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Phil Mickelson criticado por vítimas do 11 de setembro por jogar em circuito financiado pela Arábia Saudita: “Ajudam a encobrir a história”

O vencedor de seis majors deu uma conferência de imprensa no âmbito do Open dos EUA, a primeira desde que se juntou ao LIV, circuito financiado pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita e que pretende rivalizar com ao PGA Tour. E Mickelson, um dos jogadores de maior renome por estes dias e que já ganhou 44 provas da prova americana, não ficou bem na fotografia

Carlos Luís Ramalhão

Warren Little/Getty

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Phil Mickelson, vencedor de seis majors de golfe, está debaixo de fogo depois de ter competido na LIV Golf Invitational Series, uma iniciativa da nova organização rival da PGA, a LIV, financiada por sauditas e muito criticada, principalmente pela sua associação ao desrespeito pelos direitos humanos. Acima de tudo, ao 11 de setembro.

Mickelson, que tinha feito uma pausa na carreira, em fevereiro, regressou agora para participar no Open dos EUA, que permite a inscrição de golfistas ligados à LIV, bem como à tradicional PGA.

Escreve a "ESPN" que o californiano ponderou cada resposta, escolhendo com cuidado as palavras enquanto respondia às questões que os jornalistas lhe colocavam. No passado, o golfista não fez tanta cerimónia ao criticar a USGA, a associação que organiza o Open dos EUA, e os outros organismos da modalidade.

“Já tive opiniões e ideias fortes, digamos, sobre a maioria dos órgãos governativos, e fiz um mau trabalho ao transmiti-lo. Fi-lo em público, e isso foi um erro. (…) [Hoje em dia] tento manter muitas dessas coisas à porta fechada”, disse Mickelson, cuja opinião acerca da “detestável ganância” da PGA Tour, antes de se juntar ao Fundo de Investimento Público Saudita e à sua LIV, o deixou em maus lençóis. O americano e outros 16 jogadores que competiram no evento inaugural da LIV foram suspensos pela PGA na passada quinta-feira.

Ainda que tendo o cuidado de não visar diretamente Phil Mickelson ou qualquer dos outros golfistas que optaram pela LIV, o rival Rory McIlroy não tem poupado nas críticas ao novo organismo. Também ele em contagem decrescente para o Open dos EUA, McIlroy considera que a LIV “é a nuvem que paira sobre o golfe neste momento”. “Estamos num torneio importante e é do que todos querem falar”, disse o golfista.

Sobre os colegas que optaram por um novo caminho, sem mencionar nomes, Rory McIlroy afirmou: “O meu pai disse-me, há muito tempo, que quando fazes a tua cama, deitas-te nela. E eles fizeram a cama deles”. Lembra o “The Guardian” que figuras como Dustin Johnson ou Bryson DeChambeau, golfistas da mesma geração que McIlroy, juraram fidelidade à PGA já em 2022, para depois assinarem pela LIV. McIlroy admite que acreditou em muita gente e, com isso, cometeu um erro.

Não é apenas da esfera do golfe que chegam críticas a Mickelson e companhia.

Durante a conferência de imprensa, o desportista de 51 anos foi confrontado com a carta que ele e outros colegas receberam de Terry Strada, viúva de uma das vítimas do 11 de setembro de 2001 e presidente da Coligação das Famílias Unidas do 9/11. “Estamos zangadas por estarem tão dispostos a ajudar os sauditas a encobrir a história. (…) Ao associarem-se aos sauditas, vocês tornam-se cúmplices da sua lavagem e ajudam-nos a conseguir a reputação que tão desesperadamente procuram”, escreveu Strada, lembrando que Osama bin Laden e 15 dos 19 terroristas ligados ao 11 de setembro eram de origem saudita.

Segundo a "ESPN", Mickelson recebeu um bónus de 200 milhões de dólares para assinar pela LIV, e respondeu: “Eu diria à família Strada (…) que tenho uma profunda empatia por ela. Não posso enfatizá-lo o suficiente”. Quando lhe perguntaram se falaria disso aos líderes da coligação, o norte-americano limitou-se a repetir a ideia anterior.

Nalguns meses, Phil Mickelson passou de ídolo das massas a um dos desportistas mais criticados dos Estados Unidos.

O abandono da PGA e, acima de tudo, a cedência perante os petrodólares sauditas, queimaram-lhe o estatuto. Na semana do seu aniversário, o mais veterano da história a ganhar um major enfrentará, talvez, o maior desafio da sua carreira: vencer o Open dos EUA, feito nunca conseguido, perante um público de Boston que não vai facilitar-lhe a vida.