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Futebol internacional

Cantona, o rei do United que se ofereceu para ser seu presidente do futebol: “Sei que vivemos num circo. Faço de palhaço, como toda a gente”

Aos 56 anos e um quarto de século depois de ter pendurado as chuteiras, o ícone do Manchester United e da Premier League já experimentou ser ator e ganhou o respeito do público. Personagem icónica e carismática, o antigo jogador francês concedeu uma rara entrevista ao “The Athletic” e mostrou os porquês de ter sido tão entronizado pelos que apoiam os red devils, e não só

Expresso

Anton Want/Getty

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Eric Cantona foi coroado rei de Old Trafford e das áreas circundantes (o centro de Manchester é azul celeste) pouco depois de ter chegado ao Manchester United, via Leeds. É o francês mais ferrenho do clube vermelho, branco e preto e uma personalidade incontornável do futebol mundial, escutado com atenção pelas suas opiniões muito pouco consensuais, mas com tendência a serem respeitadas.

Aos 56 anos, Cantona há muito que deixou crescer a barba e já lhe deu vários formatos, mas permanece o mesmo na essência. Vinte e cinco anos depois da reforma, aos 30, o antigo capitão do United, famoso pelo colarinho levantado durante os jogos, deu uma entrevista ao “The Athletic” e um dos temas obrigatórios foi o Mundial deste ano, no Catar. David Beckham, seu antigo companheiro de equipa, acordou com a sede do torneio um patrocínio para promover o estado cheio de petrodólares.

Cantona fala das “ovelhas” da cultura moderna das celebridades, que se vendem e raramente correm riscos quando questionadas acerca de causas sociais, sendo claro: “Eu nunca o faria. (…) Pode ser que eles não saibam o que se passa lá. Ou, se o sabem, estão a agir mal. Penso que cometem um grande erro”.

Em janeiro de 2022, Cantona tornou pública a sua intenção de boicotar o Mundial do Catar, defendendo, no entanto, que qualquer jogador de 20 anos é impotente para fazer alguma coisa, ao contrário de várias instituições: “Falem sobre as federações, os políticos, que têm o poder para dizer: ‘Não, nós não vamos ao Mundial’. Não podemos ficar desiludidos se os jogadores não quiserem boicotar o Mundial porque, no topo, os políticos, os presidentes, as federações, os ministros… (…) O verdadeiro poder [não o faz]”.

Na conversa com o “The Athletic”, o gaulês começa por explica porque decidiu jogar em Inglaterra depois de uma primeira espécie de reforma: “Eu não queria continuar a jogar em França ou num país do Mediterrâneo. Por isso, deixei o futebol durante dois meses. Mas pensei que Inglaterra poderia ser um bom país para mim, eu precisava desse tipo de energia, desse tipo de futebol. O futebol em Inglaterra era Kevin Keegan, era George Best. Era estrelas de rock’n’roll”. E acrescenta: “Nessa altura, encontrei algo. Percebi que antes esperava muito das pessoas”.

Cantona iniciou a passagem por Inglaterra a fazer testes no Sheffield Wednesday, mas acabou em Leeds, não muito longe dali. Idolatrado instantaneamente, o francês acabaria por tornar-se imortal no maior rival do clube de Yorkshire. Em Manchester, Cantona começou por viver num hotel. “Era uma forma de estar de passagem. (…) Se eu tivesse mantido a mentalidade de antes, não teria triunfado em Inglaterra. O Manchester United percebeu isso muito bem. Eles disseram: ‘Se o Eric quiser ir embora, pode ir’”, explicou o antigo avançado, que acabaria por nunca ir embora do United.

“Se me dizem isso, eu fico, porque então sinto-me livre”, justificou o ex-jogador, completando: “Se me dizem, ‘tem cuidado, assinaste por três anos, por isso tens de ficar três anos’, eu sinto-me prisioneiro de tudo”. O convívio com Alex Ferguson teve conflitos vários. As personalidades fortes de treinador e jogador chocavam constantemente, como lembrou o então jogador Ryan Giggs. Uma vez, foi pedido pelo técnico que os atletas comparecessem de fato preto, formal. “Cantona apareceu de fato de linho branco e sapatilhas vermelhas e brancas”, contou o antigo internacional galês.

Eric tenta justificar-se: “Mas (…) eu treinava muito e, quando jogava, esforçava-me, o que é mais importante”. Ferguson parece concordar, como pode ler-se na sua autobiografia: “Nada do que Eric fazia nos jogos significava mais para mim do que a forma como ele me chamou a atenção para a indispensabilidade dos treinos”.

Apesar de ser visto como exemplo pelos chamados “Fergie’s babies”, como Beckham, Giggs, Scholes, Butt ou os irmãos Neville, Cantona regressa à expressão-chave da entrevista ao “The Athletic” e sublinha que pretendia sentir-se “de passagem e não queria sentir essa responsabilidade de ser um exemplo”.

Quando lhe entregaram a braçadeira de capitão, o francês aceitou-a. Mas considera hoje, como então, que capitanear uma equipa “é como ser uma ovelha”. “Por vezes eu reagia de certa forma e as pessoas não gostavam, talvez estivessem certas. Mas estavam erradas quando diziam: ‘Ele é um exemplo para milhões de pessoas, não pode reagir assim’. Não, a única responsabilidade que eu tinha era a de trabalhar duramente e vencer jogos”, completou.

“A maior parte do tempo sou muito humilde. Eu brinco ao dizer que ‘sou uma lenda’. Porque não quero saber. Eu sei que vivemos num circo, por isso jogo. Faço de palhaço, como toda a gente”, explica espontaneamente o francês, que continua: “Ouvi recentemente dizer que os futebolistas têm de envolver-se socialmente. (…) Mas quando é arriscado, ninguém se envolve, por isso são ‘ovelhas’”. Cantona cita o exemplo do artista Ai Weiwei, que vive em Portugal, por ter criticado o estado chinês: “Sim, ele é alguém com força”.

Sobre a seleção que representou, o francês confessa que não lhe dá grande atenção: “Quando jogam bem e ganham, são celebrados como franceses; se a equipa perde, referem-se a eles como senegaleses”. Uma das incursões de Eric Cantona pelo cinema foi um documentário sobre as raízes estrangeiras dos maiores jogadores franceses, como Zinedine Zidane.

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Rui Vieira - EMPICS

O futebol permitiu a Cantona muitos momentos dramáticos, grande parte com final feliz. Representar, algo que o francês tem feito com aplausos do público, dá-lhe “um grande sentimento”. “Mas não é igual. O futebol é único, a intensidade é única, mas quando te reformas, podes viver com as tuas memórias e ficar prisioneiro do passado ou encontrar novas paixões”, explica.

Nesta nova vida, Eric Cantona reside em Lisboa, com a segunda mulher, Rachida Brakni, atriz, o filho Emir e a filha Selma. Adepto confesso do Sporting, o francês escolheu a capital portuguesa depois de umas férias bem passadas com Rachida. Eric admite que é pouco provável um regresso ao futebol por dentro. No entanto, se isso acontecer, “será Manchester”, sem necessidade de distinguir entre os dois grandes rivais da cidade nortenha.

“O ano passado, propus ao clube [o Manchester United, claro] que mudasse o seu caminho”, explica Cantona, que chegou a reunir com o ex-vice-presidente Ed Woodward. “O United devia ter um presidente [chairman, no original] e um presidente para o marketing e outro para o futebol. (…) Propus-me como presidente para o futebol. (…) Eles não aceitaram”, contou.

“Desde que Ferguson se reformou, em 2013, o clube duplicou os lucros, mas não ganhou [quase] nada”, lembrou Cantona, que concorda com Gary Neville quando este diz que é altura dos donos do United, os Glazers, irem embora. O homem que se auto-propôs à atual direção, conta uma ideia que teve: “Este clube tem centenas de milhares de seguidores nas redes sociais. Se eles criarem uma aplicação a dizer que 50% do clube podem ser vendidos, por que devemos ter uma ou duas pessoas a investir 500 milhões? Em vez disso, podes ter centenas de milhões de pessoas a gastar 10, 20, 100, 1.000 euros, e 50% do clube pertenceram aos verdadeiros adeptos”.

Apesar de imensamente escutado, é raro, por estes dias, avistar Eric Cantona em eventos futebolísticos ou em entrevistas. E pode chegar o dia em que o icónico francês decida, de vez, abandonar qualquer cogitação do futebol: “Agora todos os estádios se chamam Emirates ou Allianz. (…) Os adeptos perderam as almas dos seus clubes. Felizmente, Old Trafford ainda é Old Trafford. Anfield ainda é Anfield”. Se, algum dia, o nome do estádio dos red devils mudar por causa de um patrocinador, promete: “Deixarei de ser adepto do United. E desistirei do futebol para sempre! Por favor, não chamem Nestlé ou Amazon a este estádio. Old Trafford é Old Trafford”.