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La Scaloneta e a última dança de Messi e Di María

O comentador e analista Tomás da Cunha disseca a Argentina de Scaloni, o treinador que conseguiu recuperar a essência do “toco y me voy” (uma tabela, se quisermos definir à portuguesa), tão característica da cultura futbolera do país sul-americano, e alavancar uma equipa que está em verdadeira comunhão coletiva com a sua estrela, Lionel Messi, que terá no Catar talvez a última oportunidade de jogar um Mundial ainda no auge

Tomás da Cunha

Catherine Ivill - UEFA/Getty

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O olhar vazio de Messi na direcção do troféu de campeão do mundo, após a final perdida no Brasil perante a Alemanha, é um dos momentos mais simbólicos do futebol no século XXI. Tão perto, mas tão longe. As sucessivas desilusões do argentino ao serviço da selecção tiveram um ponto final no mesmo estádio, quando a albiceleste derrotou a canarinha na decisão da Copa América de 2021. Todos correram para abraçar o camisola 10, ajoelhado no relvado do Maracanã. Estava quebrado um longo jejum de títulos - já durava desde 1993 – e logo na casa do eterno rival.

Essa conquista, obtida em plena fase de transição geracional, representa um sonho cumprido por uma nação futebolística que andava há demasiado tempo sem ganhar, mas também a libertação completa de Lionel Messi e Ángel Di María. Passaram muito tempo no “quase”. A caminho do Mundial do Catar, tirar esse peso de cima dos ombros aumenta o desejo de corrigir o que aconteceu em 2014. Não havia uma candidatura tão clara da Argentina desde 2006, mesmo após o desastre de 2002 – num ano em que Bielsa não convocou Riquelme, na altura um dos melhores jogadores do mundo. Manter o estado de graça até ao final do ano é o desafio de Scaloni.

Não tendo o estatuto de figura do passado da albiceleste ou o currículo de um treinador com provas dadas, foi o trabalho do antigo jogador do Deportivo que o levou à credibilidade. O título não chegou por acaso. Permitiu que nomes como Emiliano Martínez, Cuti Romero, Guido Rodríguez, Paredes, Rodrigo de Paul e Gio Lo Celso se chegassem à frente (não esquecendo Lautaro), mas também recuperou as melhores versões de Di María e Messi ao serviço da selecção. Não se via este misto de fluidez e alegria no futebol argentino há anos.

Ganhar traz felicidade, sobre isso não há dúvidas. Mas Scaloni conseguiu fazê-lo enquanto recuperava a essência do “toco y me voy” (uma tabela, se quisermos definir à portuguesa), tão característica da cultura futbolera do país sul-americano. Mais do que a literalidade, entramos num campo romântico e nostálgico onde a técnica para passar, receber, detectar o espaço e enganar o adversário é o caminho para o sucesso. Na canção com o mesmo nome, diz-se que “este es el juego que siento y no pienso parar”. Um jogo colectivo em que a individualidade é livre para criar e emocionar o público.

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