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Matheus Nunes foi-se embora, o que perdeu o Sporting? Condução de bola, saída de pressão e linhas batidas em corrida

Era o médio do Sporting mais participativo em jogadas que resultaram em oportunidades de golo na época passada e, de longe, o que mais metros de campo ganhava a correr com bola (os números provam-no). A saída de Matheus Nunes tirou à equipa de Rúben Amorim o jogador mais influente e eficaz a quebrar linhas de pressão e tirar adversários da jogada quando, coletivamente, o Sporting não o conseguia fazer

Diogo Pombo

João Carlos Santos

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A bola vem rasteira na direção de Matheus Nunes e ele aparenta relaxamento, tem o corpo em modo de espera, em pose de quem aguarda pela chegada do passe. É um engodo. O médio aciona-se, dá um pequeno avanço rumo à bola, planta um pé e serve-se desse apoio para aprontar o arranque com que freneticamente parte em corrida com a receção orientada. E lá vai o jogador a fugir de quem se aproximava com a função de o pressionar e tentar impedir que desse corda às chuteiras no tipo de momento que mais o diferencia.

Nos primeiros 30/40 metros do campo, onde as jogadas se constroem e matutam, Matheus Nunes não é um médio para receber a bola de costas, rodar com ela, ‘esperar’ pelo aperto do adversário, deixá-lo acercar e, aí, decidir o passe, já com ele fixado. Ele não era pausa no jogo do Sporting, era o botão de fast-forward: pela agilidade e potência a mudar de velocidade, tem condições incomuns que lhe moldaram a ter um estilo de jogo vertical e de muitas acelerações com a bola no pé como solução preferencial para ultrapassar adversários.

Foi isso que a equipa perdeu quando o clube o vendeu.

Não que Matheus seja avesso a tabelar, combinar com pés que joguem com ele ou a engatilhar o desequilíbrio numa jogada ligando passes com companheiros, mas não é isso que o distingue. Nunca foi. O português é um médio com anormal capacidade para desequilibrar, sozinho, quando recebe a bola perfilado para o adversário ou até de costas, rodando sobre si próprio e capaz de sair com a finta tanto para o pé direito, como para o esquerdo. A aptidão para resistir a tentativas de desarme ou de lhe retirarem espaço de ação nas zonas do campo onde se diz estarem as fases de construção - onde as equipas começam a congeminar formas coletivas de levarem a bola até à área dos outros - foi crescendo com o aumento da sua preponderância na equipa.

As conduções de bola de Matheus Nunes nos últimos 1.500 minutos que fez no Sporting

As conduções de bola de Matheus Nunes nos últimos 1.500 minutos que fez no Sporting

Driblab

Na época passada e nos primórdios da atual, o jogador serviu de solução para quando os movimentos-padrão coletivos para sair a jogar emperravam e a equipa precisava de um rasgo, que alguém quebrasse as linhas de pressão adversárias. O contraste com João Mário, homem de pausas pensantes com bola no pé, que ordena jogo através do passe e titular na época 2020/21 que devolveu um título de campeão nacional a Alvalade, sempre foi evidente.

Espreitando em zonas, sobretudo, do centro-esquerda, Matheus Nunes “foi evoluindo e ganhou atributos para sair de pressão, rodando e eliminando facilmente o adversário”, assinala Tomás da Cunha, analista e cronista da Tribuna Expresso. E foi-se distinguindo como uma fonte de conduções de bola: nos últimos 1.500 minutos que jogou pelo Sporting completou 113, segundo os dados da Driblab. Mais de metade aconteceu entre o final do meio-campo dos leões e onde começava o do adversário. Em média, o internacional português teve 4,45 progressões com bola (pelo menos 10 metros) por jogo, bastante acima da média (2,48) da I Liga. Pelas características que tem e pela forma de jogar da equipa, o médio não era o responsável por definir as jogadas, mas por as livrar de cercos adversários (e a forma de as outras equipas as condicionarem) e levá-las para a frente.

Se às conduções juntarmos as ações em que a bola tiver percorrido o mesmo mínimo de metros, mas através de passes, Matheus Nunes apenas ficou atrás de Vitinha na última época e em jogos do campeonato. Ao “oferecer agressividade na condução” e tendo “esta disponibilidade para ligar setores”, Tomás da Cunha lembra as características com os quais o Sporting se habituou a conviver “no modelo” de Rúben Amorim, que agora são “critério indispensável” na eventual procura de um substituto no mercado durante os dias que restam até 31 de agosto, quando se arrumarem os carrinhos de compras.

Jack Thomas - WWFC/Getty

Uma particular métrica da Driblab, empresa que recolhe e trabalha com dados, sustenta numericamente a influência de Matheus Nunes que se via em campo.

A “construção de xG” afere o papel de um futebolista em jogadas que terminam com um remate à baliza, avaliando a qualidade dessa oportunidade de golo criada sem contar com o jogador que dá a assistência ou com quem faz o remate. Resumindo, visa medir a qualidade da participação dos jogadores até ao momento em que a jogada é definida e “quem constrói as mais valiosas”. Matheus Nunes foi o quinto melhor médio neste parâmetro (0.52, sendo que quanto mais próximo de 1, melhor). No top 15 também constava João Palhinha (0.38), no décimo lugar.

Ambos saíram do clube este verão e se no caso do médio que foi para o Fulham já havia uma solução no plantel em Manuel Ugarte, o uruguaio que também prima nas coberturas defensivas e disputa de duelos, mas acrescenta outras valias com bola, na sombra de Matheus Nunes existia vivalma no plantel com um perfil semelhante.

Na forma de jogar com Rúben Amorim a equipa não depende em demasia dos médios para explorar os espaços por onde prefere atacar a área - os lançamentos para a profundidade partem, por costume, dos alas (sobretudo, do pé direito de Pedro Porro) ou até dos centrais (Coates) -, nem é habitual vê-los a assumirem o último passe (é mais comum a assistência para a assistência), mas, em partidas contra blocos mais baixos e com a linha defensiva mais perto da sua baliza, ou quando os adversários pressionam alto, logo junto aos centrais do Sporting, ter alguém no meio-campo capaz de tirar gente da frente em corrida e com receções orientadas valia ouro à equipa.

Rúben Amorim já admitiu que a saída (não pretendida, como fez questão de clarificar) de Matheus Nunes deixou o Sporting sem gente capaz de igualar as características que o internacional português dava à equipa, que até muito "aprimorou a capacidade de variação de flanco" na época passada, útil para lançar Pedro Porro, resume também Tomás da Cunha, indicando como fazia parte das dinâmicas da equipa essa ligação entre dois núcleos fulcrais para a criação de desequilíbrios nos adversários. Agora, sem o médio que já joga no Wolves, haverá duas formas de se tentar ganhar com uma perda: ou se procura uma alternativa com aptidões semelhantes, ou adapta-se o modelo às qualidades dos médios que ficaram.