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Chama-se Aitana Bonmatí e carrega a determinação de quem forçou mudanças na lei para que assim fosse tratada. Agora, lidera a Espanha

Foi sempre muito determinada e nunca deixou de exigir dela própria o máximo. Dela e das que com ela partilham o campo. Aitana Bonmatí recusa-se a olhar seja para o que for como uma derrota, mesmo quando os outros olham para a situação dessa forma. Com apenas 24 anos, já viveu recordes e desilusões. E até escreveu um livro. Com a lesão de Alexia Putellas, a seleção espanhola, que esta quarta-feira tenta o acesso às meias-finais do Euro feminino contra a Inglaterra, viu na centrocampista uma líder natural

Rita Meireles

Michael Regan - UEFA

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Estar em campo no momento em que é batido o recorde mundial do jogo de futebol feminino com mais público nas bancadas, ganhar o Europeu de seniores e escrever um livro. Se a lista de três coisas que as pessoas devem fazer antes de morrer fosse atualizada para esta forma, Aitana Bonmatí, aos 24 anos, já estava quase a concluí-la.

E não, não falta a parte que a maioria deixa por fazer.

Aitana jogou o Barcelona-Wolfsburg em frente a 91.553 adeptos e escreveu o livro “Aitana Bonmatí: Unidas somos más fuertes” em colaboração com o jornalista Cristian Martín. Falta o Euro, mas para quem conhece a determinação da jogadora espanhola não duvida que esse título, agora ou mais tarde, vai chegar.

“Tenho alguma personalidade”, disse, entre risos, ao “The Guardian”. “Gosto de estar em contacto com a bola, mudar o ritmo, levar o jogo para onde queremos que ele esteja, mostrar liderança. Falo muito. Nos treinos também. E o que se vê no campo é o que eu sou fora dele. Sou bastante clara, direta, não demoro a chegar-me à frente. Sigo as minhas ideias até ao fim do mundo, defendo-as até ao fim".

Foi exatamente o seu caráter que fez com que se destacasse em Cubelles, onde jogou antes de chegar ao Barcelona. Em entrevista à revista “Panenka”, a diretora do clube lembrou os momentos em que Aitana, ainda criança, repreendia os colegas por não estarem a levar o treino a sério ou a dar tudo o que conseguiam. "Para mim, a atitude foi sempre muito importante. Sou muito exigente comigo mesma e esperava o mesmo dos meus companheiros de equipa", confirmou a jogadora à mesma revista.

Se por um lado não se sabe de onde vem a paixão pelo futebol desde tão nova, por outro é certo que a determinação a foi buscar à família. Aitana recebeu o principal apelido da parte da mãe, algo que não acontecia porque o comum era que as crianças usassem mais o nome de família do pai. A luta de Rosa e Vicent, professores de língua e literatura catalã, forçou uma mudança na lei após o nascimento da jogadora espanhola em 1998, que permitiu que se pudesse trocar a ordem dos nomes de família. Foi um passo importante no caminho pela igualdade de género, mas também uma representação clara da forma como Aitana foi educada.

A consciência social e o gosto pela leitura herdou dos pais, o futebol é que nem por isso. Na sua infância passou pelas aulas de piano, guitarra, inglês, mas Aitana só queria uma coisa: jogar futebol. Foi uma luta, mas lá convenceu a família a deixá-la integrar uma escola de Sant Pere de Ribas. Seguiu-se Cubelles, mas a certa altura a idade obrigou-a a deixar as equipas mistas e procurar uma feminina. Tinha 13 anos.

Alex Caparros - UEFA

"O meu pai e eu já tínhamos começado a procurar equipas onde eu pudesse jogar até que um dia chegou um fax do Barça aos escritórios de Cubelles. E claro...", disse à “Panenka”. Da mesma forma que nem precisou de terminar a frase, não precisou de pensar duas vezes: “Sempre me senti muito ligada ao Barcelona. Temos um estilo que é único no mundo. Sinto que nasci para jogar este tipo de futebol", garantiu ao “The Guardian”.

A oportunidade no clube de sonho não chegou sem uma boa dose de esforço. Aitana ainda era nova, mas já fazia o longo caminho de casa até ao local de treinos, e vice-versa, sozinha. Saía de casa às seis da tarde e só conseguia regressar por volta da meia noite ou uma da manhã. No dia seguinte tinha aulas cedo.

Em Barcelona, clube onde também brilharam os seus ídolos Xavi e Iniesta, a sua ascensão foi rápida e na época 2015/16 já se estava a estrear pela equipa principal, no mesmo ano em que venceu o campeonato pela equipa B. A promoção definitiva chegou logo em seguida. Os bons jogos chamaram à atenção também da seleção, onde Aitana jogou em diversos escalões.

E quando tudo parecia perfeito, deixou de o ser. A Espanha jogava as ‘meias’ contra a França, no Mundial de Sub-20 de 2019. Ao minuto 70, Aitana viu o segundo cartão amarelo e consequente vermelho. A Espanha venceu o jogo, chegou à final, mas a jogadora ficou impossibilitada de entrar em campo. As espanholas acabaram por perder por 3-1 frente ao Japão,

“Isso foi muito difícil, passei muito mal. Melhorei à medida que os dias foram passando, mas fui privada de um sonho. Penso que no nosso futebol tentámos implementar tudo de uma só vez. Em lugares onde a cultura do futebol feminino não está tão enraizada ou onde o papel da mulher no desporto não é tão comum, é necessário ir passo a passo e sem pressas, a fim de treinar melhores profissionais. Penso que muitas árbitras, em certos momentos de pressão, carecem de um pouco de autoridade”, confessou meses mais tarde à “Panenka”.

Marc Atkins

O que ajuda Aitana nesses momentos mais negativos, conta no seu livro, é cuidar da sua saúde mental. A jogadora fala publicamente do tema e sobre o importante que é o acompanhamento psicológico: “A cabeça é fundamental e, se não funcionar, nada funciona. Se não estiveres mentalmente bem, podes ir quarenta vezes ao ginásio que não te vai servir de nada. Quando percebi que era difícil para mim gerir certas situações, decidi ir a um psicólogo. Tem sido fundamental na minha carreira”, garantiu ao “La Vanguardia”.

No seu livro usa a frase “ganha ou aprende, perder nunca”, o lema que a leva, hoje, a olhar com outros olhos para os desafios que lhe foram aparecendo pelo caminho. Como a ausência na final do Mundial, que na altura parecia impossível de ultrapassar.

“Quando se perde, quando se passa por maus momentos, nunca se perde: aprende-se. Aconteceu-nos [ao Barcelona] na final em Budapeste, ajudou-nos muito a saber onde estava o nível, o objetivo, e alguns anos mais tarde ganhámos a Liga dos Campeões. A nível pessoal, também me ajudou muito quando não joguei na final do Campeonato do Mundo sub-20. Estas são experiências que são más na altura, mas a longo prazo ajudam-nos e aprendemos, por isso para mim esta frase é essencial e eu trago-a sempre comigo”, continuou.

O último momento difícil surgiu já no Euro 2022. A seleção da Espanha chegou à competição com o favoritismo de quem tem no plantel grande parte da equipa do Barcelona, quase imparável na época anterior. Até que Alexia Putellas, atual melhor jogadora do mundo, se lesionou e deixou a equipa sem a sua líder. Quem poderia então assumir esse papel? Há uma convicção, exigência e determinação que fazem com que a escolha mais clara seja Aitana Bonmatí.

Steve Bardens - UEFA

E ela respondeu à chamada. Marcou logo no primeiro jogo e foi considerada a melhor jogadora da partida. A Espanha conseguiu assegurar um lugar nos ‘quartos’, mesmo estando naquele que era considerado o grupo da morte da competição, e vai encontrar esta quarta-feira a Inglaterra, outra das favoritas, que joga em casa. A pressão está do lado delas e Aitana sabe disso.

“Num torneio, é preciso apreciar a vitória. Por vezes, vai-se a uma conferência de imprensa e eles perguntam: 'O que aconteceu hoje?'. E eu penso: 'Bem, ganhámos 1-0, estamos nos quartos'. No grupo mais difícil no Euro. Mas não se preocupem: isso também faz parte do progresso, da viagem, do desenvolvimento do futebol feminino", concluiu ao jornal inglês.