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Clubes estão a contratar jogadores do campeonato ucraniano a custo zero e o Shakhtar Donetsk quer receber 50 milhões de euros da FIFA

A queixa do clube ucraniano baseia-se numa regra do organismo máximo do futebol mundial que permite que jogadores estrangeiros rescindam unilateralmente os seus contratos devido à invasão russa da Ucrânia

Carlos Luís Ramalhão

Michael Steele/Getty

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O Shakhtar Donetsk apresentou uma queixa ao Tribunal Arbitral do Desporto (TAS) contra uma regra da FIFA, que permite aos jogadores – e treinadores – estrangeiros terminarem de forma unilateral os contratos com o clube ucraniano devido à invasão russa do país. A regra dá aos profissionais de nacionalidade não-ucraniana a possibilidade de suspender os vínculos com qualquer clube do país até 30 de junho de 2023, a não ser que tenham chegado a acordo com as entidades até ao mesmo dia deste ano.

De acordo com o “The Athletic”, o clube de Donetsk, que pretende receber 50 milhões de euros pelos danos causados, já enviou os documentos ao diretor geral do TAS, Matthieu Reeb. O órgão jurídico sediado na Suíça terá recebido a documentação já no mês de julho.

A situação torna-se particularmente preocupante no caso do Shakhtar, que tinha, até à implementação da norma, 14 jogadores estrangeiros no plantel. O dinheiro do clube já tinha sido dizimado pela invasão da Ucrânia por parte da Rússia. De acordo com o “The Athletic”, o vencedor de 13 campeonatos nacionais desde a independência da União Soviética, em 1992, planeava vender os seus futebolistas não-nacionais para recuperar dinheiro vital para cobrir as perdas e assistir humanitariamente as vítimas da guerra.

Dirigentes do Shakhtar elogiaram a postura do Benfica na vinda de David Neres para a Luz, por exemplo, um dos negócios que os ucranianos ainda conseguiram concretizar. O clube estaria a negociar vários outros jogadores, mas a regra ditou que os compradores poderiam limitar-se a esperar até ao passado dia 30 de junho para evitar os pagamentos à instituição agora sediada em Kiev.

Sergei Palkin, presidente do Shakhtar Donetsk, enviou uma carta a Gianni Infantino, dirigente máximo da FIFA, dizendo: “Por causa da decisão da FIFA, o FC Shakthar perdeu a hipótese de transferir quatro jogadores estrangeiros pela quantia total de aproximadamente 50 milhões de euros”. No documento, a que “The Athletic” teve acesso, Palkin avisava que iria recorrer aos tribunais suíços, no caso de não ser encontrada outra solução.

A FIFA terá respondido que nenhum acordo dessa natureza seria anunciado antes de 1 de agosto. A medida é pouco benéfica para os clubes ucranianos, uma vez que os compradores conhecem a situação e sabem que podem, até lá, contratar os futebolistas sem pagar aos vendedores.

Palkin disse ao “The Athletic” que Infantino não respondeu a várias cartas sobre o tema e que a FIFA enganou o público quando afirmou ter consultado “representantes importantes do futebol ucraniano” antes de tomar uma decisão.

O CEO do Shakhtar afirma ainda que a impossibilidade de o clube vender jogadores e, dessa forma, recolher fundos, vai implicar que a instituição não poderá pagar prestações devidas a outros clubes por toda a Europa por atletas que assinaram anteriormente pelos ucranianos.

Palkin desabafou ainda: “Todos pensam que somos uma família no futebol. Esta decisão acabou com esse slogan. Não somos uma família no futebol porque ninguém quer saber dos clubes ucranianos. É uma grande pena. A FIFA não quer saber de nós”.

O dirigente lamenta o comportamento de clubes como o Fulham, que estava a negociar com o Shakhtar a compra de Manor Solomon. Segundo Palkin, tinha sido acordada uma verba de 7,5 milhões de euros pelo jogador. “Quase tínhamos partilhado os contratos e concordado com tudo. Quando a FIFA emitiu esta decisão, eles [Fulham] enviaram-nos um email a dizer que, por causa da posição da FIFA, iam retirar a proposta e contratar o jogador. Não há nada que possamos fazer sobre isso. Ele assinou por eles e é jogador do Fulham”, lamentou Palkin.