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O Benfica, derrotadíssimo

Com apenas 48 horas a treinar os encarnados, Nélson Veríssimo mudou o sistema, a abordagem e alguns jogadores, mas, oito dias depois, o Benfica voltou a perder (3-1) com o FC Porto. Desta vez não foi tão superior desde tão cedo no jogo, só que, com o tempo (e a expulsão de André Almeida), acabou por assomar uma equipa que, em ano e meio, só ganhou um de oito jogos feitos contra os principais rivais

Diogo Pombo

Octavio Passos/Getty

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Pressão para este, pressão para aquele, mais parece estarmos à mesa com uma batata a ferver que escalda de mão em mão. Mas o que é isso, pressão?, essa sensação que se questiona pertencer a quem antes de um jogo de futebol quando passamos uma existência a jogarmos a algo onde, no fim, o resultado é igual para todos. Não se tinha de esperar pela teoria de Einstein para sabermos que quase tudo é relativo, pontapés na bola incluídos, cujo peso que terão na vida de um homem que acabou de ficar sem mãe mirra; ou até mesmo desaparece, por uns tempos.

Quando, nesse dia, lhe depositaram no colo um tubérculo escaldado mais literal e menos figurativo do que a suposta pressão sentida pelos treinadores, ficando ele com meros dois treinos para dar a vinte e tal jogadores antes de o Benfica voltar a defrontar o FC Porto, logo ficou provado o quão pouco o futebol importa quando a vida se lembra de nos esbofetear à bruta. Ainda para mais, se por cima disso o tempo que se dá a um treinador chamado de urgência rima com o apelido que tem.

Havia pouquíssimo para Nélson Veríssimo mexer em grandes coisas na equipa que teve centenas de treinos, palestras e gritos instrutórios com o anterior treinador, apostado em três centrais, em fugas rápidas para o ataque com bola e referências fiéis a cada um seguir o seu homem quando o Benfica tinha de defender. Mas, para o segundo clássico em oito dias contra um adversário que vai em cinco anos de coerência sob as mesmas ordens, Veríssimo alterou o sistema para evitar a repetição de um filme.

O Benfica começou com uma linha de quatro defesas, quatro jogadores à frente e dois avançados, um classicismo prático que deixou a equipa com a rara presença de Gonçalo Ramos na frente e a de André Almeida na lateral esquerda — a solução possível para um plantel coxo de raiz se, um dia, acontecesse não ter as ideias e calma de Grimaldo com a bola. Nesta sequela do jogo da Taça, a primeira aproximação do FC Porto à área adversário foi, de novo, um lançamento lateral logo de Zaidu e, na ressaca, o primeiro remate (2’) do jogo saiu de Pêpê, o substituto do melhor jogador em campo de há uma semana.

O bicho invisível tirou-o desta partida em que, durante uns 20 minutos, o mudado Benfica faz melhor do que a sua versão pré-Natal. Desta vez, nasce no clássico uma equipa com os jogadores mais próximos uns dos outros para ir avançando no campo com a bola, vendo-se Gonçalo Ramos ou Yaremchuk baixarem a posição uns metros em qualquer posse de bola, juntando-se a Weigl e João Mário para se darem como uma parede que devolve a bola a quem aparecer perto dele, de frente para a baliza. Eram os pontos de referência com que a equipa tentava jogar, em vez de chegar.

Mas, querendo a equipa fazê-lo sempre com passes curtos, convidava ao tipo de pressão da qual o FC Porto se alimenta: forte, perto da área e logo a apertar qualquer receção de bola feita de costas pelos adversários. E quando Taremi não conseguiu picar o remate por cima do corpo deslizante de André Almeida, na área, após Pêpê furar por entre dois corpos e o assistir, o jogo lá se foi desequilibrando aos poucos. Não tão cedo, nem tão acentuadamente como na semana anterior, mas em cada vez que Pêpê acelerava de fora para dentro (tal e qual Luis Díaz) rumo ao espaço nas costas dos centrais, ou que Otávio e Fábio Vieira se mostravam para receber no pé e logo zarpavam em pequenas diagonais para irem buscar passes no espaço atrás dos laterais.

Mesmo tendo mais critério com a bola, falhando menos passes e ligando jogadas mais duradouras, o Benfica sofria quando a perdia — perdendo-a mais vezes — e os erros do passado voltavam. Reagiu, outra vez, lentamente a um lançamento lateral, na esquerda, onde Fábio Vieira se antecipou a André Almeida, entrou pela área e rematou (34’) o 1-0 por entre as pernas de Vlachodimos. Contaram-se três minutos e, de novo reagindo tarde a uma bola fugida, viu o FC Porto progredir pelo mesmo lado do campo e Otávio fingir que queria um passe no pé e fazer um pequeno sprint rumo à lateral, de onde cruzou a bola para Pêpê surgir na frente de um Gilberto virado para a baliza e nas costas de um Morato só preocupado e de olhos postos no lugar de onde veio o cruzamento.

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O 2-0 martelava em demasia o Benfica, que segundos antes de o marcador acorda tivera Yaremchuk a rematar contra o Diogo Costa no final de uma transição área a área iniciada em Weigl e com apeadeiro em Rafa, numa das poucas vezes em que os jogadores portistas foram passivos perante a forma como os encarnados mais gostam de aproveitar uma bola recuperada. A falta de eficácia condenou o Benfica a precipitar dois golos sofridos em série, como no primeiro dos clássicos desta quadra festiva.

Teve-a mal a segunda parte arrancou, carregando com uma bola longa pelo lado mais poroso do FC Porto onde Zaidu perdeu a sua disputa área com Gonçalo Ramos e deixou espaço vago para Rafa, que se aproximou da área e cruzou rasteiro rumo a Yaremchuk. Escondido no costado de Mbemba, o ucraniano empatou (47’) o jogo, facilitando a vida à equipa pouco antes de o seu capitão a dificultar.

André Almeida foi expulso pelo segundo cartão amarelo que viu por esse número de faltas sobre Otávio, as faíscas de um duelo que já vinham da primeira parte vaticinaram o Benfica a fazer pela vida durante 40 minutos só com uma dezena de jogadores no campo e aí, literalmente, a pressão aumentou. Veríssimo tirou Yaremchuk para compor a defesa com Lázaro e o que se esperaria vir a ser um encosto do FC Porto no adversário, empurrando para a área e espremendo-lhe os jogadores, não o foi logo. Pelo menos, tardou a sê-lo.

Juntando linhas na sua metade do campo, para tentar fechar os espaços ao centro, o Benfica ainda foi conseguindo, com bola, usá-la com calma e com os jogadores a movimentarem-se assim que a largavam.

A equipa descobria espaços dentro do bloco adversário, o ritmo de João Mário ainda persistia num jogo com uma rotação — e duelos, segundas bolas e disputas — das que o costumam varrer dos acontecimentos e tinha Rafa ativo nas jogadas, entre esperando colado à linha ou indo ao centro pedir a bola nas costas dos médios. Após um canto, ele e Gonçalo Ramos fizeram sozinhos um contra-ataque rápido no qual o avançado acabou a desviar a bola (63’) do guarda-redes e só Zaidu evitou que entrasse na baliza.

Foi uma fase em que o Benfica endureceu, aproximou os jogadores quando não tinha a bola e foi mais vertical a usá-la, assim que a recuperava. Mas, outra vez pouco depois de ameaçar um golo, a equipa sofreu outro, agora na ressaca de um canto: Vitinha, com os seus pés de veludo, reclamou uma segunda bola e tocou-a logo para a corrida de Taremi, que se evadiu de Vertonghen e rematou (69’) o 3-1 já na área. O iraniano não marcava há 11 jogos, desde 30 de outubro.

Octavio Passos/Getty

Antes do golo, porém, a quantidade de sentido que fez outra substituição feita por Nélson Veríssimo voltou a soar como o apelido do treinador, que tirou Rafa do jogo para ficar com Pizzi, trocando também o Gonçalo Ramos por Taarabt. O Benfica perdeu toda a capacidade de chegada que ainda tivera na segunda parte e, até ao fim, resumiu-se a tentar alcançar a baliza adversário com passes curtos e algo lentos, sem ter alguém a dar desmarcações no espaço para variar a forma como a equipa tentava atacar.

E o FC Porto, em todos os entretantos, estimulou o tratamento da bola com as hábeis pinças que teve na equipa, aproximando Fábio Vieira de Vitinha para fazerem enfiarem os adversários num carrossel de passes onde quem persegue sente o faro à bola, mas, realmente, pouco lhe toca. Os dois futuros cada vez mais presente do FC Porto manejarem os ritmos enquanto Otávio decidia quando acelerar (quase marcou, mesmo a acabar) e se viu um raro vislumbre de Corona, na lateral direita a fazer as vezes de João Mário e Manafá, ambos saídos do jogo por lesão.

Este clássico também acabou sendo do FC Porto embora não o começasse por ser tão cedo e de rompante como o anterior, no qual deixara o último Benfica de Jorge Jesus eliminadíssimo da Taça, assomado por um rival superior em tudo, quase sempre e em todos os duelos entre jogadores. Com o 4-4-2 linear e a equipa mais junta pela forma como escolheu usar a bola, o Benfica foi derrotado também com o novo treinador, que ousou mudar no sistema e na estratégia, mas faliu nos erros individuais de quem jogou aos quais juntou os seus, nas substituições que retiraram qualidades à equipa para responder em campo.

O Benfica acaba o ano derrotadíssimo por um dos rivais, ficando a sete pontos da liderança do campeonato enquanto se recompõe do caos sem rumo com um treinador interino, chamado para trabalhar com a equipa só até ao verão e a 48 horas de defrontar este FC Porto, que com esta vitória confirmou um 2021 em que vivalma lhe ganhou no campeonato. E o Benfica, cada vez mais à deriva, só ganhou um de oito jogos que fez nesta época e na anterior contra FC Porto e Sporting.