Tribuna Expresso

Perfil

Futebol feminino

“Nunca vi uma jogadora transformar a sua vida tanto como ela”: Fran Kirby perdeu a mãe, viu o coração falhar-lhe, mas o talento continua lá

Quando um problema parecia estar superado, surgia outro. Depois outro. O futebol parecia fugir das mãos de Fran Kirby, mas a jogadora do Chelsea arranjou sempre forma de a ele voltar, mesmo quando o fim de carreira parecia a única opção. A futebolista de 29 anos é uma das estrelas da seleção inglesa, que esta segunda-feira joga com a Noruega para mais um jogo do Euro 2022

Rita Meireles

Naomi Baker - UEFA

Partilhar

Nos primeiros anos de vida, os mais crentes talvez dissessem que entre Fran Kirby e o futebol era coisa do destino. A mãe, Denise, costumava contar a história do dia em que levou Kirby a uma consulta para fazer exames. A determinada altura o médico atirou uma bola de ténis na sua direção. O objetivo era apanhar a bola com as mãos, mas a reação de Kirby foi dar um pontapé na bola e devolvê-la, assim, ao médico. “Acho que ela quer ser futebolista”, comentou Denise.

Mas quando chegou o dia do seu primeiro treino, Kirby recusou ir. Um treinador viu-a a jogar na escola e convidou-a para treinar com a sua equipa, o problema é que todas as crianças do grupo eram mais velhas do que Kirby, de apenas sete anos, e ela ficou nervosa. Foi a mãe que a conseguiu convencer a tentar e bastou um treino para o nervosismo dar lugar ao entusiasmo.

Cerca de 15 anos depois, chegou à seleção nacional de Inglaterra e apresentou-se ao mundo com o primeiro golo da equipa no Campeonato do Mundo de 2015. Tinha 21 anos e tornou-se logo o centro das atenções. Mark Sampson, treinador de Inglaterra na altura, chegou mesmo a chamá-la de “mini Messi” da equipa. Kirby foi uma inclusão surpresa no plantel, tornando-se na primeira jogadora a atuar no segundo escalão de Inglaterra a ser incluída numa convocatória para o Mundial. E sentiu o peso do elogio do treinador.

“Senti que as pessoas ligavam a televisão e esperavam que marcasse depois de driblar toda a equipa contrária e num Mundial isso não vai acontecer. Tive de aprender a lidar com isso, no meu primeiro Mundial. Eu era apenas uma jovem que para alguns nem merecia jogar num Mundial, pelo que passar disso para ser chamada 'mini Messi' ao vivo na televisão foi bastante assustador. Agora sei que foi também um enorme elogio”, disse a jogadora do Chelsea à ESPN.

Até aqui a história de Kirby parece simples, em linha reta e sempre no sentido ascendente. Mas quem olha para os sucessos desportivos nem imagina as voltas que a jogadora já deu na montanha russa de emoções que tem sido a sua vida.

Com apenas 14 anos perdeu a mãe de uma forma totalmente inesperada. Estavam numa sessão de esclarecimentos com um treinador na academia do Reading FC quando Denise pôs a cabeça em cima da mesa e desmaiou. Tinha sofrido uma hemorragia cerebral.

O luto nunca é um processo fácil e Kirby que o diga. A jogadora caiu numa depressão profunda e começou a sentir-se incapaz de sair da cama por não sentir nem um pouco de energia. Algo que a levou a tomar a decisão de se afastar do futebol, para se dar a si própria algum tempo para recuperar.

Ben Hoskins - The FA

"Esse tempo todo [longe do futebol] eu não estava a tomar conta da Fran Kirby, a futebolista", garantiu. "Estava a tomar conta da Fran Kirby. Eu tinha passado quase 10 anos a jogar futebol e decidi que só queria ser a Fran. Não queria estar sentada numa sala com alguém a dizer-me como ia jogar pela Inglaterra e ser a melhor jogadora ou que tinha de fazer isto ou aquilo. Senti constantemente essa pressão, mesmo quando era tão jovem".

Pelo caminho teve que fazer uma série de sacrifícios. Perdeu datas importantes com familiares e colegas e também alguns momentos que as suas amigas, enquanto adolescentes, estavam a viver. Até ao dia em que, num estalar de dedos, quis voltar. Lembrou-se que o desejo da mãe era que ela aproveitasse o seu talento e a vontade de treinar regressou.

Em 2019, outra grande curva. Kirby desmaiou. Estava em casa a jantar com amigos e duas das colegas de equipa mais próximas, Beth England e Maren Mjelde, e de repente sentiu-se mal. "A cor simplesmente lhe desapareceu da cara", lembrou England à ESPN. Uma dor no peito fez com que a sua tensão arterial subisse a tal ponto que desmaiou durante 10 segundos. E depois mais 15 segundos.

Foi nesse momento que pensou em voltar a deixar o futebol, mas desta vez para sempre. Kirby não acreditava que pudesse recuperar totalmente da pericardite, uma doença cardíaca, e regressar ao futebol profissional tanto a nível de clubes como de seleção parecia uma miragem. Naquela altura, não conseguia subir as escadas e dormia 18 horas por dia. O simples ato de falar era uma enorme missão e o futebol estava mais distante do que nunca.

No entanto, hoje é jogadora do Chelsea e da seleção inglesa, está totalmente recuperada e é uma das futebolistas mais talentosas do futebol mundial. Mas não, os problemas não ficaram por aqui.

A 15 de abril, a treinadora do Chelsea, Emma Hayes, anunciou a ausência por tempo indefinido da jogadora devido a um problema de fadiga para o qual não encontravam resposta. Mais um golpe na carreira da jogadora.

Harriet Lander - Chelsea FC

"Não sabíamos quanto tempo ia demorar, se ia demorar duas semanas, quatro meses. Era uma questão de trabalhar com os melhores especialistas, obter os melhores conselhos e, se tudo corresse bem, estar pronta para entrar no plantel [para o Euro 2022]", disse a jogadora ao “The Guardian”.

A conclusão a que os médicos chegaram não foi clara, uma vez que não conseguiram dar uma resposta direta sobre a origem da fadiga. “Havia muitas coisas que estavam a ser atiradas para aqui e ali. Foi muito trabalho com diferentes psicólogos, com diferentes especialistas em termos de nutrição e recuperação. Coloquei uma tenda de oxigénio em minha casa", continuou.

No fim, como sempre, até porque o impossível nesta história parece ser mesmo a separação, Kirby e o futebol voltaram a reunir-se, desta vez com a chamada à seleção para o Euro 2022.

Naomi Baker

"Os maiores impulsionadores, claro, são a família e os amigos, mas tenho de dizer que o clube [Chelsea] e a seleção foram incríveis. Todos os dias via um especialista diferente para identificar o que se passava, entrar na tenda do oxigénio, ir a Barcelona para conhecer alguns dos melhores médicos do desporto. É algo pela qual estou muito grata. Espero poder entrar em campo, mostrar porque fui selecionada e ganhar um troféu", disse ao mesmo jornal.

Mas mais do que ganhar troféus, talvez o maior legado de Kirby seja o trabalho que tem feito junto das jogadoras mais jovens. A futebolista utiliza agora as suas experiências com o luto e depressão para ajudar os outros. Fala abertamente daquilo por que passou, mas opta por se focar na forma como conseguiu ultrapassar e lidar com esses momentos para que outros saibam que é possível.

Hayes acredita que a franqueza de Kirby sobre a sua saúde mental junto do público serve para "acalmá-la e confortá-la".

“Durante os meus 25 anos de carreira, nunca vi uma jogadora transformar a sua vida tanto como ela, de um lugar de dificuldade, perturbação, desespero à alegria, à gratidão, à ação. Temos de a celebrar, mas também temos de cuidar dela. Ela é um talento muito especial", disse à ESPN.

Um talento que a seleção inglesa, que esta segunda-feira enfrenta a Noruega no 2.º jogo do Grupo A do Euro feminino, tem a oportunidade de usufruir nesta tentativa de levantar o caneco em casa.