Até porque Fernando Gomes, nunca deixou de estar no coração dos adeptos do FC Porto, o clube que, tal como o goleador, despertou para as vitórias com o advento da democracia em Portugal.