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Na Gronelândia, um território cheio de neve, descobre-se o campeão de futebol durante uma semana e este sábado é a final

O campeonato nacional, jogado derradeiramente durante uma semana, decide-se este sábado, em Ilulissat. A seleção do país, que não pode integrar a FIFA e a UEFA por não ser um estado soberano, está a piscar o olho à Concacaf

Hugo Tavares da Silva

imageBROKER/Karlheinz Irlmeier

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Quem viu a segunda temporada de “Borgen”, a série ficcional da Netflix sobre a política dinamarquesa, sente-se quase filho da Gronelândia, uma ilha autónoma da Dinamarca, coberta por um manto branco em 80% do território. Paisagens que pertencem ao céu, um gelo que aquece a alma e lendas sombrias ou maravilhosas. Um paraíso distante entre a Europa e as Américas.

Os glaciares massacram a imaginação, não se perspetiva a prática de grandes desportos por ali, pelo menos onde role uma bola, mas o que é certo é que existem. Segundo reza a lenda, existe uma competição de futebol desde 1954. É o maior desporto da ilha. Dizem alguns dados recolhidos na internet que existem qualquer coisa como 76 clubes e 5.000 pessoas com uma licença de futebol, ou seja, 10% da população.

O problema é que o clima, os acessos e as distâncias impossibilitam a prática normal de uma liga de futebol. Há muito futsal e, durante uma semana, pouco futebol, porém satisfatório e sedutor. É aí, nesse espaço temporal, que se decide o campeão do país. Ou seja, durante uma semana, oito finalistas de sete cidades definem quem são os maiores a jogar a bola com o pé no país.

Oito equipas, que superaram as fases de qualificação respeitantes à região de cada uma, chegam à derradeira etapa do campeonato de futebol onde é deliberado quem são os reis do gelo. No total, sete cidades da ilha estão representadas na corrida para o título nacional, onde ninguém é profissional e não existem contratos.

“O sistema de qualificação acontece assim por causa das infraestruturas na Gronelândia. Só usamos navios e voos e algumas equipas recorrem a pequenos barcos”, conta à Tribuna Expresso Noah Mølgaard, jornalista local da estação KNR. Ou seja, os acessos e as distâncias, aliados ao clima, não permitem uma competição regular como temos em Portugal.

“O futebol é o maior desporto da Gronelândia”, continua Mølgaard. “Toda a Gronelândia vê os jogos durante esta semana. Também há campeonatos de sub-15 e sub-18.”

Este jornalista explica que muitos jogadores preferem jogar futsal, uma modalidade que se joga na maior parte do tempo por ser indoor, mas também porque há mais oportunidades para jogar num registo internacional. Os patrocinadores também preferem o futsal.

“O futsal é jogado na maior parte do ano na Gronelândia porque se joga indoor”, conta Paul Watson, jornalista da revista “Four Four Two”, que esteve por ali em 2016, mais exatamente em Nuuk, a capital. “Foi um evento maravilhoso”, recorda, picando a memória. “Mesmo no início de agosto, o clima era muito frio e chuvoso, mas os adeptos juntavam-se na colina e cantavam durante os jogos. Não há estradas a ligar as cidades do país e os voos são demasiado caros, o que impede algumas equipas de competirem. Outras equipas apanham barcos, mas não é fácil e pode ser perigoso. Em 2004, houve uma tragédia: um barco virou com jogadores no interior.” Terão morrido nessa tarde três futebolistas, três homens da terra.

Esta temporada, a derradeira fase, está a ser jogada em Ilulissat. A equipa local, o Nagdlunguak 1948, já ganhou o campeonato em 11 ocasiões, o que permite antever uma batalha feroz contra os rivais B67, outra equipa grande. O torneio já está nas meias-finais, depois da tal lengalenga das qualificações, com sedutores G-44 Qeqertarsuaq-B-67 Nuuk e Nagdlunguaq-48 -Inuit Timersoqatigiiffiat-79. A final será jogada este sábado à noite.

A CONCACAF NO HORIZONTE

Outro tema, além do efémero desfecho do campeonato nacional, é o destino da seleção do país. Sem possibilidades de integrar a UEFA e a FIFA, por não ser um estado independente e soberano, os responsáveis da federação do país piscam o olho à Concacaf, uma confederação que organiza o futebol da América do Norte e Central e também das Caraíbas. “A Gronelândia participa nos Island Games, um evento desportivo para pequenas ilhas”, explica Mølgaard. “A Gronelândia vai jogar contra o Kosovo, em setembro, na Turquia.”

De acordo com Paul Watson, que explica cabalmente que a UEFA fecha a porta a territórios que não são considerados estados soberanos, a seleção nacional “é forte” e está “constantemente a melhorar”. A Concacaf, lembra, permite abertura a países nações ou territórios que fazem parte de outras nações. “Penso que têm uma chance decente”, explica Watson. “O estádio deles, em Nuuk, precisa de melhorar, o que sempre esteve planeado, mas que é difícil de pagar. Seja como for, não há nada que diga que eles não possam jogar temporariamente na Dinamarca, com a permissão daquela federação, que sempre os apoiou.”

Mølgaard revela que, para alcançarem outro nível e outra dimensão no futebol, precisam de um estádio coberto. Quanto à proximidade com a Concacaf, o jornalista informa que os Estados Unidos apoiam fortemente aquele território.

O fado do futebol nacional decide-se este sábado. Com montanhas de neve e montanhas de pessoas a olharem, à distância, nas colinas, decide-se o trono do território. Já o futuro, com vista à luta por presença em Campeonatos do Mundo, parece ser um assunto muito sério.

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