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A tecnologia que vai mudar os clubes portugueses (e ingleses e franceses e austríacos e...)

A Liga 2018/19 está a começar e também há novidades fora dos relvados: pelo menos 10 clubes portugueses vão profissionalizar a sua gestão diária, com o software FootballISM, novo parceiro da Liga portuguesa

Mariana Cabral

José Caria

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Quem já jogou Football Manager sabe bem como é: basta um clique no rato para conseguirmos ver, no ecrã, tudo o que queremos sobre a(s) nossa(s) equipa(s), entre plantel, técnicos, treinos e todos os dados relativos ao funcionamento diário dos vários departamentos de um clube. Até agora, esta gestão digital não passava apenas de um jogo de computador para adeptos, ou seja, não existia verdadeiramente no mundo do futebol.

Mas isso já está a mudar com o FootballISM, software que permite que os clubes sejam geridos como empresas. “Andámos por Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Espanha e a verdade é que não encontrámos um clube que tivesse um ambiente totalmente digital e integrado”, assegura à Tribuna Expresso Filipe Esteves, diretor da FootballISM, plataforma que faz parte da empresa agap2IT.

“O que acontece é que cada um tem a sua ferramenta de trabalho e mesmo que todos usem Excel, por exemplo, cada um tem o seu. Quando é altura de juntar informação, torna-se muito difícil. Houve médicos que nos disseram que nas suas clínicas particulares tinham tudo informatizado e nos clubes tinham de trabalhar em papel”, exemplifica.

O FootballISM permite centralizar todas as informações relativas ao funcionamento de um clube e, por incrível que pareça, isso é algo ímpar no futebol. "A verdade é que aquilo que encontrámos lá fora foi praticamente o mesmo: há tecnologia no mundo dos coletes GPS, tecnologia no mundo de análise de vídeo, alguma tecnologia nos departamentos médicos e para aí. A falta de informação centralizada em termos de gestão é gritante", adianta Filipe.

“Não faz sentido que um presidente ou um administrador de uma SAD não consiga chegar ao trabalho, sentar-se ao computador e ter um 'dashboard' onde veja o estado do clube. Quem está lesionado, quando há treinos, quem vai treinar, o que vão fazer, o que vão almoçar... Todo um panorama que qualquer outro CEO de uma empresa tipicamente tem - só no futebol é que isto não existia”, diz Filipe Esteves, contando o que viu em clubes “de topo”, tanto portugueses como estrangeiros: “O presidente tem de ligar a 10 pessoas diferentes para saber como é que as coisas estão ou então desloca-se ao centro de treinos para falar pessoalmente - é tudo uma perda de tempo enorme, porque podemos facilitar a gestão às pessoas, deixando que cada um faça o seu trabalho na plataforma e depois nós tratamos da comunicação e integração de tudo.”

O diretor da FootballISM revela outro dos (muitos) problemas que afetam a gestão dos clubes, em Portugal e lá fora. "Desde CNS, 1ª e 2ª divisões em Portugal, 1ª divisão na Alemanha, França, Inglaterra - e aqui fomos a alguns dos cinco maiores clubes - todos têm problemas recorrentes que vão desde o mais simples, como, por exemplo, a gestão de equipamentos. Num clube como o Arsenal, por exemplo, em que estamos a falar de centenas de atletas, o desaparecimento de material pode custar €1 milhão em equipamentos - chega-se ao final da época e ninguém sabe bem onde eles estão. É tão simples quanto isto", diz.

De Alcochete para o mundo

A ideia de um software assim já vem de 2011, ano em que o sistema começou a ser pensado em conjunto com o Sporting, através do diretor Pedro Mil-Homens, que queria então uma ferramenta que facilitasse a gestão da Academia do clube em Alcochete.

Nos anos seguintes, a plataforma foi sendo progressivamente aprimorada até se tornar um produto que passou, agora em 2018/19, a ficar disponível a todos os clubes, depois de uma parceria com a Liga portuguesa que permitiu ajustar custos. “É uma das coisas das quais mais nos orgulhamos: conseguimos ser democráticos e solidários no futebol, desde a 3ª divisão até ao topo”, diz, acrescentando que clubes com orçamentos até €1 milhão pagam pouco menos do que o salário mínimo nacional para ter o FootballISM. Para outros, a mensalidade ronda €4 mil.

"É transformar tudo aquilo que são os métodos de trabalho amadores para uma plataforma que profissionaliza tudo e traz um nívelde alta performance para todos os departamentos de um clube, desde a rouparia, a treinadores, nutricionistas, médicos, tudo. A Liga escolheu esta ferramenta e trabalhámos em conjunto, desde o início do ano até ao início da época, para termos um modelo adequado para abordar todos os clubes", explica.

O FootballISM já está a chegar a 10 clubes portugueses, assim como a ingleses, franceses, noruegueses e austríacos, revela Filipe Esteves. "Temos alguns problemas em divulgar nomes, porque os clubes são muito protecionistas nestas questões", explica, quando questionado sobre a identidade desses clubes, aproveitando também para lamentar ainda não ter conseguido contactar com a Federação Portuguesa de Futebol.

Em setembro, a empresa irá apresentar a ferramenta a outra entidade com quem espera fazer mais uma parceira: a Liga espanhola. “O futebol já não é aquilo que era há 10 anos e a tecnologia tem de acompanhar isto”.