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Mecânicos pedem “empatia” aos patrões da Fórmula 1: estão “absolutamente destruídos” nas garagens com o calendário cada vez mais exigente

O longo calendário de Fórmula 1 tem vindo a dificultar a vida aos funcionários das equipas. Quem o diz são os pilotos e os próprios mecânicos, mesmo que de forma anónima. Falam sobre a mudança nas suas vidas ao longo dos últimos anos, o impacto que o novo calendário teve nas garagens, as noites sem dormir e o refúgio nos analgésicos e no álcool. E sugerem, também, o que pode ser feito por parte da Fórmula 1 para melhorar a situação no futuro

Rita Meireles

Mark Thompson

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Há 20 pilotos no mundo que dão a cara pela Fórmula 1. Mas ainda que muitos os reconheçam como a própria categoria-rainha, a verdade é que existem milhares de pessoas atrás deles a fazer com que tudo o que mostram nos fins de semana de corrida seja possível. São essas as pessoas que mais têm sofrido com o aumento do calendário de competição de ano para ano. E quem o reconhece são os que passam a vida agarrados ao volante.

“Para os pilotos não é muito mau”, disse Lando Norris ao website 'Motorsport.com' em 2020. “Honestamente, é mais difícil para os engenheiros e os mecânicos porque são eles que passam mais tempo na pista a trabalhar e a viajar”.

Na altura, o piloto referiu-se a um dos triple-headers (três fins de semana de corrida seguidos) da temporada. Chegando mesmo a publicar uma fotografia nas redes sociais onde aparece a ajudar a sua equipa.

Já este ano, o piloto voltou ao mesmo tema: “23 corridas é difícil. A quantidade de corridas é a única coisa que pode começar a ter impacto e a ter um custo para a equipa porque eles não conseguem ver as suas famílias, principalmente com a covid-19 e o isolamento. Para mim, esse é um das maiores temas. No final, os mecânicos são os que vão sofrer um pouco, enquanto os grandes chefes da Fórmula 1 chegam mais tarde e vão embora mais cedo. É claro que aí não muda muito”, afirmou em entrevista ao "The Guardian".

Em novembro, também Fernando Alonso falou sobre o elevado número de corridas. O piloto espanhol considerou que a última parte da temporada foi organizada de uma forma “estranha” e colocou os mecânicos das equipas “no limite”.

E o que dizem os mecânicos?

"À medida que o calendário se foi expandido e os triple-headers se tornaram a norma, as coisas atingiram um ponto de rutura para muitas pessoas que trabalham nas garagens”, afirmou, de forma anónima, um mecânico ao site "Motorsport.com".

Os dias de trabalho na pista são longos. Por norma, são no mínimo 12 horas por dia, desde quarta-feira, quando chegam para preparar tudo, até à noite de domingo, o dia da corrida. Tudo isto sem qualquer tempo de recuperação, principalmente quando se tratam de três fins de semana seguidos.

“Depois do triple-header do final da temporada, no México, Brasil e Catar, a combinação de voos em [classe] económica, horários tardios e mudanças de fuso horário significou que todos ficaram absolutamente destruídos, penso que foi aí que vi as pessoas em maiores dificuldades”, disse.

Mas o cansaço não é a única consequência. Nos fins de semana livres, quando regressam a casa, o facto de não terem dormido bem nos últimos dias pode afetar as suas relações pessoais, uma vez que se sentem mais agitados ou têm ainda coisas por resolver.

A fadiga é mental, mas também física: “À medida que a época avança, há muitas lesões a surgir. As equipas têm médicos para ajudarem a cuidar de nós, mas a solução mais fácil é bombear-nos com analgésicos para nos manter a trabalhar. Para aqueles que não querem seguir a via dos analgésicos, voltam-se para o álcool, e isso também não é particularmente bom”.

Mark Thompson

Outro problema passa pelas elevadas expetativas que recaem sobre quem trabalha nas garagens, algo que contribui bastante para o aumento do stress de cada um.

“Os pilotos, e todo o pessoal da fábrica, confiam que o nosso desempenho seja de 100% e que não cometamos quaisquer erros. Mas qualquer um pode cometer erros. Somos apenas humanos, e eu já cometi muitos”, admitiu o mecânico entrevistado.

E quando cometem erros?

“Quando acontece, há apenas o silêncio de deceção dos outros. Perguntam-nos porque deixámos acontecer, porque não estávamos mais atentos. A pressão de tudo, mais o cansaço desencadeado pelo número de corridas e triple-headers, chegamos a um ponto em que a atmosfera nas garagens pode ser, por vezes, muito tóxica”.

Até mesmo os limites impostos às equipas, a nível financeiro, que à partida pareciam algo bom para aumentar a competição na pista, acabaram por se tornar em algo negativo para quem trabalha fora do carro.

“Uma vez que as equipas estão a tentar manter um teto nos gastos devido ao limite de custos, simplesmente não podem dar-se ao luxo de distribuir aumentos salariais, o que vai matar o mercado de trabalho na F1, uma vez que ficará atrás de outras séries. Há um cenário estranho em que é quase melhor irmos trabalhar na Fórmula 2, Fórmula E ou Campeonato Mundial de Endurance por menos dinheiro, mas fazer quase metade do número de corridas e não ter de suportar todos os incómodos de um calendário de 23 corridas. Não deveria ser assim”, disse.

Dan Istitene - Formula 1

No que às soluções diz respeito, o mecânico entrevistado sugere que se repense a estrutura salarial, uma vez que algo que irá parecer “um pequeno aumento” para os patrões, fará uma diferença enorme para os funcionários.

Além disso, não optarem por voos em classe económica durante as semanas mais complicadas, para que cheguem ao destino em melhor forma, ou até pensarem num plano de rotação entre os funcionários da garagem.

Mas, acima de tudo, “a coisa que mais ajudaria é um pouco de empatia da parte do topo da Fórmula 1”.

“Todos fazemos este trabalho porque adoramos os GP, mas chega um ponto em que o nosso bem-estar mental e físico precisa de ter prioridade sobre as necessidades do desporto. Mais tempo de paragem para exercício e recuperação, alguns controlos de saúde adequados, uma melhor compreensão de como é realmente a nossa vida quando atingimos aqueles brutais pontos baixos no meio de mais um triple-header. Isso significaria o mundo”, conclui.