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A boa ressaca do Europeu que fará o futebol feminino voltar a encher Wembley: bilhetes para o jogo entre a Inglaterra e os EUA já esgotaram

No último fim de semana, a Europa assistiu à destruição da desculpa de que o futebol feminino nunca poderá ser comparado ao masculino porque não leva pessoas aos estádios. A final do Euro 2022 teve mais adeptos nas bancadas do que qualquer outra final de um europeu, feminino ou masculino. O interesse só aumenta e a Inglaterra e os Estados Unidos voltaram a provar isso mesmo

Rita Meireles

Sarah Stier - UEFA/Getty

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"O legado do torneio já foi feito antes deste jogo final: o que fizemos pelas mulheres e jovens raparigas que podem olhar para cima e aspirar ser como nós. Penso que a Inglaterra organizou um torneio incrível e mudámos o jogo neste país, e esperamos que em toda a Europa e em todo o mundo".

Foi assim que Leah Williamson, capitã da seleção inglesa, descreveu o Euro 2022 durante a celebração da conquista em frente a uma multidão de adeptos. Foram recordes atrás de recordes. A vitória da Inglaterra contra a Noruega por 8-0 foi a maior da história do torneio, a final foi a que teve mais adeptos nas bancadas entre todos os Europeus femininos e masculinos, Beth Mead e Alex Popp tornaram-se as primeiras jogadoras a marcar nos três jogos da fase de grupos. E a lista continua.

É provável que daqui para a frente se fale de um antes e um depois do Euro 2022 no futebol feminino europeu, mas houve um outro momento que teve o mesmo efeito, apesar de ter sido sentido com mais intensidade nos Estados Unidos: o Mundial de 2019.

Entre a partida de abertura e a final, muitos outros recordes foram batidos nos campos do país anfitrião, a França. Só a equipa norte-americana conseguiu marcar o maior número de golos num jogo do Mundial (13) - o mesmo jogo que colocou Alex Morgan como a jogadora que mais golos marcou numa partida - e tornar-se a seleção que mais vezes venceu o torneio. A final ficou ainda marcada pelo momento em que os adeptos se juntaram às jogadoras para exigir a igualdade salarial no futebol, meta que foi alcançada pela seleção dos Estados Unidos este ano.

Se mais provas faltassem da importância destes dois torneios, a seleção inglesa acabou de dá-las. Na terça-feira foi anunciado que Inglaterra e EUA, as seleções campeãs dos últimos Europeu e Mundial, respetivamente, têm encontro marcado em Wembley para 7 de outubro. A procura pelos bilhetes foi tanta que o site da federação britânica esteve sem funcionar durante alguns instantes e, quando regressou, as filas chegaram a ter 45 mil pessoas em espera.

Até que os bilhetes esgotaram. Nem 24 depois do anúncio do jogo.

A Inglaterra e os EUA encontraram-se pela última vez na SheBelieves Cup em 2020. Com golos de Christen Press e Carli Lloyd, venceu a equipa da casa por 2-0. Um ano antes, jogaram as ‘meias’ do Mundial, quando a equipa inglesa foi eliminada da competição.

"É realmente emocionante ter a oportunidade de jogar contra os EUA em Wembley se conseguirmos garantir a qualificação para o Campeonato do Mundo. Seria o jogo perfeito para o nosso plantel conhecer outra equipa forte depois de tantos jogos difíceis no Euro. É bom desfrutarmos do momento em que estamos depois deste verão maravilhoso, mas sabemos que ainda temos trabalho a fazer para dar o próximo passo em frente”, disse Sarina Wiegma, treinadora da seleção inglesa, ao “The Guardian”.

Com mais este sinal de que o interesse pelo futebol feminino está a aumentar, a seleção da Inglaterra optou por não deixar passar o momento para fazer a diferença. Numa carta assinada por todas as jogadoras que marcaram presença no Euro, as inglesas pediram aos candidatos a primeiro-ministro, Rishi Sunak e Liz Truss, que se comprometessem a permitir que todas as raparigas jogassem futebol nas escolas.

Isto depois de o Departamento de Educação se ter recusado a dizer que isso iria mudar na orientação.

"Ao longo do Euro, nós, enquanto equipa, falámos do nosso legado e do nosso objetivo de inspirar uma nação. Muitos pensarão que isto já foi alcançado, mas nós vemos isto como apenas o início. Estamos a olhar para o futuro. Queremos criar uma verdadeira mudança neste país”, afirmaram.

Um relatório publicado pela "England Football", que faz parte da federação inglesa de futebol, mostrou que apenas 44% das escolas secundárias oferecem aulas de futebol iguais para rapazes e raparigas.

"A realidade é que estamos a inspirar jovens raparigas a jogar futebol apenas para muitas acabarem por ir para a escola e não poderem jogar", lê-se na carta assinada pelas 23 jogadoras. "Isto é algo que todas nós vivenciámos. Fomos muitas vezes impedidas de jogar. Assim, fizemos as nossas próprias equipas, viajámos pelo país e, apesar das probabilidades, continuámos simplesmente a jogar futebol”.