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Payam ouviu “o padrão” através de um auricular, parou penáltis (outra vez) e o Portimonense seguiu na Taça “sem truques e paradinhas”

Antes do Famalicão-Portimonense ser decidido nos penáltis, viu-se o guarda-redes Payam Niazmand a receber um auricular e a olhar para a bancada. Estava a receber informação de como os habituais batedores do adversário costumam marcar, contou o treinador Paulo Sérgio à Tribuna Expresso. Sobre o iraniano que, esta época, tem apenas dois jogos na Taça de Portugal e, em ambos, parou grandes penalidades, diz Rui Tavares, que o treinou no Irão e falou com ele há dias, que costumava "guardar mágoa" dos pontapés que não defendia

Diogo Pombo

Portimonense Futebol SAD

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Payam Niazmand é alto como os cânones da bola mandam a quem vive com luvas nas mãos. Tem a cabeça a pairar sobre as restantes, está rodeado por muitas no meio da azáfama tardia do Famalicão-Portimonense, foram 120 minutos de correria que não dividiu as almas no resultado e o foco aperta-se nele, que é guarda-redes, quando o jogo se acerca do momento em que o futebol volta a eles como o bumerangue desagradecido que tantas vezes é, ao magnificar-lhes os erros.

O amarelo do equipamento junta-se ao corpanzil para o destacar na concentração de jogadores vindos de Portimão. O jogo terminou e reúnem-se na cavaqueira, de início, que se reveste de seriedade com os minutos. Até se juntarem na roda do abraço comum, o iraniano é uma ilha. Poucos lhe falam, de alguns recebe toques de incentivo e tranquilo quando Ricardo Pessoa, adjunto do Portimonense, lhe coloca um intercomunicador nas mãos, com um auricular. Payam faz cara desentendida com o que tem nas luvas brancas.

Outro elemento do staff da equipa logo surge para lhe encostar o pedaço de tecnologia ao ouvido e o olhar do guarda-redes fita a bancada. Franze a testa. Alguém lhe faz entrar coisas pelo ouvido, a interação dura pouco mais de 30 segundos e parece quase de sentido único, salpicada por uns quantos “ok” lidos nos lábios do iraniano. E lá vão os 26 anos e 190 centímetros iranianos de Payam para a baliza onde, desde o verão, apenas protege pelo segundo jogo esta época, de novo na Taça de Portugal e outra vez em eliminatória esticada até aos penáltis.

O que lhe foi dito veio da bancada e da voz de Hélder Carvalho, vídeo analista do Portimonense. Passou-lhe ou recordou-lhe “aquilo que é padrão nos homens do Famalicão que costumam bater penáltis”, resumiu-nos Paulo Sérgio, explicando que foi “informação para ajudar” o guarda-redes iraniano “na decisão”. Nas palavras depois passadas aos jogadores, o treinador do Portimonense acrescentou que “não tivessem medo” porque “ninguém seria criticado se falhasse”, urgindo-os a “escolherem um lado e baterem simples, sem estarem a fazer paradinhas e coisas do género”.

Payam terá escutado melhor os recados que lhe entraram pelo ouvido, segundo antes, no inglês que “fala bem”. Dois dias antes, ouviu de um telefonema a recordação de outros tempos.

Payam Niazmand, à direita, ao lado de Alireza Beiranvand, guarda-redes do Boavista, quando ambos estavam na seleção do Irão, em 2019

Payam Niazmand, à direita, ao lado de Alireza Beiranvand, guarda-redes do Boavista, quando ambos estavam na seleção do Irão, em 2019

KARIM JAAFAR/Getty

Rui Tavares ligou para conversar “um bom bocado” com Payam, o homem das luvas e das balizas de quem recorda a “alguma mágoa” que guardava, em alguns jogos, “quando surgiam penáltis” e “não os conseguia parar”. O treinador de guarda-redes português coincidiu com Payam no Sepahan, do Irão, durante dois anos (2018-2020) e nessa conversa recordaram um par de jogos em que “defendeu penáltis importantes”. Parecia de propósito, coisa para embelezar uma estória, mas “cada um acaba por ter um feeling especial” para defender penáltis.

O hoje campeão do Equador no Independiente del Valle, com Renato Paiva, conta como falavam “sempre muito” e “tentava fazer vídeos com os batedores e os posicionamentos de corpo”. Rui Tavares elogia o “profissional e ser humano fantástico” que há no iraniano, por quem tem “grande estima” e não era preciso o desenrolar da mini-vida naquela baliza do estádio de Famalicão, na terça-feira, para o técnico o dizer.

CVIDIGAL/Portimonense

Foi lá que o iraniano defendeu o primeiro penálti de Banza e apontou um dedo indicador para o céu, serenamente. Depois, recebido um “it’s yours” e o abraço do capitão Pedro Sá, parou o último remate de Pickel e, no instante que antecedeu a sua mão a barrar a bola, escutou-se um “golo” de voz infantil. Payam correu com o falso prenúncio baliza fora, com os punhos erguidos, a celebrar a segunda sobrevivência seguida do Portimonense de uma eliminatória da Taça de Portugal nos penáltis, com o iraniano a parar tentativas — contra a Oliveirense, defendera um remate.

Nos únicos 180 minutos que tem em Portugal, desde o verão, bonificados com meia-hora cada um, Payam Niazmand chegou à fase em que mais se espera que o guarda-redes seja o salvador.

Parou penáltis nos jogos que tem no Portimonense e a equipa está nos quartos-de-final da Taça, heroicamente ascendente pelas mãos de quem tem jogado pouco, mas contribuído muito enquanto Paulo Sérgio vai gostando “da coisa mais simples, mais objetiva”, quando escolhe quem vai bater o futuro da equipa a 11 metros do alvo: “Há gente que gosta de bater com paradinhas e com esses truques e procurei que não fossem esses”.