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Nicholas Latifi denuncia o “ódio, abuso e até mesmo ameaças de morte” que recebeu após o GP Abu Dhabi

Ainda que as atenções estivessem todas voltadas para a luta pelo título, algumas pessoas optaram por ter como alvo o piloto da Williams Nicholas Latifi, devido ao acidente que levou à entrada do safety car, que acabou por alterar o rumo da corrida em Abu Dhabi. O piloto vem agora a público falar sobre as mensagens que tem recebido, que são tudo menos bonitas

Rita Meireles

Bryn Lennon - Formula 1

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As últimas voltas do Grande Prémio de Abu Dhabi continuam a ecoar no universo Fórmula 1. Mas se por um lado no final tudo se resumia a Lewis Hamilton, Max Verstappen e Michael Masi, o diretor de corrida, por outro houve um outro piloto que, por acidente, foi ele próprio protagonista da luta pelo título.

E ainda que pouco se tenha falado de Nicholas Latifi, piloto da Williams, muitos falaram contra ele.

“O que me chocou foi o tom extremo de ódio, abuso e até mesmo as ameaças de morte que recebi”, lê-se no comunicado que o piloto publicou esta terça-feira nas suas redes sociais.

Latifi estava na luta pela 15.ª posição, com Mick Schumacher, quando sofreu o acidente que levou ao último safety car da corrida, o mesmo que levou ao momento mais polémico da temporada, após as ordens de Masi, e acabou por ajudar à alteração da classificação, que até então tinha Hamilton em primeiro e Verstappen em segundo.

Verstappen e a Red Bull usaram a última volta para ultrapassar os rivais, o que fez com que o neerlandês se tornasse o novo campeão mundial de Fórmula 1. Mas enquanto uns festejavam e outros protestavam, Latifi era alvo de comentários abusivos que o culpavam pelo resultado.

“Voltando ao fim de semana da corrida, assim que a bandeira de xadrez caiu, soube como as coisas iriam provavelmente correr nas redes sociais. O facto de achar que seria melhor apagar o Instagram e o Twitter do meu telemóvel durante alguns dias diz tudo o que precisamos de saber sobre o quão cruel o mundo online pode ser”, afirmou o piloto.

O piloto respondeu ainda aos que acreditam que, dada a posição em que estava e o número de voltas que faltavam para o final, o seu resultado já não era importante: “Quer esteja a correr por vitórias, pódios, pontos ou mesmo em último lugar, darei sempre o meu melhor até à bandeira de xadrez. Sou o mesmo que qualquer outro piloto da grelha nesse respeito. Para as pessoas que não compreendem ou não concordam com isso, por mim tudo bem. Podem ter a sua opinião. Mas usar essas opiniões para alimentar o ódio, o abuso e as ameaças de violência, não só para mim, mas também para as pessoas mais próximas de mim, diz-me que estas pessoas não são verdadeiros adeptos do desporto”.

Latifi assumiu ter pensado bastante se deveria continuar em silêncio ou abordar o tema publicamente, mas acabou por entender “o quão importante é trabalhar em conjunto para impedir que este tipo de coisas aconteça e apoiar aqueles que estão no lado do recetor”.

"Compreendo que é pouco provável que convença aqueles que agiram desta forma para comigo a mudar os seus modos - e podem até tentar usar esta mensagem contra mim - mas é correto chamar a atenção para este tipo de comportamento e não ficar calado”, disse.

O piloto agradece ainda à sua equipa e a todos os adeptos que ficaram do seu lado e, além de lhe terem enviado mensagens positivas, o defenderem contra todo o abuso.

A Mercedes e a Red Bull, as duas equipas protagonistas da luta pelo título que Latifi involuntariamente ajudou a aquecer, já vieram a público dar apoio ao canadiano.

“O desporto é, pela sua própria natureza, competitivo - mas deve reunir as pessoas, e não separá-las. Se partilhar os meus pensamentos, e destacar a necessidade de ação, ajudar apenas uma pessoa, então valeu a pena”, concluiu Latifi.