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A saída de Pepa do Vitória: chamadas não atendidas, Rochinha vendido sem aviso e a política desportiva (atualizado)

A oito dias do primeiro jogo oficial da época, a contar para a Liga Conferência, o Vitória despediu Pepa invocando um “desalinhamento de ideias”. Fontes próximas do treinador e do clube contam à Tribuna Expresso os dois lados de uma história com telefonemas não correspondidos e falta de informação ou mal-entendidos sobre a saída de Rochinha, um dos capitães de equipa. Aos poucos, a relação rumou à explosão da dinamite que deixou o clube de Guimarães como nenhum clube desejaria: a trocar de treinador no fim da pré-temporada

Diogo Pombo

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Uma temporada desportiva não é preparada ontem, na antevéspera ou com uma semana de antecedência. Vai um clube a meio de uma temporada e nas suas entranhas, nas sombras atrás das cortinas, haverá quem fareje locais de pré-época, estreite listas de jogadores potencialmente contratáveis, dê andamento a relatórios sobre o que áreas se devem limar no plantel. O que um clube de futebol não quererá, de todo, é arrancar titubeante uma nova época, a apalpar terreno em vez de cravar pegadas firmes numa rota já definida. Caminhar na estabilidade.

Quererá, sim, o contrário do que o Vitória Sport Clube dinamitou para si mesmo, na quarta-feira, a oito dias do primeiro jogo oficial de 2021/22: despediu o treinador, a cara por norma tida como figura de proa de uma equipa, a cabeça que decide como se joga, por onde se vai, quem é preciso para quais posições e demais considerações técnicas sobre o que se passa num campo de futebol. Pepa era esta pessoa em Guimarães desde o verão passado, mas não o será a 21 de julho, quando o clube defrontar o Puskás Akademia na primeira mão da 2.ª eliminatória de acesso à Liga Conferência.

Foi “afastado” do “comando técnico”, descreveu o próprio Vitória, após uma reunião realizada na terça-feira com o presidente, António Miguel Cardoso, que o culpou de ter “excedido determinados limites” e lhe imputou um “desalinhamento” do projeto desportivo do clube. Nesse encontro, ao que foi possível à Tribuna Expresso apurar, Pepa perguntou qual era essa estratégia definida pela direção do clube. A resposta terá sido que o treinador nada tinha a ver com tais traves-mestras do Vitória. “Apenas colocou as questões que qualquer treinador faria”, diz fonte próxima do técnico.

As interrogações dirigidas ao presidente e vindas do técnico não eram de agora. Por várias vezes e já esta temporada, Pepa terá tentado contactar António Miguel Cardoso por telefone, mas as chamadas não foram correspondidas. Do outro lado da barricada, fonte do clube contou outra versão da história: apenas por duas vezes tal terá sucedido, uma quando o presidente se encontrava numa reunião, outra por ter coincidido com um programa familiar. A verdade estará algures no meio.

Quando Rochinha, um dos capitães e melhores jogadores do Vitória, foi vendido ao Sporting, contam à Tribuna Expresso que o treinador apenas soube pela voz do próprio futebolista e no dia em que abandonou o estágio de pré-época, arrancado a 20 de junho - os vimaranenses foram a primeira equipa a voltar de férias, devido ao calendário matutino a que a Liga Conferência obriga. De dentro do Vitória, dizem que 'a culpa' sem ser exatamente culpa estará no jogador, porque o negócio com o Sporting foi relâmpago, fez-se em menos de um dia e contam que Rochinha informou Pepa da iminente transferência quando o presidente lhe teria pedido para nada dizer até se confirmar.

A ida do jogador apelidado com o diminutivo de uma rocha para os vice-campeões nacionais, por €2 milhões, terá precipitado uma cratera na relação entre Pepa e António Miguel Cardoso.

Ao saber que a direção do Vitória não o informou das negociações-relâmpago, o treinador questionou o presidente, que terá tentado explicar a situação. Do lado do Vitória alegam que Pepa até abandonou um grupo de WhatsApp no qual ambos estavam; pessoa próxima do treinador repete que António Miguel Cardoso mantinha o técnico à margem da política desportiva do clube.

A lógica oficial foi apresentada pelo presidente, na quarta-feira, sentado em conferência de imprensa ao lado de Moreno, ex-jogador e homem da casa que virou o novo treinador da equipa. Ao falar do “projeto” da direção que lidera desde março, quando foi eleito para o cargo, António Miguel Cardoso resumiu as balizas a que o clube aponta fora do campo: “alguma redução salarial, alguma redução naquilo que são as despesas e, provavelmente, uma perspetiva de jogadores mais jovens, de projeção, que pudessem vir de outros escalões, da formação, aliando a isso pilares estratégicos de jogadores mais experientes, que pudessem fazer com que tudo isto acontecesse.”

É esta política desportiva que o líder do Vitória foi dizendo a Pepa que não lhe dizia respeito, ao que a Tribuna Expresso apurou junto de pessoa próxima do treinador. De dentro do clube, falam que era dito ao treinador que se teria que apostar em jovens e que ele "apenas falava de jogadores de 30 anos nas reuniões".

Em abril, ainda antes da temporada passada terminar, Pepa já tinha lançado na equipa principal do Vitória seis futebolistas formados do clube - mais do que os cinco a quem Rui Vitória deu a estreia, numa das épocas que trabalhou em Guimarães, entre 2011 e 2015, por exemplo. O hoje selecionador do Egito saiu do clube com a reputação de ser um ávido dador de oportunidades a jovens da formação.

Este verão, a necessidade do Vitória gerar receitas para cuidar das suas contas terá levado o clube a fazer sair outros jogadores: Gui Guedes para o Almería (€3 milhões), Pedro Henrique foi vendido ao Sailores da Singapura (€1,3 milhões), Dennis Poha rumou ao Sion (€850 mil) ou Falaye Sacko, emprestado ao Montpellier (€500mil). Fora estes, também Óscar Estupinán, melhor marcador do Vitória, Rafa Soares, lateral esquerdo de arraiais assentes na posição, e Toni Borevkovic, central croata de igual constância na equipa, foram outros três nomes graúdos do plantel da época passada que saíram do clube este verão.

Deduzindo pelas palavras de António Miguel Cardoso, todos os negócios se terão enquadrado na resolução da “vertente financeira” do clube. Em março, aquando das eleições, a SAD do Vitória apresentou um passivo a rondar os €49 milhões a cada um dos três candidatos ao cargo. Por essa altura, o vindouro presidente garantiu, durante a campanha, que teria acesso a “uma almofada de €20 milhões”, para a qual estava “tudo fechado e assinado”.

Cerca de quatro meses volvidos e já após o despedimento de Pepa que deu um novo treinador e respetivas novas ideias à equipa, António Miguel Cardoso indicou as suas razões para a desavença: “O que tem vindo a acontecer desde a nossa entrada é que há um desalinhamento em relação às nossas ideias, da forma de salvar o clube, e aquilo que eram os interesses do treinador, que estava mais interessado, compreensivamente, na vertente desportiva e menos no futuro do clube”. Questionada sobre a relação entre o presidente e o já ex-técnico do clube, a comunicação do Vitória disse remeteu para estas declarações.

Ainda na quarta-feira, Pepa afirmou estar “de consciência tranquila” por “tudo” ter feito “para defender os interesses do Vitória”. Em comunicado, o treinador agradeceu por lhe “terem dado a oportunidade de ter estado” na equipa vimaranense, finda a separação que deixou o clube a mudar de agulhas a uma semana da competição a sério e o treinador, um chegou a ser badalado como alvo de interesse do Benfica, sem poiso para esta época.

* notícia atualizada às 21h41 de quinta-feira.