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Das derrotas, Alexia Putellas criou vitórias. E a melhor jogadora do mundo quer deixar uma ideia: “O futebol é para todas as pessoas”

A jogadora espanhola Alexia Putellas chegou ao topo da modalidade, a nível individual, no passado mês de novembro, quando recebeu a Bola de Ouro. Mas quando recorda o seu percurso, olha para este e outros prémios como uma mensagem de inclusão no futebol

Rita Meireles

NurPhoto

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Tornou-se a melhor jogadora do mundo no final de novembro, quando venceu a edição de 2021 da Bola de Ouro. Antes disso, fez parte do triplete da equipa do Barcelona na época passada: venceu a Liga espanhola, a Taça da Rainha e a Liga dos Campeões. Mas quando lhe pediram para pensar naqueles que considera os momentos-chave ao serviço do Barcelona, foram as derrotas que Alexia Putellas relembrou.

“O momento que eu considero o mais chave de todos, não é só um momento, mas vários. É quando, depois de três ou quatro anos sem conseguirmos vencer a liga, somos declaradas profissionais [pelo Barcelona]”, disse a jogadora ao site Players’ Tribune.

Putellas recorda que as condições melhoraram para a equipa, mas ainda assim não foram capazes de chegar ao primeiro lugar da liga espanhola. Mas é um momento chave: “Mesmo que não tenham chegado os resultados, o clube seguiu firme na sua aposta e acreditava realmente que isto [a equipa feminina] iria ter sucesso”.

O outro momento chave é uma derrota ainda maior. Jogava-se a final da Liga dos Campeões, em 2019, e no final do jogo o placard assinalava quatro golos para o Lyon e apenas um para o Barcelona.

“Passaram-nos por cima como um avião e nesse momento aproveitámos para começar a construir o que somos hoje”, afirmou Putellas. “Também nos serviu para perceber o quão alta era a fasquia para se ser campeão da Europa. Por isso agradecemos que esse jogo tenha acontecido. Obviamente não estamos orgulhosas dele, mas já que o fizemos aprendemos com ele”.

Dois anos mais tarde, Putellas percebeu que o caminho tinha valido a pena, quando ao serviço do Barcelona conseguiu chegar ao topo da Europa.

Mas o percurso da jogadora que das derrotas tirou forças para chegar às vitórias começou muitos anos antes nas ruas de Mollet del Vallès, onde começou o sonho de chegar, um dia, à equipa principal do Barcelona.

“A minha mãe levou-me para me inscrever num clube de futebol para que eu não continuasse a jogar na rua, para não ter hematomas nas pernas por cair no chão ou levar pontapés. Mas não resultou, porque continuei a jogar na rua, na equipa, onde quer que pudesse”, contou.

A jogadora assumiu que se nessa altura lhe tivessem perguntado sobre o futuro no futebol, a resposta teria sido: “Isso é impossível, aí só jogam os homens”. E é exatamente o oposto disso que pretende que a sua bola de ouro represente.

“Eu vejo-a como outro ponto de viragem para o futebol. Faz, não sei, 50 anos que ganhou um espanhol [a Bola de Ouro] e, agora, a seguinte pessoa a vencer de cá é uma mulher. Diz muito sobre o caminho que estamos a conseguir entre todos, mulheres e homens. E também que o futebol é para todas as pessoas, independentemente do género ou origem. No final, acho que a mensagem mais importante e mais bonita é essa”.