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Buffon, Bonucci e a pegada que Cristiano Ronaldo teve na Juventus

Gianluigi Buffon, o senhor guarda-redes que, aos 43 anos, já muito ganhou e ainda jogo, falou sobre a influência que Cristiano Ronaldo teve na Juventus durante os três anos que passou em Itália e explicou que, com ele, se perdeu "o ADN de equipa". Algo que não é uma crítica, mas uma constatação, semelhante à que Leonardo Bonucci, outro histórico da equipa, já explicara há meses

Diogo Pombo

Daniele Badolato - Juventus FC

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Cristiano para aqui, Ronaldo para ali, falar sobre o português amicíssimo dos golos marcados aos magotes e de todas as formas e feitios é como respirar, todos os fazem. O que diverge, de quando em vez, é a origem da voz — e a feitura que carrega no futebol, o estatuto, os títulos conquistados, o carisma tido à sua volta e a perceção pública que tem. No caso de Gianluigi Buffon, o italiano tem todos esses mencionados elementos nos píncaros do que, em teoria, é almejado por qualquer futebolista.

O guarda-redes ainda joga aos 43 anos, no seu Parma onde tudo começou, mas construiu a nata da carreira na Juventus, onde contou 19 épocas entre 2001 e 2021, interrompidas pela solitária aventura no estrangeiro no Paris Saint-Germain (2018/19). Quando de lá regressou, tinha no seu clube de uma vida um dos futebolistas definidores desta geração do futebol, com quem partilhou dois anos de campo, balneário e dezenas de jogos.

Daí que o senhor Buffon tenha falado de Cristiano Ronaldo com propriedade e cingiu o que disse ao contexto da Juventus quando, em entrevista ao “TUDN”, um canal de televisão mexicano, o questionaram sobre o português. “Quando regressei, trabalhei com o Cristiano Ronaldo durante dois anos e passámos bem juntos, mas creio que a Juventus perdeu o ADN de ser uma equipa. Antes éramos uma equipa cheia de experiência, mas, sobretudo, éramos um todo”, disse o italiano, resumindo depois: “Perdemos isso com Ronaldo”.

Na entrevista, o guarda-redes não formula uma crítica, antes uma constatação do que a presença de um jogador tão demarcadamente especializado nessa fase da carreira — um finalizador de área, já pouco participativo nas fases de jogo para levar a bola até aos últimos 30 metros e necessitado cada vez de menos toques para marcar golos de qualquer lugar onde enquadre o corpo com a baliza — que a sua pegada numa equipa tem efeitos vincados.

Giorgio Perottino - Juventus FC

Em setembro, Leonardo Bonucci, defesa central e outro nome deste século na Juventus, também falou dos três anos que Ronaldo esteve em Turim. “A presença de Cristiano teve uma grande influência em nós. Só treinar com ele dáva-nos algo extra, mas, no subconsciente, os jogadores começaram a pensar que só a sua presença era suficiente para ganhar jogos”, explicou o italiano, em entrevista ao “The Athletic”, desenvolvendo o seu retrato.

Contou o campeão europeu com Itália que a Juventus “começou a piorar no trabalho diário, na humildade, no sacrifício, no desejo de estar lá pelo teu companheiro de equipa, dia após dia. Bonucci reconheceu que existia uma ideia: “Que um jogador, até o melhor do mundo, poderia garantir a vitória à Juventus”. O dito pelo italiano já foi mostrado, ciclicamente, pelo futebol ao longo de décadas, que por mais qualidades brutais de um só humano, isso não assegura tudo a um conjunto de 11 pessoas que jogam uma coisa coletiva.

“Talvez tenhamos tomado por garantido que, se déssemos a bola ao Cristiano, ele ganhar-nos-ia o jogo”, acrescentou o italiano, passando à evidência comum a toda a equipa de futebol — “O Cristiano precisava tanto da equipa como nós dele. Tinha de haver um trade-off, porque é a equipa que levanta o indivíduo até se o indivíduo for o melhor jogador do planeta”. É a versão do futebol do ovo, da galinha e de quem antecede o quê.

Ter um jogador de qualidades absurdas nunca valerá o que potencialmente poderia se, nessa equipa, não for orquestrada uma forma de o todo funcionar para valorizar o que cada uma das suas partes tem de melhor. Esperar que o todo funcione e dê resultados, a longo-prazo, apenas por acolher um jogador (seja quem for), é uma falência que foi indicada nas palavras de Gianluigi Buffon e aprofundada nas de Leonardo Bonucci.