Tribuna Expresso

Perfil

Futebol internacional

A ‘Mina de Ouro’, academia onde o Midtjylland, adversário do Benfica, quer formar o próximo primeiro-ministro da Dinamarca

O clube dinamarquês que o Benfica volta a defrontar, esta terça-feira (18h45, Sport TV1), para a 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões, tem uma academia holística onde os jovens praticam cinco horas de desporto por dia e aprendem de forma personalizada para serem um bom ser humano muito antes de um bom futebolista. Falámos com Svend Graversen, diretor-desportivo do Midtjylland que dali quer ver sair o melhor jogador do mundo nos próximos 20 anos e que fale sobre mais do que Porsches e Ferraris

Diogo Pombo

Lars Ronbog/Getty

Partilhar

A azáfama é a sombra de Svend Graversen. O amanhecer dos sintomas chega por SMS, “escrevo-te 15 minutos antes de estar pronto”, seguido de um “tenho 10 minutos agora mesmo” que se encurta para apenas sete quando a sua cara a fitar a videochamada, de óculos postos e careca a reluzir nas luzes brancas do teto. Anda pelos corredores das instalações do Midtjylland, algures em Herning, sem se repousar por mais que uns 10 segundos. O diretor-desportivo está entre reuniões e distribui o que parecem ser cumprimentos em dinamarquês ao cruzar-se com pessoas.

É algures por entre essas paredes, ou na vizinhança próxima, que estará a ‘Guldminen’, academia do clube que alberga 75 miúdos dos sete aos 12 anos para serem esculpidos, não necessariamente, em futebolistas ou andebolistas, as modalidades em que o Midtjylland quer formar “os melhores jogadores”. A ‘Mina de Ouro’ é uma escola de acesso gratuito onde se “acredita mais no contexto do que no talento inato”, palavras lidas no site do projeto e que Svend Graversen não diz, mas reforça com as suas: “Precisamos de nos centrar na pessoa inteira e não só no futebolista, os valores atrás do jogador são muito importantes para nós”.

E não é aos livros que o projeto os quer ir buscar.

A escola não tem manuais de estudo nem submete as crianças a exames, sendo que o único teste que os fará pegar na caneta é um nacional e obrigatório, ao 9.º ano. “Queremos promover uma escola que cria pessoas completas através da aprendizagem, movimento e da comunidade vinculativa do desporto”, lê-se, também, na descrição do projeto. Soa a vago, quase parece roçar a utopia. Há dois anos, uma reportagem do “The Athletic” descreveu um dia típico de uma criança inscrita na ‘Guldminen’.

Pelas 7h30 juntam-se para o pequeno-almoço, recheando a barriga para depois terem um treino de futebol ou andebol. Seguem-se aulas de Matemática, Ciências ou Inglês cujos conteúdos seguem o plano nacional dinamarquês, mas o método de ensino diverge, em tudo - cada criança é ensinada de forma individualizada (o que não significa isolada ou sozinha) e adaptada ao seu estilo de aprendizagem. “Algumas aprendem a olhar para as coisas, outros por ouvirem, alguns aprendem melhor enquanto estão em movimento”, disse o Bjon Holm, um dos diretores, ao mesmo site.

Finda a primeira fornada de aulas, as crianças praticam ioga, judo, dança ou ginástica. Após o almoço têm mais aulas e perto das 16h tem a agenda livre. Por dia, cada jovem pratica cerca de cinco horas de desporto. “Quando educamos um jogador, estamos a educar a pessoa, portanto, se um miúdo quiser chegar a ser um jogador de topo, também terá os valores certos enquanto pessoa, enquanto ser humano”, acrescenta-nos Svend Graversen, o diretor-desportivo do Midtjylland que faz a ligação com a outra academia do clube, a dita mais ‘convencional’. Todas as crianças da ‘Mina de Ouro’ treinam nos mesmos campos e instalações onde trabalho os jogadores profissionais que, esta terça-feira, defrontam o Benfica na segunda mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões.

A perdigota bate com a bota quando, por exemplo, uma criança é posta com outras, mais velhas, se for muita boa em línguas ou matemática, não apenas no futebol. Cada um aprendendo à sua maneira, via movimento e exercício físico, raramente sentados a uma secretária. “Os pais dizem-nos que os filhos preferem estar na escola quando há feriados”, garante Claus Steinlein, antigo internacional dinamarquês e atual CEO do Midtjylland, ao “The Athletic”, explicando que os gaiatos “não entendem” a ‘Mina de Ouro’ como “uma escola por se divertirem tanto”.

Por esta abordagem holística ao ensino e aprendizagem passaram Simon Kjær, defesa do AC Milan e o terceiro mais internacional (119 jogos) pela Dinamarca, que foi dos primeiros a socorrer Christian Eriksen no verão passado, quando o jogador sofreu uma paragem cardiorrespiratória a meio de um jogo do Campeonato da Europa; ou Pernille Harder, avançada também da seleção e do Chelsea, considerada, em 2018, como a melhor jogadora do mundo. São futebolistas de sucesso erguidos como algumas das bandeiras do projeto, mas nem por isso com ostentação ou exageros.

Artigo Exclusivo para assinantes

No Expresso valorizamos o jornalismo livre e independente

Já é assinante?
Comprou o Expresso? Insira o código presente na Revista E para continuar a ler
  • David Neres, desde que o samba é samba que é assim
    Benfica

    Soa a algo injusto, desmedido até, não titular uma crónica com quem marcou três golos no jogo em questão, como Gonçalo Ramos o fez contra o Midtjylland. Mas quem desequilibrou com ginga, o assistiu nos dois primeiros e engatou o Benfica para a vitória (4-1) na primeira mão da 3.ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões foi o brasileiro que tem no drible uma forma de vida e mostrou-o na estreia dos encarnados em partidas oficiais esta época