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Futebol feminino

Lena Oberdorf jogou com rapazes até aos 16 anos e não atendeu a selecionadora nacional por estar na escola. Será a estrela alemã do futuro

É vista como uma das grandes esperanças do futebol alemão desde muito cedo, mas não há pressão que a afete. Até porque o vasto currículo de uma curta carreira dá resposta a qualquer expectativa. E, segundo a própria, os anos a jogar com os rapazes ajudaram-na na preparação para os grandes palcos do futebol. Esta quarta-feira, tentará levar a Alemanha à final do Euro feminino, frente à seleção francesa (20h)

Rita Meireles

Alexander Scheuber - UEFA

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"Estou contente por ela jogar pela Alemanha e não por outra seleção", disse a selecionadora alemã Martina Voss-Tecklenburg. "Foi uma boa batalha. Ela é uma grande jogadora com muitas qualidades e ainda é jovem. Ela fez um jogo incrível”, realçou a jogadora austríaca Sarah Zadrazil.

O jogo em questão foi o Alemanha-Áustria dos quartos-de-final do Euro 2022, que garantiu à primeira um lugar na fase seguinte. O jogo terminou 2-0, mas só se falava num nome: Lena Oberdorf. Algo que, aliás, tem sido muito comum também no campeonato alemão, onde representa o Wolfsburg.

O que faz com que as suas exibições sejam ainda mais impressionantes? Tem apenas 20 anos.

Oberdorf já vestiu a camisola da seleção principal alemã num Mundial, venceu um jogo contra a Inglaterra em Wembley diante quase 78 mil adeptos, chegou ao primeiro lugar no Campeonato da Europa de sub-17 e marcou presença num Europeu com a equipa sénior. Os três primeiros feitos foram conquistados antes mesmo de ter 18 anos. Um currículo invejável que começou no TSG Sprockhovel, sempre em equipas mistas.

Ao longo do Europeu, histórias como as de Aitana Bonmatí e Lucy Bronze deixaram claro que a partir de determinada idade foi difícil para muitas jogadoras continuar na modalidade. Quando não eram ainda muitos os clubes a apostar no futebol feminino, as jogadoras eram excluídas das equipas mistas por volta dos 13 anos e obrigadas a encontrar uma opção no jogo feminino. Mas o percurso de Oberdorf foi diferente.

Até 2018, altura em que tinha 16 anos e assinou pelo SGS Essen, a alemã só conhecia uma realidade a nível de clubes: jogar com os rapazes. Em equipas exclusivamente femininas jogou apenas quando foi chamada às equipas jovens da seleção. Um percurso nada comum, mas que Lena considera ter sido importante no seu desenvolvimento como jogadora, tanto a nível físico, como mental e técnico.

“Penso que foi o maior fator. Os rapazes são muito fortes e muito duros. O seu corpo é mais poderoso do que o de uma mulher. Penso que foi uma boa decisão jogar o máximo de tempo possível com a equipa dos rapazes”, disse ao website Goal.

Enquanto criança, as coisas não foram assim tão simples no que toca a jogar com os rapazes. O pai e o irmão treinavam juntos no jardim, mas quando Oberdorf tentava juntar-se, a dupla dizia-lhe sempre que fosse fazer outra atividade. Isto, claro, quando havia bolas no quintal, uma vez que o primeiro cão da jogadora gostava de as destruir a todas.

Mas a “proibição” a raparigas não durou muito e a família acabou por alinhar no gosto de Lena. Começaram por levá-la ao clube TuS Ennepetal, onde a sua jornada como futebolista teve início, e depois ao Sprockhovel, onde o irmão Tim também jogava. Irmão e inspiração: “O meu irmão é o meu maior exemplo a seguir. Posso perguntar-lhe tudo e nós jogamos na mesma posição, por isso é fácil falar de futebol com ele”, continuou. Tim é jogador do Fortuna Dusseldorf, da segunda divisão alemã.

Alex Grimm

A nível de clubes, a sua presença também não agradou todos os colegas de equipa e adversários. Teve que ouvir o clássico “volta para a cozinha” várias vezes, mas nunca perdeu muito tempo com isso. Muito pelo contrário. Oberdorf usava-o em campo e nunca se retraiu, até mesmo nos treinos. “Por vezes as minhas colegas de equipa dizem-me ‘acalma-te!’. Mas está no meu sangue, não o consigo fazer”, disse.

Com uma boa preparação física e forte mentalmente, não precisou de muito tempo para se adaptar ao futebol sénior. É por isso que a sua transição foi praticamente perfeita. Poucos meses depois de chegar ao Essen, já estava a ser chamada para a equipa sénior da seleção alemã. Tinha apenas 17 anos e a história que conta do momento em que recebeu a chamada é paradigmática da sua tenra idade.

"Eu estava na escola, numa aula, olhei para o meu telefone e vi 'Martina a telefonar'. Pensei: 'Merda, não posso ir ao telefone porque estou na aula'. Liguei-lhe depois e ela disse-me que eu ia para a seleção nacional", lembrou.

"Com a Lena, queremos introduzir uma presença física", explicou Voss-Tecklenburg, ao DW, sobre a integração da jogadora na equipa. "Se conseguirmos fazer isso com a nossa jogadora mais jovem, então isso diz muito sobre ela".

O salto do lado dos clubes também já foi dado, quando deixou o Essen e assinou pelo Wolfsburg. Em três épocas ao serviço do clube alemão, foi duas vezes campeã. A este super currículo pode juntar-se, agora, o título de campeã da Europa. Falta superar a França, nas ‘meias’, esta quarta-feira às 20h, e em caso de vitória a Inglaterra, a primeira seleção a garantir presença na final de Wembley.