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E agora para algo insólito: a Alpine anunciou Oscar Piastri para 2023, mas o australiano garante que não vai correr pela equipa

Ter um lugar na Fórmula 1 é o sonho de qualquer piloto, mas há quem o recuse. Oscar Piastri, jovem de 21 anos que é uma das promessas do automobilismo, foi anunciado como substituto de Fernando Alonso na Alpine, mas horas depois o atual campeão de Fórmula 2 veio negar a informação, acusando a escuderia francesa de fazer o anúncio sem o seu consentimento. Terá um pré-acordo com a McLaren e vem aí imbróglio jurídico

Lídia Paralta Gomes

Mark Thompson

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O mundo altamente profissionalizado da Fórmula 1 raramente permite desvios de comunicação, mas esta semana está aqui para nos provar o total e absoluto contrário.

E para isso precisamos de recuar até segunda-feira.

Ainda o asfalto do Hungaroring esfriava quando a Aston Martin anunciou Fernando Alonso como substituto de Sebastian Vettel para 2023, trocando um veterano campeão do mundo por um veteraníssimo campeão mundial. A surpresa foi geral, dado o aparente compromisso do espanhol com a Alpine, que lhe abriu as portas a um regresso à Fórmula 1 em 2021. Mais ainda quando Otmar Szafnauer, chefe da Alpine que os franceses curiosamente foram “roubar” à Aston Martin, revelou que soube da saída de Alonso no exato momento em que a sua antiga casa lançou o comunicado de imprensa.

Szafnauer sublinhou ainda ao “Autosport” que havia acordo com Alonso para uma extensão de contrato de um ano, com outro de opção, mas que o bicampeão do mundo estaria interessado num casamento mais longo, algo que a Aston Martin lhe ofereceu. Mas de Alonso nem uma palavra antes da mudança de cadeiras. O piloto está a aproveitar as férias e deixou de atender o telemóvel.

Com tantos pilotos para tão poucos lugares disponíveis na grelha, as horas seguintes foram de rumores, com um nome a surgir com naturalidade. Oscar Piastri, piloto da academia da Alpine, era o candidato lógico. O australiano de 21 anos teve uma passagem tão meteórica quanto bem-sucedida pelas fórmulas de promoção, sendo campeão da Fórmula 3 e 2 à primeira tentativa. Esta temporada, impedido de correr na Fórmula 2 por ser o campeão em título, resignou-se ao lugar de piloto de testes da Alpine, à espreita de uma oportunidade. Que surgiu, com a saída de Alonso. Esta terça-feira, numa curta mensagem no Twitter oficial da equipa, a Alpine anunciava Piastri para 2023, ao lado de Esteban Ocon. Sem qualquer declaração do próprio piloto, pouco usual em situações deste calibre.

O porquê deste aparente amadorismo não demorou a saber-se.

Horas depois da Alpine anunciar Piastri, Piastri apareceu no Twitter a dizer que não, não será piloto da Alpine em 2023 e que o comunicado da equipa foi feito sem o seu consentimento.

Piastri a testar com a Alpine em Abu Dhabi, em 2021

Piastri a testar com a Alpine em Abu Dhabi, em 2021

Francois Nel - Formula 1

“Sem o meu acordo, a Alpine F1 lançou um comunicado de imprensa esta tarde a dizer que irei correr com eles no próximo ano. Essa informação está errada e eu não assinei contrato com a Alpine para 2023. Não vou correr com a Alpine no próximo ano”, pode ler-se na mensagem do jovem australiano, para embasbacamento de um paddock da Fórmula 1 pouco habituado a surpresas e números de circo.

Um suposto pré-acordo com a McLaren

Como é que chegámos a este imbróglio? Oscar Piastri é considerado um dos grandes talentos do automobilismo desta geração e os resultados estão aí para o mostrar. Ligado à Alpine, o regresso de Fernando Alonso à Fórmula 1 na época de 2021 deixou-lhe as portas da escuderia francesa fechadas para um futuro próximo, mas a equipa estaria a preparar um empréstimo do australiano à Williams para 2023. A ideia seria preparar o jovem para regressar à casa-mãe quando Alonso se retirasse pela segunda vez.

Assessorado por Mark Webber, antigo piloto da Red Bull, Piastri não estaria exatamente em êxtase com esta hipótese e apressou-se a buscar outras opções. Nos últimos dias, os rumores davam conta de um suposto acordo com a McLaren, onde o desempenho de Daniel Ricciardo, outro australiano, tem deixado os responsáveis de testa franzida.

Esta terça-feira, Otmar Szafnauer assumiu ao motorsport.com que tinha ouvido “os mesmos rumores” que os jornalistas sobre o futuro de Piastri, nomeadamente o acordo com a McLaren, mas que agora que o lugar de Alonso estava vago, Piastri estava “contratualmente obrigado” a correr para a Alpine em 2023. O desabafo de Piastri no Twitter faz crer que o seu entorno não pensa da mesma maneira e estará aí a chegar uma luta legal pelo piloto, numa altura em que as equipas procuram desde já definir a próxima temporada.

Ainda antes do anúncio oficial da Alpine que rapidamente se tornou num anúncio de discórdia, Szafnauer lembrava que havia “um investimento significativo” da Alpine em Piastri ao longo dos anos: “E é mais que um investimento financeiro. É também emocional e em prepará-lo para aquilo que esperamos ser uma carreira de sucesso na Fórmula 1”.

O responsável da Alpine não negou também que a ideia para 2023 seria colocar o piloto numa outra equipa e que essa decisão, contratualmente, estaria sempre do lado da escuderia e não do piloto.