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Futebol internacional

Gareth Bale ‘fartou-se’ do futebol, o futebol nunca se fartará dele

Aos 33 anos, longe da idade que nos padrões atuais se espera que os jogadores se reformem, Gareth Bale anunciou a sua retirada do futebol, garantindo que “realizou um sonho”. No seu auge e enquanto quis usufruir do seu potencial, o galês foi um futebolista incrível. Mesmo assim, diz adeus com cinco Ligas dos Campeões no currículo

Diogo Pombo

Harry Trump/Getty

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Esguio e delgado, apanhou a bola pouco antes do equador do campo então mais do que desnivelado, o relvado do Giuseppe Meazza era íngreme contra o Tottenham e ele atirou-se contra o Inter, sozinho mas decidido, embalado na pujança dos seus early twenties a escapulir-se com uma súbita aceleração por entre Maicon e Javier Zanetti, duas sumidades da bola que parcos meses antes tinham sido campeões da prova que levou o Tottenham ao dito estádio. E lá desatou a correr Gareth Bale, uma fuga para a sua vitória efémera.

Esse golo de 2010, um dos três feitos no jogo até perdido pelos ingleses, aconteceu na época da erupção do galês para a ribalta, quando Harry Redknapp pegou num lateral esquerdo amarrado em preocupações defensivas e o avançou-o para extremo. A mexida descobriu o mel na carreira do galês: entre essa época e as duas seguintes marcaria 49 dos 52 golos da primeira passagem pelo Tottenham, coincidindo na última com André Villas-Boas, que lhe concedeu a batuta para ser mais do que um acelerador de jogadas ao sprint, para também jogar como um criador nas redondezas da área.

Esse Gareth Bale, o estrondosamente potente futebolista cuja explosão era intratável, fez o Real Madrid estoirar uns badalados e nunca confirmados €100 milhões em 2013 para fixar um novo recorde de transferências. Em Espanha, o galês prosseguiu a sua colagem particular de golos incríveis, dos que definem uma carreira. Para sempre se recordará a sua arrancada na final da Copa del Rey de 2014, quando disse um ‘já te apanho’ à bola, atirando-a para a frente e spritando atrás dela para Marc Bartra, que o empurrara para fora de campo, ficar a comer-lhe o pó.


E para um todo o sempre ainda mais vincado ficará a pedalada acrobática que deu na bicicleta que levou à decisão da Liga dos Campeões, em 2018, onde respondeu a um cruzamento de Marcelo com o ágil pontapé entre a marca de penálti e o limite da grande área. Foi, provavelmente, o melhor golo em finais televisionadas da competição e Bale pode gabar-se de ainda ter marcado noutra, também em 2014, desatando o duelo madrileno em Lisboa perante o Atlético. Deixada a sua pegada de espetacularidade da tal final de há quase cinco anos, o galês iniciou a sua espécie de período de nojo perante o futebol.

A meta dessa fase surgiu esta segunda-feira, quase de esguelha, com uma mensagem publicada nas redes sociais sem vislumbre da pompa que os momentos altos da sua carreira chegaram a ter. “Após cuidada reflexão, anunciou a minha retirada imediata. Sinto-me incrivelmente feliz por de ter realizado o meu sonho de jogar o desporto que amo”, abriu assim a sua carta de despedida da bola, um arranque quase paradoxal face ao que se leu e ouviu dele em temporadas recentes.

Apoquentado com mais insistência por lesões enquanto o Real, como se nada fosse, já cuidava da sua dinastia de três Champions seguidas (falhou mais de uma centena de jogos devido a mazelas), a atitude do jogador transmutou-se. De presença preciosa no onze virou visão frequente no banco, de presença sorridente e canhota da ‘BBC’ - Benzema, Bale e Cristiano, tridente cunhado em sigla por tanto aterrorizaram defesas adversárias - passou a corpo presente no estádio, com ar de tédio e ter algo melhor para fazer do que estar ali, no clube ambicionado por tantos jogadores.

Aos poucos, a imprensa espanhola noticiava-lhe e exagerava-lhe o gosto pelo golfe, fotografando-o a recriar-se no seu hóbi, escrevendo que a sua prioridade era cada vez mais esses e noticiando como supostamente ia dar umas tacadas até quando padecia de lesões. A indiferença nos treinos, nos jogos e nos momentos coletivos da equipa era parangona reincidente acerca de Gareth Bale, de quem Zinedine Zidane, o treinador com quem coincidiu mais tempo, uma vez disse, após uma partida: “Temos uma relação respeitosa entre clube e jogador. Tudo o que vou dizer é que ele preferiu não jogador. O resto é entre nós e ele”.

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Houve o penso rápido, em 2020/21, de o emprestar à casa do Tottenham para reencontrar José Mourinho e o galês, já sem a corpulência muscular dos seus anos de tino profissional, ainda deixou fogachos da sua talentosa capacidade: os livres curvados na mistura de jeito e potência; a aptidão para rematar de todo o lado; a fineza de um pé esquerdo sem malabarismos, mas cheio de técnica. Gareth Bale ainda só ia a caminho dos 32 anos, mas já jogava numa pré-reforma que confirmou com a ida para Los Angeles.

Para lá terá ido para a forma e o físico não decaírem mais ainda antes do Mundial, onde uma tíbia seleção de Gales esteve amordaçada nas suas incapacidades. Há muito que não era a equipa de 2016, igualmente limitada, mas puxada bem para cima pelo jogador-estrela, um Gareth Bale ainda em versão puxador do melhor dos colegas através do melhor que ele tinha e que só caiu no Europeu de França contra Portugal. Os derradeiros atos de Bale na bola foram um arrastamento contínuo pelos relvados, jogando como se tivesse mais 10 ou 15 anos de vida no conta-quilómetros.

Agora ele “segue em frente”, com 33 anos, 664 jogos e 225 golos deixados no futebol e “antecipação” do “próximo passo”. Deixou também o nome cravado em cinco Ligas dos Campeões apesar de nesta última ter ficado como um reboque residual: Gareth Bale esteve lá sem realmente estar, apareceu quase porque tinha de ser, por obrigação profissional. Agora ficaremos a imaginar o que teria sido a carreira de um muito bom jogador se, para o lado de cá, tivesse passado a sensação que ele quis realmente ser o máximo do que podia.