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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Desporto português: a terra sem lei onde vale tudo para intimidar e coagir. E onde os aficionados acham que a culpa é sempre dos outros

Seja futebol, basquetebol, andebol, hóquei em patins ou futsal, em quase todos os grandes jogos há notícia de pancadaria entre adeptos (dentro ou fora dos complexos desportivos), detenção de dirigentes desportivos, acusações de racismo entre jogadores ou cargas policiais sobre claques/grupos organizados, lamenta Duarte Gomes, ao criticar o ambiente inerente ao desporto em Portugal e questionar: "onde nasceu a influência nefasta que degenerou nesta tendência de brigar, bater, ofender, empurrar e ameaçar tudo e todos, assim que soa o apito final?"

Duarte Gomes

TIAGO PETINGA/LUSA

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O desporto português precisa de ser continuamente exigente. Precisa de tentar encontrar formas de ser ainda mais forte, credível e competitivo. Não parece haver grandes dúvidas que, dentro de cada pista, pavilhão ou estádio, somos fortes. Muito fortes.

Portugal é um país "abençoado" por talento. Por muitas mãos cheias de jogadores, atletas e treinadores cujo brilhantismo técnico faz inveja a muitos tubarões, com outras valências e potencial.

Onde ainda não demos (totalmente) o passo em frente — e isto gritarei até que a voz me doa — é ao nível dos comportamentos e condutas.

Por cá ainda não se percebeu que competência sem ética vale pouco, muito pouco. Quando conseguirmos soltar as amarras que nos prendem a atitudes absolutamente tribais — daquelas que dão vergonha alheia e nos fazem pensar: "Como é que é possível isto acontecer a este nível?" —, então aí estaremos prontos para dar o salto maior, rumo à excelência técnica e moral.

Desporto joga-se geralmente com mãos, pés, cabeça, coração, alma... e ética. Se alguma destas variáveis falhar, não há consistência ou sucesso que resistam.

Vem esta reflexão (mais uma) a propósito do que tem acontecido nas diferentes modalidades de pavilhão nos últimos tempos.

Basquetebol, andebol, hóquei em patins e futsal (estas em particular) têm, lá está, executantes de topo e técnicos com provas dadas, capazes de oferecer espetáculos fantásticos, cheios de emoção, incerteza e adrenalina. Mas, descontando as emoções pontuais que sempre ocorrem nos grandes momentos, tudo o que se tem visto para lá disso é muito, muito feio.

Em quase todos os grandes jogos há notícia de pancadaria entre adeptos (dentro ou fora dos complexos desportivos), detenção de dirigentes desportivos, acusações de racismo entre jogadores, cargas policiais sobre claques/grupos organizados, sticadas entre adversários, acusações entre técnicos e, claro, suspeitas de arbitragens deliberadamente tendenciosas.

Não vão pelo que eu digo. Façam um pequeníssimo esforço de memória. Googlem. Há dezenas e dezenas de relatos, para todos os gostos, sobre práticas que nunca podem acontecer em alta competição.

Deixem-me que vos diga, de forma muito clara e sincera: é uma vergonha!

Parece que estamos em terra sem lei, onde vale tudo para intimidar, coagir, perturbar o melhor que o espetáculo tem para oferecer. Nessas guerrilhas rasteiras, desculpem-me os mais aficionados ou os que cegamente insistem que a culpa é sempre dos outros... ninguém sai bem na fotografia.

Não há verdadeiros inocentes.

Todas as atitudes negativas são censuráveis, porque em várias ocasiões, mais à esquerda ou à direita, mais para norte ou para sul, uns e outros surgem como autores de instantâneos absolutamente lamentáveis. Apetece perguntar... que palhaçada é esta?!? Tenham santa paciência!

Mas somos meninos ou gente de bem, com nível e educação? Gente que sabe perder e vencer, sem deixar cair o coração para o chinelo? De onde vem este súbito (mas não novo) modus operandi, que parece ter contagiado algumas das pessoas ligadas a essas modalidades?

Onde nasceu a influência nefasta que degenerou nesta tendência de brigar, bater, ofender, empurrar e ameaçar tudo e todos, assim que soa o apito final? Que canalhice é esta?

Nesta fase, de cada vez que há um jogo decisivo, já não estamos apenas à espera do mais importante (saber quem ganha). Também nos questionamos sobre o que é que vai acontecer quando o encontro terminar: quem vai bater em quem, quem vai insultar quem, quem vai se queixar mais, em quem é que a polícia vai bater, quem vai ser detido, quem vai tentar apaziguar este e aquele, quem vai reclamar mais, quem vai interpor processos, fazer queixa-crime, quem vai isto e aquilo...

Que coisa tão feia e descaraterizada.

O desporto não é apenas de quem lá está agora, a achar que fica lá para sempre. O desporto existe desde a Antiguidade Grega e vai existir por muitos mais séculos. Por cá só será uma verdadeira escola de virtudes quando dispensar pessoas permanentemente corrosivas e tóxicas, que não sabem controlar emoções nem respeitar árbitros, adversários e adeptos.

Estará sempre a mais no desporto quem tem valores a menos. É preciso dizer isto com todas as letras, as vezes que forem necessárias!

O pior que pode acontecer a uma sociedade que vê no seu desporto um motivo de orgulho é permitir, acomodada e em silêncio, a normalização de toda esta delinquência, má-educação e falta de vergonha.

Até quando? Ao próximo jogo?