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Darwin Nuñez e a despedida do Benfica: “Talvez tenha faltado um pouco mais de companheirismo, de convívio entre todos, fora dos jogos”

O jogador uruguaio recebeu a Bola de Prata por ter sido o melhor marcador da temporada passada. Já com os dois pés no Liverpool, Darwin analisou, em entrevista ao jornal "A Bola", os dois anos de águia ao peito, com muitos golos, mas sem títulos coletivos

Carlos Luís Ramalhão

Zed Jameson/MB Media

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Darwin Nuñez já vê o Benfica lá atrás, embora ainda não tenha iniciado a primeira época ao serviço do Liverpool. O uruguaio recebeu o troféu de melhor marcador da temporada 2021/22 e conversou com o jornal “A Bola” sobre vários aspetos da carreira e, claro, da passagem pela Luz.

Darwin mostrou-se “muito feliz e orgulhoso” pelos 26 golos marcados na temporada passada com a camisola do Benfica. O troféu Bola de Prata vai ficar guardado onde “a mulher [do jogador] quiser”. O avançado não esconde a importância da família no seu sucesso e dedica o prémio ao filho.

Para Inglaterra, o futebolista leva “muitas recordações (…) do Benfica, de Lisboa, do ambiente no estádio”. “Não foi uma temporada boa em termos de conquistas coletivas, mas, individualmente, as coisas correram-me bem”, admitiu Darwin, que assumiu o sonho de conquistar uma Bota de Ouro. “Para isso, tenho de trabalhar muito todos os dias, estar bem em casa com a família, porque, se vais para um jogo com um problema familiar, (…) as coisas já não te correm bem”, confessou o internacional uruguaio ao diário desportivo.

Para Darwin, que marcou a Bayern, Barcelona, Ajax ou Liverpool na Liga dos Campeões, ficou uma mágoa: não ter marcado ao FC Porto. “Fiquei triste. Era mais um golo importante para mim e para a equipa. Marquei ao Sporting também. E também marquei ao FC Porto, mas não contou devido ao fora de jogo. São decisões que não podemos discutir”, disse Nuñez.

Em pouco mais de duas épocas, o uruguaio de 23 anos passou da segunda divisão espanhola para a ribalta do futebol europeu. Primeiro, Darwin deixou o Peñarol para representar o Almería. “Pedi ao presidente (…) para me deixar sair, era uma boa oportunidade que não queria perder”.

“Estive seis meses sem jogar porque as inscrições já tinham fechado, mas sempre a trabalhar no máximo e, nos seis meses seguintes, aproveitei tudo o que consegui”, conta o jogador que, pouco depois, estava no Benfica como a contratação mais cara de sempre do futebol português. “De facto, foi tudo muito rápido. No primeiro ano, as coisas não correram muito bem porque me lesionei, depois surgiu a covid…”, lembra Darwin.

Da segunda época na Luz, o avançado destaca o facto de ter jogado a Liga dos Campeões, prova em que a equipa chegou aos quartos-de-final. “E agora, no Liverpool… É uma equipa tremenda, mas serei igual ao que sempre fui.”, diz aquele que alguns apontam como sucessor de compatriotas como Cavani ou Suárez. “Sinto um grande orgulho quando me dizem isso. São jogadores de topo que passaram por grandes equipas. E são goleadores. (…) Quando vou à Seleção e me encontro com eles, estou sempre atento ao que dizem e peço-lhes conselhos”, admitiu o ex-jogador do Benfica.

Darwin Nuñez recusa o estatuto de referência no balneário da Luz, nas duas últimas temporadas. “Não, não. Para mim, o Nico [Otamendi], o Jan [Vertonghen], o Julian [Weigl] eram e são as principais referências, jogadores de muita qualidade”. Quanto a treinadores, Darwin teve dois na Luz: “Jorge Jesus ajudou-me muito quando cheguei ao Benfica, ensinou-me muitas coisas. (…) E o Nélson Veríssimo também me ajudou muito, é boa pessoa e falava muito comigo. (…) Creio que estava mais à vontade, não estava tão pressionado. (…) Jorge Jesus era um treinador muito forte, que insistia que os jogadores fizessem as coisas bem. (…) Quando ele veio ao balneário despedir-se, foi algo de que não estávamos à espera”.

Apesar da marca individual deixada no futebol português, os dois anos de Darwin Nuñez no Benfica não tiveram títulos. O jogador admite que as coisas não correram bem coletivamente. “Havia jogadores de muita qualidade, lutámos muito e tínhamos bem presente que havia capacidade para ganhar títulos nestes dois anos. (…) Talvez em alguns momentos tenha faltado um pouco mais de companheirismo, de convívio entre todos, fora dos jogos, fora dos estágios, para que nos conhecêssemos melhor”, explicou o avançado ao jornal "A Bola".

Darwin, que escolhe Benzema como melhor jogador da atualidade, contou ainda o episódio premonitório no final de um dos jogos entre Liverpool e Benfica, nos quartos de final da Liga dos Campeões: “[Jürgen Klopp] passou, olhou para mim e sorriu. Na verdade, penso que ele não fala espanhol e eu também não percebo inglês”. Algo que deve mudar nos próximos tempos.