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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Collina, a prova viva que a educação e personalidade serão sempre mais eficazes do que o grito, a arruaça e o insulto

Duarte Gomes dá o exemplo do antigo árbitro italiano para pedir uma reflexão sobre certos comportamentos que grassam no futebol português, onde ainda na última temporada se viram gritos e insultos em túneis de acesso, ofensas verbais, pontapés e socos nas portas dos balneários dos árbitros, insinuações sem provas, entre outras situações

Duarte Gomes

FRANCK FIFE/Getty

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Tive o privilégio de participar em vários seminários UEFA, liderados pelo então presidente do Comité de Arbitragem, Pierluigi Collina.

Nessas ações havia sempre qualquer coisa nova para aprender e não era apenas sobre regras do jogo ou tomada de decisão. Com ele, tudo era assimilável, mas em bom. Tudo acrescentava valor.

O ex-internacional italiano, hoje um dos líderes máximos da arbitragem mundial, continua a ser, fora de campo, a extensão de tudo o foi lá dentro: o melhor dos melhores.

Recordo-me que num desses cursos, em Nyon (Suíça), Collina entrou numa sala repleta de árbitros, para lhes dirigir a palavra. Havia algum ruído de fundo, natural em momento de pausa, que se dissipou por completo antes que ele sequer chegasse ao palco.

Era sempre, sempre assim. A sua presença impunha respeito. O olhar, sereno e frio, falava mais do que mil palavras.

Collina nunca precisou dizer "calem-se, por favor", porque toda a sua linguagem corporal falava por ele. A sua atitude, em silêncio, dizia tudo.

Há pessoas assim... carismáticas.

Collina é a prova viva que educação, personalidade e imagem serão sempre mais eficazes do que grito, arruaça e insulto.

Um líder capaz, uma pessoa bem formada e com nível, consegue que todas as outras a respeitem e admirem, ainda que discordem ou censurem.

Não é para quem quer, é só para quem pode.

O exemplo raro do italiano - que, enquanto árbitro, teve a inteligência de utilizar os mesmos trunfos para se tornar no melhor da história (que ainda hoje é) -, podia e devia ser seguido por muitos dos nossos agentes desportivos.

Sem desprimor pela competência e qualidade técnica de muitos deles, é notório que lhes falta, a espaços, mais calma, serenidade e equilíbrio emocional.

Em Portugal continua a haver excessos comportamentais que pessoas de bem nunca podem ter em alta competição, ainda que escudadas na eterna questão da latinidade ou "cabeça quente".

Há condutas que simplesmente não podem acontecer. Têm que acabar, porque não são dignas, não são apropriadas, não são éticas.

Se o futebol é demasiado intenso para algumas pessoas (e eu aceito que seja), a solução é simples: elas têm que abandonar a atividade e dedicar-se a outras, mais anónimas e escondidas, onde não sejam exemplo para milhares e milhares de pessoas.

Quem tem um papel preponderante na formação de opinião, quem é protagonista e dispõe de algum espaço mediático, tem que assumir a responsabilidade inerente a essa notoriedade. Isto é tão básico que quase se torna ridículo escrevê-lo.

Quem está na linha da frente do jogo - seja em que papel for - está moralmente obrigado a vestir o papel de cavalheiro. A ser bom desportista. Errar uma, duas, três vezes, todos erram... errar todas as semanas, todos os meses, todas os anos, não.

Na época que findou, continuámos a assistir a alguns momentos que não se podem repetir numa indústria que luta para se valorizar e transcender.

Gritos e insultos em túneis de acesso (se as pessoas soubessem o que, às vezes, se passa por ali), ofensas verbais entre intervenientes máximos, socos e pontapés em portas de balneários dos árbitros, insinuações reiteradas sobre condutas ilícitas sem provas que as sustentem, comportamentos reprováveis dentro (e ao redor) das quatro linhas, formas de comunicação permanentemente incendiárias... todos estes exemplos (e há mais, como sabem) não podem continuar a fazer parte do espetáculo.

Por muito que pareçam normais, não são.

A sensação de normalidade advém do conformismo vencido com que todos olham para algo que está, na sua génese, muito, muito errado.

O jogo tem que ser disputado, dirigido e supervisionado por pessoas com o quilate de Pierluigi Collina: tecnicamente excelentes, pessoalmente superiores.

Haverá sempre uma diferença entre a eterna desculpabilização para o desnorte e a exigência de passarmos para outro nível, a este nível.

Não é fácil, porque não se consegue mudar pessoas de um dia para outro, mas ter consciência de onde estamos e para onde queremos ir é sempre um bom ponto de partida.

Este é um bom período para que se reflita, a sério, sobre formas de ser e comunicar.

Sobre formas de estar.

Todos os agentes desportivos devem fazê-lo com humildade, procurando a superação.

Não basta sabermos que somos dignos. É preciso mostrar aos outros que, quando a situação o exige, temos mesmo dignidade.