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Como jogam, quem joga, o que mudou: 3.ª parte do Guia da I Liga 2022/23

Futebol nacional

Gualter Fatia/Getty

A I Liga 2022/23 arranca, por fim, esta sexta-feira e o analista Tomás da Cunha escalpelizou as 18 equipas: nesta terceira e última parte, saiba o que esperar de Portimonense, Rio Ave, Santa Clara, SC Braga, Sporting e Vitória de Guimarães

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Tomás da Cunha

Tomás da Cunha

Analista e comentador de futebol

Portimonense

Não fosse a primeira volta da época passada, que os algarvios concluíram no sétimo posto, e o cenário na luta pela manutenção podia ter sido dramático. A equipa de Paulo Sérgio fez apenas 14 pontos na segunda metade, deparando-se com problemas sérios de criação e concretização. Os 31 golos marcados em toda a liga, muitos de bola parada, apontam para uma necessidade de melhoria, tanto a nível coletivo como a nível individual.

Beto rumou ao futebol italiano e o Portimonense ficou órfão de uma referência ofensiva à altura. O melhor marcador foi Welinton Júnior, com cinco golos marcados. De resto, não foram uma coincidência as dificuldades para vencer partidas em casa. O conjunto algarvio sempre se sentiu mais confortável num jogo de expectativa, podendo sair de forma direta e vertical para aproveitar espaços nas costas – algo que se verifica bem mais fora de portas. A bola parada salvou a equipa em vários momentos.

Para a nova temporada, exigia-se a chegada de um avançado que se enquadrasse no estilo da equipa. A potência de Bryan Róchez aumenta as soluções ofensivas, garantindo ameaça em campo aberto. Ainda falta perceber se Nakajima volta novamente por empréstimo, assumindo o papel de referência criativa. É importante para Paulo Sérgio, depois da saída de Lucas Fernandes para o Botafogo. A influência brasileira faz-se sentir em Portimão, já que Samuel Portugal e Willyan Rocha (está a ser cobiçado) são dois pilares defensivos. Melhorar ofensivamente é o desafio para garantir sem sobressaltos a continuidade na primeira liga.

Jogador referência: Willyan Rocha
Possível revelação: Filipe Relvas

O guarda-redes Samuel Portugal tem sido bastante cobiçado.

O guarda-redes Samuel Portugal tem sido bastante cobiçado.

Gualter Fatia/Getty

Rio Ave

Depois de confirmar o favoritismo na segunda liga, por ter sido despromovido e pela categoria do plantel, o emblema de Vila do Conde está de regresso ao palco onde se estabeleceu no século XXI. Luís Freire juntou mais uma subida à coleção e a permanência do treinador, bem como da espinha dorsal do 11 mais utilizado, permite antecipar que o Rio Ave não vai fugir muito do que fez em 21/22 – atacando num 3-4-2-1.

Construindo maioritariamente pela esquerda, onde se juntavam os jogadores mais evoluídos tecnicamente, soltava Costinha – terá a concorrência de João Ferreira, vindo do Benfica - em profundidade no lado contrário e potenciava situações de finalização para Yakubu Aziz e Pedro Mendes. De resto, a saída do avançado que chegou a aparecer no Sporting é a mais relevante na abordagem a 22/23. Também Gabrielzinho deixou o Estádio dos Arcos, obrigando a mudanças no lado forte – extremo esquerdo e avançado interior serão novidades.

Pedro Amaral, central com bola na saída a três, é fundamental para estabelecer a ligação com Guga, médio cerebral e a estrela do conjunto verde e branco. Foi eleito, com justiça, o melhor jogador da segunda liga. Vendo-se livre de lesões, finalmente, oferece-nos o futebol que prometeu na formação. Há curiosidade para perceber se Vítor Gomes ainda fará uma época completa de primeira liga ao mais alto nível ou se o Rio Ave tentará encontrar uma alternativa para funcionar como médio de recuperação. O desafio para Luís Freire, além de fortalecer o modelo que implementou na primeira temporada, passa pela adaptação a uma realidade em que os vilacondenses serão obrigados a defender mais tempo e a capitalizar os momentos com bola. Jhonatan destacou-se na baliza e é um dos pilares para tentar assegurar a manutenção.

Jogador referência: Guga
Possível revelação: Costinha

Guga, um dos capitães do Rio Ave, foi considerado o melhor jogador da II Liga na época passada.

Guga, um dos capitães do Rio Ave, foi considerado o melhor jogador da II Liga na época passada.

Gualter Fatia/Getty

Santa Clara

Depois do brilharete em 20/21, com o apuramento para as provas europeias pela primeira vez, os açorianos tiveram uma época muito atribulada. Daniel Ramos foi obrigado a lidar com inúmeras condicionantes, desde a vaga de covid-19 que afetou o plantel numa fase inicial à perda de jogadores importantes (Carlos Júnior, sobretudo). Isto levou a que o Santa Clara não conseguisse ser a equipa vistosa e eficaz de outros tempos. Veio Nuno Campos e, apesar da surpresa na Taça da Liga frente ao FC Porto, também não teve uma passagem duradoura por São Miguel.

Mário Silva, depois de uma experiência curta no Rio Ave, conseguiu alcançar um patamar de estabilidade que o levou até ao final da temporada. O próprio treinador procura afirmar-se na elite do futebol português. As saídas de Morita e Lincoln, dois jogadores de outro nível, tiram potencial ao Santa Clara (não esquecendo Villanueva), mas o desejo passará por ter uma época bem mais descansada e que permita cimentar o clube na primeira divisão. Para isso, os açorianos exploraram diversas hipóteses de mercado – como tem sido hábito, de resto.

Xavi Quintillà e Tomás Domingos, outro que se destacou ao serviço do Mafra, têm argumentos para formar uma das duplas de laterais mais interessantes da liga portuguesa. Quem também passou pelo clube do oeste foi Andrezinho, extremo criativo e perigoso em zonas interiores. Há conhecimento entre os dois. Rildo chega com a difícil missão de fazer esquecer Lincoln, até pelas semelhanças na aposta do clube – igualmente vindo do Grêmio. Joga normalmente da esquerda para dentro. Bobsin já foi considerado um dos mais promissores médios brasileiros (este em zonas de construção) e rescindiu com os gaúchos para se aventurar no futebol português. Martim Maia foi descoberto no Amora e Rodrigo Valente é outro jovem para ir crescendo em contexto de primeira liga. Atenção a Kyosuke Tagawa, móvel e com atributos na finalização, que deixou água na boca na recta final da temporada anterior.

Jogador referência: Marco Pereira
Possível revelação: Tomás Domingos/Andrezinho

O avançado japonês Kyosuke Tagawa transita da temporada passada e pode afirmar-se de vez como titular da equipa açoriana.

O avançado japonês Kyosuke Tagawa transita da temporada passada e pode afirmar-se de vez como titular da equipa açoriana.

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SC Braga

António Salvador, em entrevista, assumiu que a intenção é fazer melhor do que na época passada e, se possível, lutar por um troféu. Carlos Carvalhal abandonou Braga no final do campeonato, mas chegou a haver a sensação de ciclo terminado a meio de 21/22 – após a goleada sofrida no Bessa e a eliminação em Vizela. No entanto, houve mérito do treinador para recolocar a equipa no caminho certo e fazer uma segunda volta de alto nível, vencendo os três grandes e alcançando uma meta relevante na Europa.

Ao mesmo tempo, deixou bases para o futuro. A aposta na juventude é uma das marcas recentes do Sporting de Braga, formando para lançar na equipa principal e não apenas para vender. Rodrigo Gomes foi o substituto de Galeno à esquerda, Vitinha mostrou potencial de crescimento (altamente agressivo em todos os movimentos) e ainda apareceram nomes como Miguel Falé ou Roger com regularidade. A escolha de Artur Jorge – com um percurso feito em várias equipas do clube - surge nesse sentido. Há projeto para durar.

Percebe-se que, nesta altura, as ambições são moderadas a nível de campeonato. Já saiu David Carmo para o FC Porto e ainda não sabemos o desfecho da novela Ricardo Horta, que pode tirar a maior referência do plantel nos últimos anos. Perdendo jogadores para os três primeiros, torna-se mais difícil lá chegar e há o “risco” de o clube fazer novamente um trajeto em zona de ninguém. Apesar dos reforços para o setor defensivo, como Víctor Gómez e Niakaté, os nomes mais sonantes estão no ataque. Diego Lainez já foi considerado uma das maiores promessas mundiais e vai desafiar Iuri Medeiros como canhoto que desequilibra a partir da direita. Banza oferece soluções dentro da área e, se for alimentado, vai sempre garantir golos.

Jogador referência: Al Musrati/Ricardo Horta
Possível revelação: Gorby

O mexicano Diego Lainez, extremo canhoto de 20 anos, chegou por empréstimo do Real Bétis.

O mexicano Diego Lainez, extremo canhoto de 20 anos, chegou por empréstimo do Real Bétis.

MB Media

Sporting

As expectativas do clube verde e branco mudaram de um ano para o outro. Após terminar o jejum de títulos na liga, teve de lidar com uma responsabilidade extra a nível interno e com o fator Champions. Não foi uma época de desilusão, antes pelo contrário. De resto, os 85 pontos equivalem ao registo de 20/21. Reina a sensação de estabilidade e de um rumo desportivo definido, o que nem sempre aconteceu em Alvalade nos últimos anos.

Dos três candidatos ao título, os leões são aqueles que tiveram mudanças menos significativas para a nova época. Adán está de fora neste arranque e Franco Israel – não havendo ida ao mercado – tem uma prova de fogo. Saiu Palhinha, mas Ugarte já tinha provado que dava conta do recado no meio-campo. A perda mais difícil de superar é a de Pablo Sarabia, pelo que criava e pelo que marcava. Amorim aposta tudo no reencontro com Trincão, em ano de Mundial, preferindo continuar apenas com Paulinho como avançado centro. Isto obriga a que o jovem vindo do Barça se assuma como referência goleadora, juntamente com Pedro Gonçalves. Um tem de se adaptar rapidamente, o outro precisa de voltar ao nível que apresentou no ano do título (sobretudo a nível de eficácia no remate).

Na época passada, o Sporting teve dificuldades para combater as adaptações estratégicas dos adversários. Esse continua a ser um desafio a nível de evolução do modelo. Criar oportunidades contra linhas de cinco e até de seis será uma exigência na temporada dos leões. Nesse sentido, a presença de St. Juste como central de condução e de Morita como médio cerebral garante soluções diferentes das que existiam. No caso do japonês, é possível que se intrometa seriamente entre os “titulares” Ugarte e Matheus Nunes. A hipótese de baixar Pedro Gonçalves é viável, nem que seja quando há necessidade de correr riscos na procura da vitória. Tal como aconteceu no final da época passada, Amorim pretende desenvolver a ideia de um ataque móvel, sem referência para os centrais contrários. Não se trata de um plano B, já que deverá ser utilizado imensas vezes. Resta saber se o Sporting cresce mesmo naquilo em que precisa de crescer.

Jogador referência: Pedro Gonçalves
Possível revelação: Morita (por protagonismo)

O médio Morita oferece outras soluções na fase de construção ao meio-campo do Sporting.

O médio Morita oferece outras soluções na fase de construção ao meio-campo do Sporting.

Gualter Fatia/Getty

Vitória de Guimarães

A aposta em Pepa, depois de levar o Paços de Ferreira a uma temporada de sucesso, aumentou as expectativas em torno dos minhotos. No fim de contas, não houve correspondência nem do ponto de vista exibicional – futebol pouco entusiasmante, excessivamente focado no jogo exterior para cruzamento – nem a nível de resultados, apesar dos mínimos cumpridos. Pensar-se-ia que a segunda temporada seria de maior exigência, mas esse projeto foi interrompido.

Seja qual for o motivo, a saída do treinador coloca o Vitória de Guimarães no patamar das incógnitas. Moreno teve uma pré-época curta e entrou logo em competição. O facto de ser uma figura histórica na cidade berço e todo o conhecimento da cultura do clube pode garantir-lhe tempo extra. No entanto, terá sempre de convencer a exigente massa adepta vitoriana. Começou da melhor forma possível, com um apuramento europeu e a promessa de um futebol que valoriza a qualidade técnica dos médios e dos extremos. O 4-3-3 inicial envolve Tiago Silva na construção, pede a André Almeida que desequilibre em condução – vamos ver se fica no D. Afonso Henriques – e fomenta a relação entre Jota Silva e Ogawa no lado esquerdo. Lameiras ameaça no lado oposto.

As principais saídas do plantel estão colmatadas. Estupiñan deixou o clube, mas entraram André Silva (mais forte em apoio) e Anderson Silva (rompe e dá presença na área). A contratação de Jota Silva, um dos craques da segunda liga, permite que a transferência de Rochinha para Alvalade não deixe preocupação elevada. O ex-Casa Pia joga de fora para dentro, é altamente produtivo no último terço (marca e assiste com facilidade) e vai libertar o corredor lateral para as subidas de Ogawa, máquina de oferecer profundidade à esquerda. Villanueva destaca-se a construir, mas dificilmente resolverá problemas defensivos por si só. Se o Vitória melhorar o nível de consistência atrás, não entregando golos gratuitamente, apresenta potencial para fazer uma época de acordo com a qualidade que tem do meio-campo para a frente.

Jogador referência: Tiago Silva/André Almeida
Possível revelação: Jota Silva

Aos 22 anos, André Almeida terá um papel fulcral no momento ofensivo do Vitória.

Aos 22 anos, André Almeida terá um papel fulcral no momento ofensivo do Vitória.

Gualter Fatia/Getty