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Mitrovic e o efeito Marco Silva no Fulham: “O melhor que aconteceu foi a chegada do novo treinador, mudou a nossa maneira de pensar”

Depois da promoção à Premier League, o atual sexto lugar, apenas a sete pontos do terceiro classificado, tem transformado a temporada do Fulham numa das grandes histórias do ano. Aleksandar Mitrovic garante que o responsável por tudo o que está a acontecer no Craven Cottage é Marco Silva, um treinador que havia sido sentenciado como “acabado” em Inglaterra

Hugo Tavares da Silva

James Williamson - AMA

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Depois do brilharete no Estoril, era difícil imaginar a vida de Marco Silva sem uma licença de porte de asas. Aos troféus importantes em Alvalade e Atenas, seguiu-se uma caminhada rumo ao incerto. O óleo na maquinaria (que era o destino encantado de mais um sucessor de Mourinho) secou e os pontos de interrogação taparam o sol no trajeto do treinador português por Inglaterra, no Hull City, Watford e Everton.

Apesar do esmorecido desencanto por mais um taticista atrelado à língua de Sérgio Godinho, aquele país não o esqueceu e, em julho de 2021, foi anunciado como novo treinador do Fulham. O contrato era de três anos, apontando obviamente para a subida à Premier League.

Na altura, Aleksandar Mitrovic, um avançado de alto perfil embora com menos jogos e golos do que era esperava, pensou em abandonar o Craven Cottage. O Dínamo Moscovo estava à espreita e ele não gozava de grande admiração por parte do seu treinador, Scott Parker. Queria mudar, mas um telefonema de Tony Khan, o filho do proprietário do clube, mudou tudo. E, dando-lhe festas ao orgulho, disse-lhe que ia chegar um novo técnico. É aqui que entra em cena Marco Silva.

“Ele falou-me do plano para o futuro, não apenas para aquela época, mas para os dois anos seguintes”, contou ao “The Athletic” o avançado sérvio, carrasco de Portugal na derradeira jornada do apuramento para o Catar 2022, sobre a conversa com Marco Silva.

“O treinador disse-me que me queria aqui, que eu era um grande e importante jogador e que uma das razões pelas quais ele aceitou o convite era porque eu estava aqui. Disse-me que eu marcaria 20 golos com ele”, revelou àquela publicação. Afinal, foram 43 só no Championship, sendo o striker o principal protagonista do clube londrino na subida de divisão.

“Todos os jogadores precisam de sentir que o treinador acredita neles”, refletiu o futebolista, de 28 anos. “Ele lembrou-me das minhas qualidades e deu-me alguma liberdade. Eu soube desde o início que ele confiava em mim. Eu sabia que ele tinha imensa confiança em mim. E, quando sentes isso, estás pronto para dar tudo por o treinador.”

“No início, as pessoas estavam hesitantes, não começámos assim tão bem, faltavam os golos. Depois foi o que foi, os adeptos voltaram a ter um sorriso e a acreditar que era possível, até de bater recordes”, contou à Tribuna Expresso, em abril, Júlio Costa, um cientista de dados do clube que colocava Mitrovic no centro do universo do jogo dos cottagers.

À subida de divisão juntou-se um início de campanha de sonho. O Fulham, agora com João Palhinha, está nesta altura na sexta posição da Premier League, apenas a sete pontos de terceiro e quarto classificados, Newcastle e Manchester United. Mitrovic continua a ser a figura principal, agora bem acompanhado por gente como Andreas Pereira, Willian e, claro, o internacional português que vai enchendo o meio-campo e encantando pelo match perfeito com a natureza da liga. A manutenção, talvez o primeiro objetivo dos londrinos, seja agora uma ideia distante. A transformação e a competitividade do clube são evidentes.

“O melhor que aconteceu foi a chegada do novo treinador”, reconheceu Mitrovic. “Ele mudou a nossa maneira de pensar. Trouxe algo novo, algo que não tínhamos antes, e é essa a razão por que parecemos muitos melhores do que nos anos anteriores.”

Alex Dodd - CameraSport

E acrescentou: “É por causa dele que este ano sentimos que pertencemos à Premier League. É a mentalidade que ele trouxe. Ele acredita realmente que algo positivo está a acontecer. Não interessa quem é o adversário, tentamos ser positivos. Não nos adaptamos a ninguém. E, com esta nova atitude, só me lembro de um jogo em que não conseguimos competir com o adversário [1-4 vs. Newcastle].”

O Fulham perdeu no último jogo do campeonato contra o surpreendente Newcastle, que ainda não começou a gastar como se adivinha que venha a fazer, mas ganhara no anterior contra o Chelsea, um jogo que marcou a estreia de João Félix na Premier League. O avançado português foi expulso pouco depois dos blues empatarem o jogo, o que contribuiu para a equipa de Marco Silva, lado a lado com Luís Boa Morte, ir buscar os três pontos.

Nos últimos seis jogos, o Fulham ganhou cinco. Segue-se agora o Tottenham, no Craven Cottage, na próxima segunda-feira (20h, Eleven Sports 1). Até onde pode ir este Fulham, o melhor recém-promovido em muitos anos, é uma das grandes histórias desta edição da Liga Inglesa.

Uma crónica de um jornalista inglês, após a saída de Silva do Everton, sobre o português “estar acabado” em Inglaterra revela-se agora manifestamente exagerada. A história continua e, pelos vistos, conta com um feliz e comprometido matador, um dos grandes artilheiros da Europa.