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“Este sábado será o meu último jogo em Camp Nou”: Gerard Piqué nem deixa a época acabar e retira-se do futebol

Central do Barcelona, que pelo clube e seleção espanhola venceu todos os troféus coletivos, vai abandonar o futebol a meio da época, aos 35 anos

Lídia Paralta Gomes

NurPhoto/Getty

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As retiradas tendem a respeitar certos tempos ou costumes. Uma lesão, a idade que pesa, objetivos que já foram cumpridos. Raramente têm efeitos imediatos ou acontecem a meio de algo, sem aviso ou preparação. Não que Gerard Piqué seja o Gerard Piqué dos tempos de Guardiola no Barcelona, o Gerard Piqué campeão mundial e europeu por Espanha, não que o futebol seja o que mais passa pela cabeça deste central feito empresário, mas não se esperaria que o catalão, nascido já entre a realeza blaugrana há 35 anos, anunciasse em pleno novembro que vai dizer adeus.

Não no final da época, não no final do Mundial (seguramente não seria convocado, mas estava nos 55 nomes já apresentados por Luis Enrique segundo a imprensa do país), mas sim a 3 de novembro, numa quinta-feira anónima.

“Este sábado será o meu último jogo em Camp Nou”, diz o central num vídeo publicado nas redes sociais, com a sua Barcelona como pano de fundo, com os vídeos caseiros mostrando-o em criança com o equipamento do Barça a acompanhar uma despedida epistolar. Ele próprio o diz: “Desde pequenino que não queria ser futebolista, queria ser jogador do Barça”. E no Barça cresceu antes de acabar a formação no Manchester United, onde se estreou como profissional e venceu uma Premier League e uma Liga dos Campeões.

Já homem feito, voltou a casa em 2008, corrigiu a trajetória que se pensaria toda ela de azul e grená, a tempo de fazer parte da equipa que venceu seis títulos num só ano, na maior máquina de ganhar que o futebol já viu nas últimas décadas. De onde não mais saiu, até ao dia do adeus que será no próximo sábado, frente ao Almería. Como era seu desejo. “Sempre disse que depois do Barça não haveria outra equipa. E assim será”, revela.

Central elegante que parece nunca ter jogado em esforço, defesa versátil e capaz do belo, foi paulatinamente perdendo espaço no onze de um Barcelona no qual era um dos últimos representantes de um tempo que lá vai. É com o antigo colega Xavi que começa a ser colocado num papel secundário e esta época passou mais tempo no banco que a calcorrear o verde do relvado. Mas às costas leva um currículo como há poucos no futebol mundial. Depois da Premier League e da Champions no Manchester United, em Camp Nou ganhou oito ligas, três Ligas dos Campeões e três Mundiais de clubes. Por Espanha, impossível ganhar mais: fez parte da geração que foi campeã do Mundo e da Europa. Foram 615 jogos pelos culés.

Futuro presidente?

“Há semanas, meses, que muita gente fala de mim. Até agora não disse nada, mas agora serei eu a falar-vos de mim”. É assim que começa o vídeo, com Piqué olhando para a silhueta de Barcelona, dirigindo-se aos culers, como são conhecidos os adeptos do clube.

Falará certamente de uma dimensão que ultrapassa o futebol, porque essa dimensão tem ganhado espaço ao Piqué futebolista. Empresário, o catalão fundou a Kosmos Holding através da qual organiza a Taça Davis em ténis e é um dos proprietários do FC Andorra, da segunda divisão espanhola. Com a Kosmos já entrou também no negócio dos direitos televisivos.

Mas é dessa dimensão que têm chegado também as dores de cabeça para a imagem pública do em breve ex-jogador. Há seis meses surgiu em escutas com Luis Rubiales, presidente da Federação Espanhola de Futebol, discutindo um possível envolvimento da Kosmos na organização da Supertaça espanhola na Arábia Saudita, com comissões chorudas à mistura.

Nas últimas semanas, a separação da estrela pop Shakira fez correr mais falatório do que as suas presenças em campo e a exibições entorpecidas num Barça em crise desgastaram ainda mais a imagem do central.

É possível que há muito que a cabeça de Piqué já não estivesse apenas em campo. Mas a sua ligação ao Barcelona não deverá terminar. Ele diz que agora será apenas um culé mais, nas bancadas, mas a vontade vai além de um simples animar. Neto de um antigo vice-presidente do clube, Piqué sempre expressou o desejo de um dia liderar o Barça, que seria o fecho de um ciclo de dedicação ao clube do seu coração.