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Federação do Canadá assinou um lucrativo contrato sem partilhar as receitas. Após boicotarem um jogo, futebolistas exigem mais transparência

No Canadá, a lista de problemas só aumenta. Depois de uma declaração dos jogadores das seleções masculina e feminina em que defendiam a igualdade salarial, é agora emitido um outro comunicado a apelar à transparência por parte da federação. Percebeu-se, entretanto, que o dinheiro que os jogadores não estão a receber está a ser levado por contratos assinados pela própria entidade

Rita Meireles

Guillermo Legaria

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Rick Westhead, jornalista da “TSN”, descreveu a reunião que lançou o caos na federação do Canadá. O presidente, Nick Bontis, em total desespero e os jogadores veteranos da seleção masculina com cara de poucos amigos. O tema em causa: os futebolistas teriam que diminuir as suas exigências, caso contrário a federação não iria conseguir pagar.

Mas o momento não combinava com o discurso. A seleção do Canadá tinha conseguido, há cerca de três meses, a sua primeira qualificação para o Campeonato do Mundo em 36 anos, o que levava a Canada Soccer a receber um bónus de 10 milhões de dólares da parte da FIFA. Depois de passarem vários anos em busca da tão desejada qualificação, os jogadores consideraram que receber a sua parte desse bónus era, no mínimo, o justo.

Todos viram isso a acontecer em outros países. A Federação Americana de Futebol anunciou que, a partir do Mundial masculino de 2022 e feminino de 2023, o dinheiro dos bónus será partilhado igualmente entre os membros de ambas as equipas. A federação pagará aos homens e às mulheres 90% do dinheiro que receber da FIFA. A Austrália, concordou em pagar aos jogadores da sua seleção nacional masculina 40% do bónus de qualificação para o Mundial.

No Canadá? “Vocês não entendem a nossa situação", disse Earl Cochrane, secretário-geral da Canada Soccer, aos futebolistas.

Guillermo Legaria

Bontis explicou que a federação não podia pagar aos jogadores da seleção nacional o que eles queriam por causa de um contrato que a organização assinou, em 2019, com a empresa privada Canada Soccer Business (CSB). É esse acordo que está a levar a parte das receitas que deveria ser paga aos jogadores.

Seguiram-se mais duas reuniões com os jogadores nesse mesmo dia, mas foi impossível chegar a um acordo. A equipa já boicotou um jogo, frente ao Panamá, e apesar de ter voltado aos treinos, continua em desacordo com a federação no que ao bónus do Mundial diz respeito.

"O que estes jogadores fazem durante a qualificação para torneios como o Mundial é física e mentalmente cansativo. Lembro-me de voar para uma cidade da América Central para um jogo do Canadá e pessoas armadas escoltavam-nos do avião para um autocarro, e havia uma razão para terem armas. Uma vez foi tão perigoso que fizemos o nosso treino no topo de um hotel em vez de um campo. Depois, há dias em que se joga num campo que é quente e duro e em que se retiram ervas daninhas do campo que são tão altas quanto os jogadores. É uma brutalidade. E depois recebes a chamada mais tarde para voltares a jogar pelo teu país e fazes tudo de novo. Tem de haver uma apreciação pelo que estes jogadores fazem, pelos sacrifícios que fazem", disse Julián de Guzmán, antigo jogador do Canadá, ao mesmo canal.

A equipa de futebol feminino também é vítima deste contrato com a CSB. O Canada Soccer gastou 24,5 milhões de dólares (do Canadá) na equipa nacional masculina entre 2018 e 2021, em comparação com 18,4 milhões na equipa feminina, de acordo com as declarações financeiras anuais da federação a que a "TSN" teve acesso. Durante os mesmos quatro anos, a entidade recebeu 10,4 milhões de dólares através do programa "Own the Podium", dinheiro que estava reservado para a equipa feminina graças às vitórias que tem conquistado. O paradeiro desse dinheiro é desconhecido.

"Gosto de pensar que os jogadores estão a tentar negociar de boa-fé e dar à federação o benefício da dúvida, mas tem havido uma grave falta de transparência. Sempre que pedimos detalhes sobre de onde vem o dinheiro e como o distribuem entre as equipas, os executivos limitam-se a andar em círculos", disse a jogadora Janine Beckie à “TSN”.

Kevin Light

Os problemas com origem no acordo com a empresa privada continuam. Descobriu-se, por exemplo, que no contrato diz que a "CSB" mantém todas as receitas de patrocínios, sendo que o Canadá vai receber o Mundial de 2026 e poderia juntar uma larga quantia só através desse lado comercial. O que levou os jogadores e as jogadoras das seleções a emitirem um comunicado.

"Como um grupo unido de jogadores da seleção nacional do Canadá, procuramos a transparência total da federação. Pedimos uma investigação sobre as práticas de governação da Canada Soccer, e sobre as circunstâncias pelas quais a Canada Soccer celebrou o seu acordo com a Canada Soccer Business. Para o futuro, apelamos a que os membros das equipas sejam devidamente consultados nas decisões chave com impacto nas seleções nacionais", lê-se.

Os futebolistas realçam que o objetivo passa apenas por fazer a modalidade avançar e não retroceder. "No entanto, para que isso seja possível, devem ser tomadas medidas imediatas para abordar as graves questões levantadas pelo artigo de Rick Westhead", afirmaram.