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Jordi Cruyff, diretor-desportivo do Barcelona, diz que “a cidade voltou à vida” graças às contratações: “O clube tem um íman, é lindo”

O filho do mítico Johan Cruyff considera que os jogadores contratados “escolheram seguir o seu sonho” em vez do dinheiro. Cruyff rejeita acusações de que o presidente do clube esteja a brincar com o futuro do Barça e deixa um recado para fora: “Muitos clubes não têm paciência, hoje em dia”

Carlos Luís Ramalhão

NurPhoto

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O diretor-desportivo do Barcelona, Jordi Cruyff, antigo jogador e filho de uma lenda do clube, Johan, considera que o Barça está agora virado para o futuro. Para o neerlandês, “a cidade voltou à vida” e, para tal, foram decisivas as contratações feitas pelo clube grande da região. Os jogadores que chegaram, com destaque para Robert Lewandowski, terão escolhido, no entender do dirigente, “seguir o seu sonho” em vez do dinheiro.

“O Barcelona tem um íman, é lindo”, disse Cruyff em entrevista à “BBC” antes do Cruyff Legacy Summit. A época passada não terá sido assim tão bonita para os lados do Camp Nou. A turbulência foi constante, maioritariamente devido aos cerca €1,3 mil milhões da dívida do clube que foi uma das razões para a saída histórica de Leo Messi para o PSG, sem proveitos para o Barça. Essa instabilidade refletiu-se em campo, e da pior forma: a ver os rivais do Real Madrid vencer a La Liga e a Liga dos Campeões.

Este verão foi já tempo de fechar a porta da época passada e começar a trabalhar no duro para reerguer o gigante catalão. Chegaram muitos jogadores, como Raphinha, Jules Koundé ou Robert Lewandowski. Cruyff não tem dúvidas: “Consegues ver o orgulho nos olhos dos jogadores quando eles assinam pelo Barcelona e isso tem ajudado muito, poderem competir com clubes que têm orçamentos mais altos e melhores salários”.

Para já, após cinco jogos oficiais disputados esta época, o Barça ainda não perdeu. Na Liga dos Campeões, os catalães golearam os checos do Viktoria Plzen por 5-1, na semana passada. “A equipa começou muito bem, com o treinador a fazer um ótimo trabalho. Ele tem uma dor de cabeça das boas: um bom plantel por onde escolher”, disse o diretor-desportivo.

Ao ultrapassar os mil milhões de euros de dívida, o Barcelona não pôde renovar com o menino querido, Leo Messi, devido às regras de fair-play financeiro (FFP) da Liga Espanhola, mais complexas do que as da UEFA. “Eu apercebi-me de que 99% das pessoas não percebem o FFP espanhol, como fazer esse puzzle. É algo que não entendemos numa hora, é mais complexo. Mesmo quando tens o dinheiro, não podes gastá-lo”, disse Jordi Cruyff.

Jordi Cruyff, à direita, na apresentação de Christensen e com o presidente do Barça, Joan Laporta

Jordi Cruyff, à direita, na apresentação de Christensen e com o presidente do Barça, Joan Laporta

PAU BARRENA/Getty

Entre menções à hipótese de voltar a ser treinador – teve uma experiência curta (entre Israel e China) e longe dos resultados do pai, visto como um revolucionário – Jordi explicou como funciona o Barça na sua secção: “O triângulo é o treinador e o adjunto, o diretor de futebol – Mateu, especialista em FFP e em negociações – e eu estou no meio, a perceber os números, embora com a mentalidade de um treinador”.

“O Barcelona é um clube muito especial, mas muitos clubes não têm paciência, hoje em dia. É muito difícil encontrá-la. Em cada clube há um projeto a curto, médio e longo prazo. A minha função é perceber o curto prazo, mas tentar coordenar isso com o médio e, por vezes, com o longo prazo”.

O Barça reduziu os ordenados de alguns jogadores e também ativou as várias alavancas (ou palancas, como dizem os espanhóis) financeiras, instrumento “da moda” para clubes em crise. Foram essas alavancas que lhe permitiram pagar as transferências de Lewandowski, Raphinha e Koundé, mas também inscrever Andreas Christensen e Franck Kessié, que chegaram como agentes livres.

Nessas alavancas, o clube vendeu uma percentagem dos futuros direitos televisivos e da Barça Studios, a sua unidade de produção televisiva, algo que levou a acusações de que o presidente Joan Laporta estaria a jogar com o futuro do Barça a longo prazo. Sobre isso, Cruyff disse: “As notícias que têm saído sobre nós nem sempre são precisas e eu percebo que as pessoas ouçam e pensem que o que o Barcelona fez talvez não seja elegante. (…) Mas agora temos um plantel para o futuro”.

Com um passado de golos que se perdem na memória, o polaco Robert Lewandowski foi a mais veterana contratação deste ano, quiçá a que tem menos futuro como jogador, mas também a mais sonante. Aos 34 anos, o capitão da seleção da Polónia chega com dois prémios de Jogador do Ano, da FIFA. Até agora, o ex-Bayern marcou oito golos em cinco jogos e vai defrontar o antigo clube na Liga dos Campeões, esta terça-feira.

“Não é o que Lewandowski diz; é o que ele mostra: que mantém aquele desejo de correr atrás da bola, mesmo com 3-0 no marcador”, disse Cruyff, que se congratulou: “Os adeptos estão a voltar porque sentem que há algo a ser construído aqui”.