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Um velho carrasco é agora aliado: Benni McCarthy é adjunto de Ten Hag no Manchester United

O sul-africano foi decisivo quando, em 2004, o FC Porto eliminou a equipa inglesa, com dois golos no Dragão e o livre que levaria à recarga de Costinha em Old Trafford. Agora irá integrar a equipa técnica do neerlandês, que tem, também, Mitchell van der Gaag

Pedro Barata

McCarthy bate o livre que será defendido por Howard, aproveitando Costinha a recarga para colocar o FC Porto nos quartos-de-final da Champions de 2003/04

Laurence Griffiths/Getty

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O FC Porto estava longe de ser uma equipa menor ou desconhecida, afinal de contas era o vencedor da Taça UEFA e detentor de um conjunto entrosado, bem trabalhado, com gente que prometia dar o salto para mais endinheiradas ligas. O Manchester United estava longe do melhor momento da longa era Sir Alex Ferguson, em transição entre o auge da class of 92, marcado pela noite mágica de Barcelona em 1999, e o domínio de Ronaldo, Rooney e companhia.

Ainda assim, naquele embate dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões 2003/04, não havia dúvidas sobre quem era o favorito. Na primeira mão, o campeão inglês em título viajou a casa do vencedor da liga portuguesa armado com Ruud van Nistelrooy, Paul Scholes ou Roy Keane, mas foi um avançado sul-africano o rei da noite.

Aos 29', Benni McCarthy correspondeu da melhor forma a um cruzamento de Alenitchev, antecipando-se a um passivo Gary Neville. O olhar assassino e os gestos letais eram imagens de marca do rei dos artilheiros daquela I Liga 2003/04, que naquela noite partilhou dianteira com o muito talentoso Carlos Alberto.

Um compatriota de McCarthy, Quinton Fortune, fez o 1-1 com o qual chegou o intervalo. Na segunda parte, um jovem chamado Cristiano Ronaldo entrou, mas foi outro avançado a voar sobre os centrais. Aos 78', McCarthy foi ao céu do Dragão elevar-se sobre a defesa do Manchester United, desferindo um cabeceamento imponente que levou o FC Porto para a segunda mão na frente por 2-1.

Na segunda mão, os campeões da Taça UEFA tiveram de sofrer em Old Trafford. Com Ryan Giggs em destaque, o mítico estádio caiu em cima dos azuis e brancos, colocando Paul Scholes o Manchester United na frente da partida — e da eliminatória, devido à regra dos golos fora.

O duelo parecia estar a cair para o lado inglês, até que o FC Porto, ao minuto 90, dispôs de um livre à entrada da área. Benni McCarthy, embalado pelos 21 golos que já tinha feito naquela campanha, preparou-se para bater.

O sul-africano rematou forte e colocado. Tim Howard fez uma defesa incompleta, fiel à maldição que por aqueles anos pairava sobre os escolhidos por Ferguson para defender a baliza. E, mais rápido e astuto que todos, Costinha aproveitou a recarga para colocar o FC Porto nos quartos-de-final e provocar a mítica corrida de José Mourinho.

Por muito que já tivesse acontecido Sevilha, ainda que aquela equipa lendário já estivesse há muito a ser afinada, é como se o destino que foi cumprido em Gelsenkirchen tivesse começado verdadeiramente a ser traçado em Manchester. E, portanto, tivesse começado a ser escrito pelas botas e cabeça letais de Benni McCarthy.

Benni McCarthy festeja um dos golos que marcou no Dragão ao United

Benni McCarthy festeja um dos golos que marcou no Dragão ao United

MIGUEL RIOPA/Getty

Muito tempo passou daquelas noites de fevereiro e março de 2004. Benni McCarthy, depois de ter feito golos na Premier League pelos Blackburn Rovers, é agora treinador. E está de regresso a Old Trafford, não como carrasco, mas como aliado de Erik ten Hag: O Manchester United anunciou que o ex-avançado sul-africano será um dos adjuntos do neerlandês, especializando-se em "treinar jogo atacante e posicionamento", indicaram os red devils.

Tendo terminado a carreira em 2012/13, nos Orlando Pirates, McCarthy orientou, nos últimos anos, o Cape Town City e o AmaZulu, conjuntos do seu país. Em 2020/21, o ex-jogador do FC Porto levou o AmaZulu ao segundo lugar da liga, uma classificação recorde, feito que lhe valeu o prémio de melhor treinador da temporada.

Aos 44 anos, o antigo internacional — jogou pela África do Sul em 80 ocasiões, marcando 32 golos e tendo estado presente de 1998 e 2002 — terá assim um novo desafio no clube de Diogo Dalot, Bruno Fernandes e (até ver) Cristiano Ronaldo.

Em Old Trafford, McCarthy reencontrará outro antigo jogador da I Liga portuguesa. Mitchell van der Gaag, que representou o Marítimo entre 2001/02 e 2005/06, é outro dos adjuntos de Ten Hag. O ex-central orientou, também, o Marítimo e o Belenenses.