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O Union St. Gilloise esteve quase 50 anos longe da 1.ª Divisão da Bélgica. Mas focou-se nas pessoas e agora sonha com o título

Só Anderlecht e Club Brugge têm mais títulos nacionais. A última vez que o Royale Union Saint-Gilloise conquistou a liga foi em 1935, por isso a liderança esta temporada é tão improvável que se vislumbram laivos de mitologia, ainda mais para uma equipa que há um ano estava na 2ª Divisão. O treinador, Felice Mazzu, admira Jürgen Klopp e tem uma fórmula para lidar com os futebolistas: "Sendo coerente, lógico e respeitoso"

Hugo Tavares da Silva

VIRGINIE LEFOUR

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As bolas começaram a entrar tantas vezes nas balizas dos adversários que a utopia deixou de levar esse nome. Quase 50 anos depois, o Royale Union Saint-Gilloise estava a voar na segunda divisão belga e a tratar de regressar ao circo de feras. Dante Vanzeir, insaciável, era o matador de serviço.

Promoção garantida, o Union St. Gilloise regressou no verão ao lugar a que pertence. Afinal, só Anderlecht (34) e Club Brugge (17) têm mais títulos nacionais do que este gigante adormecido (11), que no início da história do futebol belga rivalizava com o Racing de Bruxelles. Entre 1904 e 1913, o clube que veste à Brasil conquistou sete campeonatos. O último dos 11 títulos aconteceu no longínquo ano de 1935.

E a história continua a mudar.

O Union St. Gilloise, fundado em 1897, está nesta altura na liderança da liga belga, com mais sete e nove pontos do que Club Brugge e Anderlecht.

O dono é um inglês, Tony Bloom, o charmain do Brighton & Hove Albion. Como diretor-desportivo está o irlandês Chris O'Loughlin. Em entrevista à "Sky Sports", antes do Natal, O'Loughlin explicou um outro lado do processo de recrutamento e também de que se trata este clube.

“Não estamos à procura de anjos. Queremos personalidades diferentes, o que faz barulho, o sossegado, o brincalhão. É importante haver dinâmica. Podemos ter objetivos diferentes, mas tem de haver algo que junta todos. Acreditamos que o nosso sistema de valores ajuda nisso”, disse.

E continuou: “Viemos todos de contextos diferentes, e de repente estamos juntos e fazemos em média 250 treinos com um objetivo comum. Podes ter personalidades diferentes, mas precisas de algo comum em cada jogador”, insistiu, explicando que o sucesso atual se deve muito a isso. “Houve uma grande transição. Foram feitas avaliações claras. Foi aí que identificámos os jogadores que queríamos no clube, que tipo de seres humanos queríamos no edifício.”

O treinador, obreiro da promoção e da liderança atual, é Felice Mazzu, um belga de 55 anos, com passagens no Genk, Charleroi, White Star e Tubize. No currículo está uma Supertaça da Bélgica e um campeonato da 2.ª Divisão.

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“É um tipo de treinador especial”, admitiu O'Loughlin à Sky Sports. “Ele sabe motivar o grupo. Ele sabe como implementar uma mentalidade vencedora. Ele tem esta ideia de que os jogadores devem ganhar todas as sessões de treino. Mais importante: ele abraçou os valores do clube.”

Em entrevista ao “Brussels Times”, publicada nos primeiros dias de dezembro, Mazzu admitiu que por esta altura navegam acima do horizonte de expectativas. “Eu não quero dizer que estou surpreendido porque, se o dissesse, significaria desrespeitar o meu grupo de jogadores. Estamos certamente numa posição mais alta do que qualquer pessoa esperava. Mas, quando olho para o que os jogadores estão a fazer, penso que é merecido. É um grupo com uma grande mentalidade, um grupo saudável e com ambição. Por isso, não quero dizer que estou surpreendido. Sabemos que a época é muito longa e que será difícil ficar onde estamos, mas vamos fazer o nosso melhor para perder poucos pontos”, admitiu.

Para já, o treinador não quer falar em títulos ou competições europeias. A ideia é permanecer na Primeira Divisão, algo que fugia a este clube há 48 anos. Sobre o que procura num futebolista, para além do talento, foi mais assertivo. “A mentalidade é importante para mim. O jogador tem de trabalhar no seu jogo. Tem de trabalhar para os colegas. Tem de perceber os colegas. Tem de os ajudar quando eles estão numa situação difícil. É o mais importante. Tudo o que alcançámos, fizemo-lo como um grupo e não como individuais. O que me interessa é a mentalidade do grupo.”

Questionado sobre o segredo para espremer o sumo mais belo de um grupo de homens, Mazzu falou em respeito. “Não diria que é um segredo. Tens de comunicar com os jogadores, ser respeitoso, correto, tens de tentar que percebam porque estão no campo e porque não estão”, ia explicando. “Eu faço isto sendo coerente, lógico e respeitoso. É o mais importante.”

O homem que tem Jürgen Klopp como referência e que teme que o dinheiro e negócio ganhem ao futebol admitiu que tem um medo: “Estou preocupado com a publicidade à volta da equipa e do clube. Estou preocupado que os jogadores não mantenham a cabeça entre os ombros e que se tornem noutras pessoas. Temos sido normais, pessoas simples, durante um ano e meio. Somos uma equipa mediana, apenas com alguns jogadores com experiência na Primeira Divisão. Tivemos sucesso porque somos as mesmas pessoas. Mantivemo-nos com os pés no chão. Tentamos divertir-nos. Sim, tenho medo que eles mudem se nos publicitarmos demasiado. Estou muito vigilante em relação a isso”.

O Union St. Gillois, que joga no Stade Joseph Marien, em Forest, Bruxelas, vai liderando o campeonato depois de 15 vitórias em 21 jornadas. O melhor marcador do campeonato é deste modesto e gigante clube – Deniz Undav, um alemão com dupla nacionalidade turca. Nos últimos dias de janeiro terá pela frente Club Brugge e Anderlecht e aí talvez fique ainda mais perceptível até onde pode ir esta gente que sonha com os olhos abertos e botas afinadas.