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Os tenros 15 anos de Ethan, o novo recordista da Premier League: “Quando há talento, não têm medo e adoram o que fazem...”

Depois de substituir Fábio Vieira, autor de um golaço, Ethan Nwaneri transformou-se no futebolista mais jovem de sempre a jogar na Premier League, superando o recorde de Harvey Elliott e, relativamente aos gunners, Cesc Fàbregas. O treinador Mikel Arteta explicou porque promoveu a estreia de um rapaz de 15 anos no Brentford-Arsenal, no domingo

Hugo Tavares da Silva

DAVID KLEIN/Reuters

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– Ne­ne, ¿te ani­más?
– Sí [juntou sorriso].
– Bue­no, en­trá, ju­gá y la pri­me­ra pe­lo­ta que aga­rrás ti­rá un ca­ño.

Foi assim o diálogo entre Juan Car­los Mon­tes, treinador do Argentinos Juniors, e Diego Armando Maradona numa tarde de outubro de 1976. O miúdo que seria uma estátua hipnotizante e inesquecível (e que terá mesmo feito a tal cueca, o caño) tinha apenas 15 anos, 11 meses e 20 dias quando se estreou na 1.ª Divisão da Argentina. Muitos e muitos anos depois, Roger Fernandes estreou-se num Sp. Braga-Sporting, com uns tenros 15 anos, oito meses e 24 dias, é o recordista em Portugal. Os casos de precocidade repetem-se, embora raramente numa idade tão mole e sonhadora.

A história é imparável e engole os heróis de tempos idos. No domingo, no campo do Brentford e já depois de escutar cânticos que massajam o lado bom do ego, Fábio Vieira foi substituído já perto do final do jogo. O português, descarnado de uma forma que atenta maravilhosamente contra o atleticismo da Premier League, estreou-se a titular com a camisola do Arsenal e fez um golaço – na flash interview disse que foi “sorte”, mas Gabriel Martinelli disse-lhe imediatamente para não dizer tal coisa, e riram-se alegremente. Recebeu, fazendo a bola rebolar num sentido bonito e preparatório, mirou a baliza e bateu nela como batem os especiais. Depois, Arteta retirou-o para uma dupla proeza: aplausos para Vieira e a primeira vez de Ethan Nwaneri.

Com 15 anos, cinco meses e 28 dias, superando portanto Diego e Roger, o miúdo que devorou uma importante quantidade de água antes de pisar o relvado transformou-se no mais jovem de sempre a jogar no principal escalão do futebol inglês, superando assim a façanha de rapazes como Harvey Elliott, Matthew Briggs, Izzy Brown e Aaron Lennon.

Os sinais estavam lá todos quando Nwaneri se estreou pelos sub-18 dos londrinos, uns aninhos depois de chegar à academia dos gunners acompanhando o irmão. Com a camisola 9, afastado dos centrais, caminhava como quem não queria nada com o desenrolar na jogada, algo que subitamente desmentiram as duas mãos a apontar para baixo, pedindo a bola. O pé direito recebeu, virando-o logo para a baliza. Com dois toques com a canhota, desencorajou dois jogadores do Reading e rematou, ainda fora da área, para um golaço. O menino tinha apenas 14 anos.

“Ele treinou um par de vezes connosco e tive o feeling ontem [sábado]”, explicou Mikel Arteta depois do jogo que devolveu a liderança da liga ao Arsenal, que tinha várias baixas. “Eu penso que é uma mensagem forte sobre quem somos como clube. Eu disse-lhe ontem que ia estar connosco e ele tinha de estar pronto. Ele está pronto. Quando ele entrou, eu disse-lhe: ‘Parabéns e desfruta’.”

Arteta referiu ainda que a equipa técnica quer continuar a dar oportunidades. “Quando há talento e personalidade e quando os jogadores adoram o que fazem, e quando não têm medo, as portas estão abertas para eles explorarem até onde podem ir.”

Sobre os elevadores do futebol, que empurram para o céu e sufocam até ao inferno da ansiedade e tristeza, ou glória ou insignificância, o treinador espanhol deixou ainda uma explicação para o que vem aí para Nwaneri – que teve de equipar noutro balneário por ser menor – e para muitos outros jovens. “É só um passo e os passos na carreira não são todos para a frente e tens de sabê-lo. Podes ir para a frente e depois para trás e depois para a frente. Cais, voltas. É assim, infelizmente, esta indústria e a carreira no futebol de qualquer jogador.”

Ethan Nwaneri, supostamente um médio criativo, superou o recorde de Cesc Fàbregas, uma lenda precoce do clube cujo nome traz um cheirinho dos tempos de Arsène Wenger. O Arsenal está a entusiasmar como nos melhores tempos do mítico treinador francês. Até onde podem chegar clube e Ethan?