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Williamson, capitã das campeãs da Europa: “Muito mudou de um dia para o outro. A fama vem com isso. Não somos ricas, temos vidas normais”

As mulheres conseguiram a conquista que os homens falharam: o Europeu de futebol ganho em casa. Desde 1996 que o refrão “football’s coming home”, dos Lightning Seeds, não se ouvia tanto em Inglaterra. Chamaram-lhes lionesses e coube à jovem Leah capitaneá-las

Carlos Luís Ramalhão

Sarah Stier - UEFA

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A seleção feminina de Inglaterra conseguiu em 2022 o que a congénere masculina persegue desde 1966: trazer o futebol para casa. Em 1996, os Lightning Seeds criaram um hino chamado “Three Lions” e celebrizado pelo refrão “it´s coming home, football’s coming home”. Era o ano da grande hipótese, com o Euro a ser jogado na terra que, alegadamente, inventou a modalidade. Se, desportivamente, não correu bem – a Alemanha disse nein – Ian Broudie, compositor e vocalista dos Lightning Seeds, criou um hit que ecoa hoje mais do que nunca.

No momento em que Sarina Wiegman, a neerlandesa adotada pelas inglesas como selecionadora – falava aos jornalistas, a canção começou a ouvir-se em crescendo e Sarina não evitou um sorriso, prevendo uma surpresa. As novas campeãs da Europa invadiram a sala de imprensa a cantar o já clássico, saltaram para cima da mesa e calaram a sua treinadora, que celebrava com as suas jogadoras.

Entre elas estava, claro, a capitã Leah Williamson, que tinha erguido o tão desejado troféu em frente de 87 mil pessoas no mítico Wembley, em tarde de bem-vinda revolução num mundo dominado por homens. Poucos dias mais tarde, o jornal “The Telegraph” encontrou a jogadora no Aeroporto de Stansted, discreta, a fazer check-in para um voo de baixo custo.

Em Ibiza, algumas horas mais tarde, Williamson tinha alguns fãs à espera e essa foi a única diferença para a viagem que qualquer um de nós poderia fazer. “Apanhei um voo normal. Definitivamente não é um jato privado. Se fosse, eu estaria feliz. Mas foi muito confortável, tive um bom voo”, disse Leah, com um sorriso tímido.

“Quando saí do avião, tinha algumas pessoas à espera para me congratularem ou pedirem fotos. É um ajuste complicado”, confessou a futebolista do Arsenal. Talvez esta história nos lembre do quão drasticamente as vidas de Williamson e das outras leoas mudaram. Até agora, esta viagem de verão era um hábito para a discreta Leah.

O “Telegraph” entrevistou-a mais tarde, num restaurante no topo de um edifício em Londres. A atleta de olhos muito azuis pareceu ao jornalista do diário inglês pouco mudada pelo seu estatuto de celebridade. Diz-se ainda “nas nuvens”. Com a fama, vem um alto nível de escrutínio, incluindo a infame procura dos paparazzi por fotografias de Leah e das amigas em biquíni, em Ibiza.

A jogadora-adepta ferrenha do Arsenal fala dos momentos mágicos, mas também de algumas ocasiões menos glamorosas: a funcionária de uma loja que esperou até ao momento em que Leah virava costas para sussurrar “parabéns”; o pacote de Doritos que a sua tia comprou e que a chocou quando viu o rosto da sobrinha impresso.

Naomi Baker/Getty

Diz a atleta: “Se queremos fazer o que estamos a fazer, penso que temos de aceitar um certo nível de atenção. A fama vem com isso, mas não podemos proteger-nos. Preocupo-me com essas coisas, porque estamos, naturalmente, no topo do nosso jogo e a história diz-nos que as pessoas vão tentar trazer-te cá para baixo. Não temos os mesmos meios para nos protegermos que alguém com esse nível de fama, muito rico, teria. (…) Não somos ricas. Nós vivemos vidas normais e praticamos um desporto de alto nível”.

Aos 25 anos, Leah leva a braçadeira de capitão muito a sério. É algo novo, também, uma vez que, no último torneio, o Mundial de 2019, a jovem jogou apenas alguns minutos, como substituta. Sobre a mudança, a jogadora do Arsenal adota uma atitude protetora: “Estou consciente de que quero proteger as raparigas, porque o que fizemos é fantástico, mas muita coisa mudou de um dia para o outro. Não foi gradual”.

As leoas fizeram questão de partilhar a vitória. Logo a seguir ao Euro, Williamson gritou apaixonadamente aos microfones da "BBC": “A herança deste torneio é uma mudança na sociedade. Aproximámos as pessoas, trouxemos mais gente aos jogos. Queremos pessoas nos jogos da WSL [Women's Super League, o principal campeonato do futebol feminino inglês]”.

Williamson sonha com estádios maiores na liga inglesa. Mas o principal objetivo é “afetar as mudanças” de raiz. Dois dias depois de se terem passeado por Londres num autocarro aberto, as leoas enviam uma carta aberta aos candidatos a líder do Partido Conservador, que está no poder no Reino Unido, a pedir um compromisso que garanta oportunidades iguais para as raparigas jogarem futebol na escola.

“Não queremos desperdiçar o que fizemos”, diz Leah Williamson. “Costumávamos ir às escolas individualmente, agora temos a força para efetivar a mudança a uma escala massiva. Que melhor forma de fazê-lo do que indo às escolas, onde encontrámos as barreiras mais cerradas para nós?”, pergunta a campeã da Europa, que ajudou a trazer o futebol para casa.