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De luvas e aos pontapés, Nicole Billa foi campeã mundial de kickboxing. E após este Europeu de chuteiras voltará para o jardim de infância

Chama-se Nicole Billa, as colegas de equipa tratam-na por Nici. Antes de ser a melhor do ano na liga alemã de chuteiras nos pés foi campeã europeia e mundial de kickboxing. Veste a camisola azul do clube e a vermelha da seleção, mas isso confunde as crianças do jardim de infância onde trabalha. O currículo é extenso, mas, neste momento, Billa quer apenas aproveitar o Euro 2022 como se cada jogo fosse o último

Rita Meireles

Catherine Ivill - UEFA

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A melhor forma de a descrever é pegando na sua carreira como kickboxer: Nicole Billa era tão boa, que desistiu. Precisava de um desafio maior. Talvez isso justifique o facto de não ter apenas uma profissão e de continuar ao serviço do Hoffenheim, sabendo que conseguiria um lugar numa das principais equipas da Europa.

Não é de todo incomum que uma jogadora de futebol feminino, de qualquer que seja a liga, tenha que conciliar o desporto com um segundo emprego para conseguir pagar as contas. Aliás, são provavelmente mais as que o fazem do que as que não o fazem. No caso de Billa, tornar-se educadora de infância foi tomar a decisão de seguir uma das suas paixões.

“Sou uma pessoa que gosta muito de ir trabalhar, que valoriza muito as crianças e gosta de estar perto delas. Elas transmitem tanta alegria de viver, é algo que muitas vezes se pode aprender quando se é adulto", disse ao site “Nenroll-Nenroll”.

Conciliar as suas duas paixões nunca foi tarefa fácil, mas desde o ano passado tornou-se ainda mais difícil: “Infelizmente, não tenho estado lá muitas vezes, ultimamente. Há dois anos completei a minha formação e desde então tenho trabalhado num jardim de infância na região de Hoffenheim. Mas, como jogámos na Liga dos Campeões na época passada e os preparativos para o Europeu começaram pouco depois do final da época, tive menos tempo do que o habitual. É claro que as crianças sabem que eu jogo futebol, só não compreendem bem porque é que uso frequentemente uma camisola azul e por vezes uma camisola vermelha”, afirmou, em entrevista à revista “11Freunde”.

Para chegar até aqui, Billa passou por várias modalidades enquanto criança, incluindo o futebol, mas foi no kickboxing que deu nas vistas. Praticou até aos 16 anos e venceu o Campeonato Europeu e Mundial de juniores três vezes cada um. Tornou-se mais do mesmo. “O kickboxing é um desporto individual, por isso nem sempre há tanta coisa a acontecer. Conduz-se até ao torneio, prepara-se para a luta, aquece-se e entra-se no tapete”, continuou.

E porquê voltar-se para o futebol? “No futebol é tudo muito maior. Há mais pessoas com quem se pode partilhar mais e experimentar algo em conjunto. O desafio no futebol é ir mais longe e mais alto. Há muito mais oportunidades porque, como futebolista, posso sempre ir a outro clube maior e experimentar algo de novo. Neste desporto, sou desafiada de uma forma completamente diferente. Não creio que em breve haja um ponto em que eu diga: agora preciso de um desafio totalmente novo. Ainda há muito a experimentar”, disse.

picture alliance

Em 2010, chegou ao Wacker Innsbruck, deixando para trás o clube juvenil SV Angerberg. Seguiu-se o St. Pölten, em 2015, e depois o TSG Hoffenheim, da Bundesliga. O antigo treinador principal do Hoffenheim, Jurgen Ehrmann, continua a lembrar o momento em que viu Billa treinar pela primeira vez. Chegou com 19 anos de idade, acabada de marcar 22 golos em 14 jogos para os campeões austríacos.

"Ela já se destacava muito nessa altura", disse à "BBC Sport". "Ainda me lembro que ela marcou cinco golos no seu primeiro jogo de teste para nós. O seu carácter era um ajuste perfeito para o nosso sistema e para a filosofia do nosso clube".

Pode até parecer contraditório que use a possível mudança entre clubes como justificação para ter sempre um desafio, ao mesmo tempo que fez grande parte da sua carreira no mesmo clube. Para a jogadora, é "fundamental" não perder o lado divertido de jogar futebol e parece ainda ter negócios por concluir no Hoffenheim.

"Cada vez mais se investe para dar os próximos passos", disse Billa à “BBC Sport”. "Estou muito grata por isso e quero dar algo em troca ao clube".

A nível individual, nada tem falhado. Principalmente olhando para a temporada 2020/21, quando o clube terminou em terceiro lugar, mas era sobre Nicole que toda a gente falava. Com 23 golos, a jogadora não só garantiu o título de melhor marcadora, como também foi eleita a melhor jogadora de futebol da Alemanha do ano.

Kieran Cleeves - PA Images

Quando veste a camisola vermelha é pela Áustria que brilha e, assim como no kickboxing, impõe respeito. A seleção austríaca jogou frente à Inglaterra o jogo de abertura do Euro 2022, em Old Trafford, e a imprensa inglesa apontou Billa como a jogadora capaz de estragar a festa da equipa da casa. A Inglaterra acabou por vencer essa partida, mas no jogo seguinte, frente à Irlanda do Norte, Billa e as colegas fizeram a festa. E que festa.

“Quem nos conhece e nos seguiu no Europeu de 2017 sabe que somos uma equipa incrivelmente harmoniosa que se concentra na diversão e nas emoções, onde ninguém tem de se esconder. E se o sentimento dominante é que queremos celebrar esta vitória com exuberância, então somos autorizadas a fazê-lo. Aqui todos devem ser como são e ser autorizados a viver as suas vidas. Para nós, ainda é algo de especial fazer parte de um Europeu. Esta é apenas a segunda vez que o fazemos. Isso não deve ser esquecido. Gostamos de poder estar cá e cada vitória é celebrada em conformidade”, garantiu.