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Futebol internacional

O Arsenal dos artistas cheios de energia continua a tentar alcançar a perfeição exigida pelo Manchester City

Os londrinos golearam (5-0) o Nottingham Forrest, respondendo ao triunfo da equipa de Guardiola para seguirem na liderança da Premier League. Com Odegaard ou Martinelli novamente em destaque, os gunners continuam a protagonizar uma luta que só se manterá se o Arsenal entrar na estratosférica regularidade pontual dos bicampeões

Pedro Barata

Alex Pantling/Getty

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Eles têm muita técnica e precisão no passe, no drible, na condução de bola. Pim pam, pim pam. Ela movimenta-se pelo campo com sentido, rolando meiga e domada. Do ágil Saliba para o serene Thomas, do delicado Odegaard para o elétrico Saka, do móvel Jesus para o agressivo Martinelli, numa viagem em que as curvas mais apertadas são feitas com um misto de ousadia e segurança.

Mas este progresso, cheio de requinte técnico, não se esvazia na técnica pela técnica. Não é só acerto, é também vertigem. O Arsenal 2022/23 de Arteta joga muito bem, não só por juntar executantes com feitiços nos pés, mas também por juntar corpos cheios de energia, de vertigem, com uma urgência pensada, um entusiasmo controlado, pernas que correm ao ritmo de cabeças que pensam

Talvez ninguém simbolize isto tão bem como Martin Odegaard, o norueguês que aos 23 anos parece concentrar em si várias carreiras. O prodígio adolescente que foi alvo de cobiça de meia Europa; o talento perdido entre o Real Madrid Castilla e o Heerenveen; o craque de culto que foi crescendo no Vitesse ou na Real Sociedad; o retornado que não teve oportunidades com Zidane no Bernabéu; o artista do Emirates, que enverga a braçadeira e lidera pelo exemplo.

Odegaard é, obviamente, de um recorte técnico superior. Acaricia a bola, ata-a ao pé esquerdo, sussurra-lhe ideias e pensamentos. Mas, ao mesmo tempo, o médio dá ao jogo enormes doses de energia e velocidade, mexe-se muito e mexe-se bem, agita os acontecimentos, não é passivo nem expectante. Tal como o seu capitão, também o Arsenal mistura técnica com energia. Acontecem muitas coisas nas partidas dos gunners, basicamente.

Justin Setterfield/Getty

A goleada, por 5-0, aplicada ao Nottingham Forrest foi outro exemplo desta tendência hiperativa. Logo aos 5', Saka, o agitador serpenteante, trabalhou na direita e serviu Gabriel Martinelli. Ao seu estilo, o brasileiro atacou o espaço e cabeceou para o 1-0.

Nos festejos, os jogadores dos locais homenagearam Pablo Marí, o central espanhol que foi esfaqueado num hipermercado em Milão. Marí está cedido pelo Arsenal ao Monza.

Numa primeira parte em que os londrinos desperdiçaram várias ocasiões de golo, a nota negativa foi a saída, por lesão, de Saka, entrando Nelson para o seu lugar. Com o Mundial aí à porta, ver qualquer internacional no chão leva, inevitavelmente, a cabeça a pensar nos piores cenários.

No outro lado, o Nottingham Forrest continuava a dar a penosa imagem que tem sido a norma neste regresso à Premier League. O triunfo da jornada passada frente ao Liverpool parece dizer mais sobre as dificuldades da equipa de Klopp do que da melhoria dos recém-promovidos. No último lugar da tabela, muito terá o Forrest, que investiu muitos milhões no defeso, que melhorar.

Num arranque de segunda parte de rompante, o Arsenal chegou ao 4-0 aos 57'. Primeiro foi Nelson a bisar, depois foi Partey a apontar um grande golo de fora da área, bem ao estilo do internacional pelo Gana — à atenção de Fernando Santos e Diogo Costa, já que o médio será adversário de Portugal no Catar.

Com a questão de quem levaria os três pontos decidida, Arteta lançou a dupla portuguesa. Fábio Vieira entrou para a 12.ª presença na temporada, enquanto Cédric Soares somou os primeiros minutos numa campanha que tem sido marcada pelos problemas físicos.

O triunfo faz o Arsenal responder à vitória, por 1-0, do Manchester City em Leicester, recuperando o topo da Premier League. Os londrinos têm 31 pontos, a equipa de Guardiola 29.

Com o Liverpool em crise — só tem 16 pontos — e os restantes endinheirados competidores a parecerem num nível bem abaixo, haver uma luta pelo título na Premier parece nas mãos do Arsenal. Mas, para isso, os gunners têm de alcançar a quase perfeição que a máquina de Pep exige.

Nas últimas cinco temporadas, nas quais foi quatro vezes campeão, o Manchester City fez 100, 98, 81, 86 e 93 pontos. Esta temporada, mantendo o atual ritmo de pontuação, a equipa do Etihad fará entre 91 e 92 pontos. Para vermos o abismo para a realidade recente do Arsenal, os londrinos fizeram, nas cinco últimas épocas, 63, 70, 56, 61 e 69 pontos.

Quer isto dizer que aproximar-se dos 80 pontos já seria um grande progresso para o Arsenal. O problema é que o City fez mais de 85 pontos em quatro das últimas cinco ligas, tendo superado as nove dezenas por três ocasiões. Para se manter nesta luta, exigir-se-á um nível superlativo à equipa de Arteta.

Odegaard fez o 5-0 final num lance em que dançou levemente por entre a defesa adversária, qual feiticeiro com a capacidade de moldar o próprio corpo à situação. E o Arsenal festejou, orgulhoso de estar numa luta contra um adversário que eleva o futebol a uma dimensão de regularidade poucas vezes vista.