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Dani Alves sobre a frustração com a segunda passagem pelo Barcelona, o Brasil no Mundial 2022, violência, racismo e até Lewis Hamilton

Foi uma passagem curta, mas Dani Alves recorda com felicidade a segunda oportunidade no Barcelona. Ainda assim, não encontrou o clube como deixou quando saiu em 2016. Numa entrevista ao “The Guardian”, o jogador falou ainda sobre abertamente sobre os casos de violência no futebol brasileiro, dos casos de racismo que marcaram a atualidade nas últimas semanas e das hipóteses da seleção do Brasil no Catar

Rita Meireles

Steve Christo - Corbis

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“Eu não saí triste”, disse Dani Alves sobre o adeus ao Barcelona depois de um regresso de apenas seis meses.

A primeira vez que o jogador brasileiro chegou ao clube catalão foi em 2008, depois de seis temporadas já em Espanha, mas ao serviço do Sevilha. Seguiram-se oito anos a jogar em Camp Nou, cheio de sucessos e recheado de títulos, o que justifica o entusiasmo de Dani Alves quando teve uma segunda oportunidade e regressou em 2021.

“Saí feliz por ter regressado a Barcelona. Sonhei durante cinco anos viver este segundo momento”, disse em entrevista ao “The Guardian”.

Ainda assim, não é capaz de esconder o descontentamento quando se trata da forma como a sua saída foi tratada pelo clube nesta segunda passagem pela Catalunha, muito menos feliz do que a primeira: “Desde que cheguei, deixei bem claro que já não era um rapaz de 20 anos e que queria que as coisas fossem feitas de frente, sem esconder nada. Mas este clube tem pecado nos últimos anos. O Barcelona não se preocupa com as pessoas que fizeram história pelo clube. Não estou a falar de mim porque a minha situação era diferente. Estou eternamente grato ao Xavi e ao presidente por me terem trazido de volta”.

"Encontrei um clube cheio de jovens com ideias incríveis em campo. Mas precisa de melhorar o trabalho fora do campo. A mentalidade é totalmente oposta àquela que construímos há alguns anos. Tudo o que acontece no campo é um reflexo do que acontece no exterior”, realça Dani Alves.

Encerrado o capítulo “Barcelona”, o jogador, de 39 anos, só não pensa numa coisa: terminar a carreira. "Sei que todos falam da minha idade, que sou velho, que há 20 anos todos me queriam e hoje não. Mas discordo completamente porque tenho hoje uma experiência que não tinha há 20 anos. Quando há um grande jogo, os jovens de 20 anos ficam nervosos e preocupados, mas eu não”, disse.

Dani Alves, que está sem clube neste momento, tem sido apontado a diversas equipas nos últimos tempos. Fala-se do Real Valladolid, do qual Ronaldo é proprietário, e também do Athletico Paranaense, treinado por Luiz Felipe Scolari, ex-treinador das seleções de Portugal e do Brasil. Caso opte por regressar ao Brasil, onde já jogou pelo Bahia e o São Paulo, vai encontrar um campeonato que nos últimos tempos ficou marcado pela violência. Lembra o “The Guardian” que, desde o início do ano, jogadores do Bahia, Fortaleza, Grêmio e Paraná foram agredidos por fãs.

"Precisamos de melhorar o futebol brasileiro, precisamos de lutar contra a violência nos estádios. É vergonhoso o que tem acontecido nos jogos. As pessoas têm filhos, querem ver algo que possam admirar. Se não torna-se uma frustração, um trauma. Não podemos sentar-nos em cima da história porque depois não se escreve nenhum capítulo. Foi o que tentei fazer, mas fui crucificado [em São Paulo]. Não excluo qualquer situação, mas se voltar ao Brasil, será para o Athletico Paranaense", garantiu.

CHARLY TRIBALLEAU

O brasileiro mostra-se também frustrado com as atitudes das pessoas por estes dias. Depois da pandemia causada pela covid-19, num momento em que se vaticinava que todos iriam sair melhores humanos daquela experiência, nada melhorou verdadeiramente no mundo. “Estamos a sair da pandemia e todos pensavam que as coisas iam mudar, mas o que aconteceu foi uma guerra”, disse.

Dani Alves aproveitou a entrevista para falar sobre o racismo, até porque a forma xenófoba como Nelson Piquet falou de Lewis Hamilton, dois campeões mundiais de Fórmula 1, era um dos temas que estava a marcar a atualidade. “Incomodou-me. Mas não apenas pelo facto em si. Não me vou aprofundar demasiado nisto porque empurrar um bêbado para baixo é fácil. Não é só por causa da declaração [de Piquet], é por tudo o que está a acontecer. O que aconteceu é o extremo. Se o maior vencedor da Fórmula 1 é atacado, desprezado, excluído, imaginem quem está lá em baixo na sociedade?”, questionou.

Num tom mais positivo, Dani Alves falou sobre o Mundial 2022, marcado para o final do ano. Tendo jogado pelo Brasil em 125 ocasiões, incluindo nos Campeonatos do Mundo de 2010 e 2014, garante que o seu país tem fortes hipóteses de ganhar o título pela primeira vez em 20 anos. Vai ao ponto de dizer que a seleção é "sem dúvida a favorita".

E se Dani Alves for ao Mundial, será esse o palco para o final da carreira? “A última dança é quando chega a reforma, mas eu acho que vou continuar a dançar”, disse.