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O cancro ainda está com Gianluca Vialli, que luta para o “aturarem durante muito mais tempo”

Uma das sombras de Roberto Mancini durante o último Europeu, sempre engravatado, de boina e de fatiota, Gianluca Vialli admitiu que o tumor cancerígeno no pâncreas "ainda está aí". O antigo avançado italiano, de 57 anos, disse que o cancro o ajudou a conhecer-se melhor, pois "é inevitável que descubras o teu verdadeiro eu"

Diogo Pombo

Claudio Villa/Getty

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Ei-lo tão impecavelmente vestido, o casaco cinzenta a assentar-lhe nos ombros e ele de boina, tantas vezes com a careca tapada, mas sempre sorridente enquanto perfilado com os italianos com outra rodagem de vida que Roberto Mancini perfilara na sua sombra, para ajudarem na montagem da seleção ganhadora de um Europeu. Ao seu lado, Gianluca Vialli tinha o igualmente calvo Attilio Lombardo, o barbudo Daniele de Rossi ou o bigodeado Alberigo Evani, cada um a fazer a sua parte.

Todos depositavam experiência de façanhas passadas com Itália ou clubes grandes do país e se apresentavam, engravatados, nos jogos que a seleção fez até derrubar a Inglaterra na final e os homens mais aprumados fora de campo do torneio invadirem o relvado para celebrarem uma conquista com os jogadores. Vialli, de 57 anos, chorou baba e ranho e litros de lágrimas alegres pela conquista e algo mais. “Ele é forte, muito mais forte do que eu. Foi sempre um exemplo e uma referência para todos nós”, disse Mancini sobre ele, já com o troféu conquistado.

Não o disse no verão, quando embalado pelo sucesso e nos píncaros da conquista. Gianluca Vialli esperou e voltou a falar do cancro no pâncreas, diagnosticado em 2017, com o qual, já admitira antes, nunca pôde lutar “porque nunca seria capaz de ganhar contra um adversário muito mais forte” do que ele.

Michael Regan - UEFA

Um ano depois, o italiano teve alta médica dos tratamentos, mas, meras semanas volvidas, o tumor ressurgiu e teve que retomar os tratamentos até abril de 2020. “Tenho medo e estou preocupado. Uma coisa que vou demorar a perder é o sentimento de ir dormir ou levantar-me com uma pequena dor no corpo, na cabeça, ou um pouco de febre, e pensar que voltou”, disse, o ano passado, ao “The Times”.

Mas o antigo avançado que marrava de qualquer forma contra as balizas, amigo do golo que fundiu essa amizade com Mancini durante quase uma década na Sampdoria, entre os futebóis dos anos 80 e 90 (com uma Serie A vencida, em 1991, e uma final da Liga dos Campeões perdida contra a Dream Team de Cruyff no Barça, em 1992), carregou o seu exemplo de fatiota no último Europeu — e, há dias, Vialli regressou ao que nele ainda habita e conspira contra a saúde.

Na apresentação do seu livro, em Itália, o ex-jogador disse estar “em modo de manutenção” com o “hóspede indesejado”. Assim trata o tumor que ainda lhe faz companhia. “Às vezes nota-se mais, outras menos, mas ainda está aí”, lamentou, serrando agora os dentes como, anos antes, disse ser infrutífero fazer: “Vou continuar a lutar porque quero estar aqui muito mais anos, quero que me tenham de aturar durante muito tempo”.

Gianluca Vialli sorriu com as palavras, contando ainda como as filhas o ajudavam “a pintar as sobrancelhas” nas piores fases da quimioterapia ou a mulher lhe dava "conselhos de maquilhagem”, valendo-se da qualidade do riso. “Tens que te rir, tens de tentar encontrar o lado divertido. Ninguém quer conhecer algo como isto, mas, se acontecer, deves vê-lo como uma oportunidade para te conheceres melhor”, explicou, citado pelo “El Español”.

Revela o italiano ser “é inevitável que conheças o teu verdadeiro eu” com esta companhia desejada por ninguém. Vialli está a descobrir-se enquanto vai ajudando a seleção de Itália a destapar novos tempos vitoriosos.

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    Bruno Vieira Amaral olha para o simbolismo do abraço entre Vialli e Mancini, na vitória da Itália frente à Áustria, no mesmo estádio em que os dois perderam a final da Taça dos Campeões Europeus. "O forte abraço que deram sentimo-lo todos. Também nós fomos abraçados: pela amizade entre os dois, pelas memórias de infância, pela beleza das histórias do futebol à beira-campo"