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Uma questão de rotações. E mãozinhas

Adán não teve as mãos que Diogo Costa mostrou e Pedro Porro meteu-as onde não devia. O clássico da 3.ª jornada teve momentos de alguma intensidade mas futebol muito pouco vistoso, teve um FC Porto implacável a condicionar o Sporting e uns leões sem andamento a meio-campo para dar a volta à pressão. No final, os erros foram decisivos para a vitória por 3-0 da equipa de Sérgio Conceição, um castigo talvez demasiado pesado para o Sporting, mas a chamada à terra necessária para uma equipa coxa de plantel

Lídia Paralta Gomes

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Pode parecer estranho falar-se em mãos, extremidade dos membros superiores do corpo humano, para definir vencedores de um jogo de futebol, palavra que o português foi adaptar ao inglês football, mas este sábado, no Dragão, elas foram bem mais decisivas que os pés. Foram as mãos de Diogo Costa que taparam a baliza do FC Porto em alturas fulcrais de reação do Sporting e foram as mãos de Adán que, do outro lado, chegaram mais tarde ou tocaram onde não deviam. E as mãos de Pedro Porro foram protagonistas de uma das defesas da noite, com o pequeno pormenor do lateral do Sporting ser um dos 20 jogadores em campo que, de acordo com as leis do jogo, não o pode fazer.

E assim chega-se a um resultado gordo para o FC Porto, que bateu o Sporting por 3-0 em casa também por uma questão de mãozinhas.

Mas não só. Por estes dias o Sporting é uma equipa de plantel curto e a saída de Palhinha e Matheus Nunes terraplanou os últimos resquícios de agressividade daquele meio-campo. Face à pressão alta do FC Porto logo a abrir, cedo se percebeu que o Sporting ia sofrer para sair a jogar. Rúben Amorim preparou a equipa para ganhar nos fundamentos, mas não houve rotação para lidar com o pulmão portista, aquela atitude faca-nos-dentes que exige fineza técnica e rapidez. Não a houve no Sporting, sem conseguir progredir nos espaços que apareciam, com a bola a não chegar ao ataque móvel Pote-Edwards-Trincão, que na 1.ª parte foi um mero adereço ao jogo.

Do outro lado, e apesar da superioridade na batalha naval, o FC Porto também pouco criava no último terço e o primeiro golo nasce de um erro, o primeiro de Adán no encontro, a sair desembestado a um cruzamento de João Mário, sem perceber que Taremi, gato persa, já cheirava aquela bola. O iraniano e o espanhol engalfinharam-se e a bola sobrou para uma zona onde esperava Evanilson. Estávamos ao minuto 42 e o brasileiro só precisou de encostar.

O golo do FC Porto fez bem ao Sporting que finalmente pareceu sentir algum sangue a correr-lhe nas veias. Os leões até já tinham uma bola ao poste, um remate de Morita logo aos 11’ após uma jogada de insistência de Pote pela esquerda e voltariam a rondar a baliza do FC Porto a poucos segundos do intervalo. Diogo Costa brilhou e duas vezes. Primeiro, a sua mão esquerda afastou um remate de Trincão no coração da área, um remate ao qual o extremo português havia dado o efeito necessário para se desviar do guarda-redes. Mas o guarda-redes em questão dificilmente já se deixa enganar. No canto, salvou mais uma vez a sua equipa, agora com as duas mãos, após cabeceamento de Gonçalo Inácio. E com Coates a farejar a recarga, Diogo foi lá ainda, depois da queda, proteger de novo aquela bola, que era sua.

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A 2.ª parte trouxe um Sporting mais afoito e um FC Porto mais expectante, a dar iniciativa ao adversário. O trio da frente apareceu mais - a exceção de Edwards, completamente deslocado no centro do ataque, a jogar de costas - mas faltou discernimento nas poucas vezes que os leões conseguiram engatilhar boas jogadas no ataque, como o lance em que Trincão deu de calcanhar a Porro, que preferiu mais uma fintinha a rematar à baliza.

Estava mais fino de mãos do que de pés o lateral espanhol, como se veria aos 75 minutos, pouco depois de Rúben Amorim fazer alterações para tentar ir em busca do empate, recuando Pote e lançando Rochinha. Em transição, a equipa da casa chegou à área e Porro estava onde Adán devia estar. O instinto ou o desespero, vídeos de Luís Suárez quem sabe, terão levado o ex-City a ir com as mãos onde só poderia ir com os pés e o combo vermelho + grande penalidade era inevitável. Mas, ao contrário do avançado uruguaio, Porro não teve retorno da sua ação e o FC Porto passava mesmo a vencer por 2-0 - marcou Uribe.

A partir daí não havia muito mais jogo, apesar de nova boa reação do Sporting, a arriscar o que podia. Diogo Costa salvou mais um golo feito, quando Fatawu isolado lhe tentou passar a bola por entre as pernas e depois as portas ficaram abertas para mais um golo do FC Porto, em nova grande penalidade após nova saída pouco airosa de Adán, que tentou ir à bola mas atropelou Galeno.

O 3-0 talvez seja castigo demasiado duro para o Sporting, mas foi uma espécie de chamada à realidade para um clube que resolveu vender na mesma janela os dois médios mais influentes da equipa em períodos diferentes da era Amorim. Dois médios decisivos nestes jogos grandes da nossa I Liga, em que o que mais interessa não é jogar bem ou marcar muitos: é mais condicionar, impedir, ir ao cheiro do erro. A este Sporting faltam rotações e intensidade para competir nessas condições, faltará ainda mais quando aparecerem as competições europeias.

E com tudo isto, já são cinco os pontos perdidos pelos leões nestes três primeiros jogos. O FC Porto, pragmático e extremamente competente, salta para a liderança.